O enfermeiro acredita na capacidade de superação dos indivíduos frente as desavenças da vida, mesmo porque, existem evidências científicas que mostram a contribuição da saúde para a qualidade de vida das populações.

25
Set 09

Video inserido por Enfermagem Aberta.

 

 

Para quem não sabe, Pão de Deus é um “doce” ou melhor um “bolo” muito gostoso com coco ralado em cima. A maioria das pastelarias ou confeitarias vendem e não é muito caro. Todos podem comprar. Excepto…

Um casal foi a um supermercado fazer umas mini comprinhas devido estarem completamente no vermelho, isto é, com muito pouco dinheiro.

Chegando na loja escolheram somente os produtos essenciais como: batata, cebola, alho, …essas coisas e foram colocando dentro da cesta. Quando estavam se dirigindo para o caixa, passaram pelo sector Padaria e avistaram um grande e vistoso Pão de Deus.

Parecia muito fofinho, delicioso, maravilhoso…

Olharam um para o outro e com as bocas “cheias d água” começaram imediatamente a contar o pouco dinheiro que tinham e por final acabaram resolvendo levar o magnífico Pão de Deus.

No caminho de casa não falavam de outra coisa, tendo um deles até mesmo sugerido come-lo de imediato, porém o outro, alegando que seria melhor fazê-lo em casa sentado no sofá à ver uma boa TV, não concordou.

Ao chegarem à porta de casa depararam-se com um indivíduo deitado na entrada do prédio, devo dizer que é coisa rara por essas bandas, mesmo porque, a maioria por vergonha costuma se esconder. Muito magro, sujo, com uma sacola igual a que eles carregavam, porém cheia de roupas sujas, olhou para eles e em seguida abaixou a cabeça.

Frente aquela situação e com um jeito só deles, se dirigiram logo ao sujeito e perguntaram:

“ Senhor que fazes aí deitado?”

E o senhor respondeu:

“Eu estou à vossa espera.”

E lá se foi o Pão de Deus.

Agora se pergunta: E aí… o que eles ganharam com isso?

Isso realmente eu não sei. Eu só sei que ambos são muito felizes.

Apesar dessa história verídica parecer um tanto ridícula para muitos em comparação a várias outras, acaba por mostrar que embora vivamos em um mundo de ilusões, dificuldades e injustiças, parece que não custa muito ser um pouco feliz; seja repartindo um pouquinho com aqueles que nada têm ou de qualquer outra forma nem que seja à comer o seu Pão de Deus logo a saída do supermercado. 

Observador desconhecido.

 

Publicado por Enfermagem Aberta às 16:59

21
Set 09

 

Algumas recomendações da ARSLVT (video).

 

 

Enf. Jorge Franco

A oportunidade e a necessidade do ser humano em conhecer lugares diferentes, os compromissos inesperados e urgentes, o trabalho, as viagens de estudo/pesquisa, visitas a familiares e amigos, entre outros muitos motivos levam com que milhares de pessoas se desloquem diária e rapidamente a várias partes deste planeta. O mundo parece que encolhe frente a capacidade de mobilidade das pessoas que é uma característica marcante da sociedade moderna. Contudo, observa-se que devido ao excesso de confiança ou por falta de conhecimento, muitas pessoas tendem observar somente as coisas boas e agradáveis que sonham vivenciar e realizar e esquecem ou descartam os possíveis riscos que podem estar associados.

Os países anfitriões costumam se preparar para receber os seus visitantes da melhor maneira possível e seguem diversas recomendações internacionais de acolhimento e segurança. Todavia, cada destino é marcado por oportunidades e vulnerabilidades o que exige de todos muita atenção e sobretudo prevenção. Estudar previamente o local para onde se quer ir, acredita-se ser uma maneira eficaz de evitar riscos e surpresas desnecessárias. Saber um pouco da cultura local (hábitos/costumes), alimentação e as condições higiénicas, o tipo de alojamento, a temperatura, humidade e o nível de poluição, as doenças mais comuns (endémicas/epidémicas), a qualidade dos serviços de saúde são alguns pontos de extrema importância para qualquer viajante. Muitas agências de viajem fornecem informações nessa matéria, porém, estas tornam-se, muitas vezes, insuficientes devido a sua complexidade. A OMS (1) destaca alguns factores importantes que podem não só determinar a probabilidade de exposição a muitos agentes infecciosos, como também influenciar sobre a necessidade ou não da realização de uma consulta em uma unidade especializada (consulta do viajante): destino da viajem, a sua finalidade e duração, a época escolhida, a conduta e o estilo do viajante.

Todos sabemos que a humanidade tem o seu passado marcado por diversas epidemias que assolaram diferentes países e dizimaram suas populações como é o caso das Pestes (Atenas, Siracusa, Antonina, Negra), Cólera, Varíola, entre outras (2). Mais recentemente observamos episódios de doenças emergentes como é o caso tuberculose resistente, infecções bacterianas agudas, infecções de veiculação hídrica, salmoneloses, entre outras para não falar das infecções víricas que continuam sendo um desafio para a comunidade científica mundial.

Como base nesse passado podemos afirmar que todos temos a responsabilidade de garantir não só à nossa saúde como também a de todos à nossa volta. A OMS (1) cita as responsabilidades de todo o viajante: 

  1. Reconhecer e aceitar os riscos.
  2. Buscar aconselhamento de saúde antecipadamente preferencialmente 4 a 8 semanas antes de viajar.
  3. Receber as vacinas recomendadas e obter informações sobre medidas sanitárias.
  4. Fazer atempadamente um planeamento cuidadoso.
  5. Providenciar caso necessário um boletim médico.
  6. Fazer um seguro saúde viajem se possível.
  7. Ser responsável pela saúde e bem-estar de crianças que acompanham.
  8.  Adoptar medidas de precaução para evitar transmitir qualquer doença infecciosa a outras pessoas durante e depois da viajem.
  9. Informar as autoridades de saúde sobre qualquer doença no regresso.
  10. Mostrar respeito pelo país anfitrião e a sua população.   

Muitas pessoas apresentam doenças pré existentes, normalmente crónicas, que requerem controlo permanente. Recomenda-se que estas pessoas procurarem ajuda para uma avaliação cuidadosa de seu estado de saúde e que solicitem o fornecimento de medicamentos em quantidade suficiente até o seu retorno. É bom lembrar, a importância de levar por escrito informações que evidenciem a patologia, o medicamento e a dose que normalmente consome e recomendações em caso de urgência. A OMS (1) cita algumas doenças, não excluindo outras, nas quais todas as pessoas devem procurar aconselhamento médico antes de viajar:

- Doenças cardiovasculares

- Hepatite crónica

- Doenças intestinais inflamatórias crónicas

- Doenças renais crónicas que requerem diálise

- Doenças respiratórias crónicas

- Diabetes Mellitus

- Epilepsia

- Anemia severa

- Transtornos mentais graves

Algumas vacinas são obrigatórias em alguns países e recomendáveis em outros. Países onde os riscos são significativos torna-se necessário obter um boletim médico onde conste, para além das orientações, as vacinas que foram administradas. A vacinação apesar de ser um procedimento eficaz, não garante protecção contra todos os riscos, mesmo porque, existem doenças nas quais ainda não existe protecção específica, o que reforça a permanente necessidade de medidas de precaução. Segundo a OMS (1) não existe um calendário único de imunização para todos os viajantes. Cada calendário deve ser personalizado e adaptado observando as imunizações anteriores, as características específicas da viajem e o contexto individual. Alerta para que todas as pessoas que apresentem no regresso febre, diarreia persistente, vómitos, transtornos urinários, problemas dermatológicos que procurem imediatamente uma unidade de saúde. Para os portadores de doenças crónicas, citadas anteriormente, esta visita torna-se obrigatória.

Em 2008 a OMS (1;8) disponibilizou uma relação de vacinas: 1) de uso comum na maioria dos países (especialmente em crianças); 2) de uso selectivo para os viajantes (aconselháveis para quem vai viajar para países endémicos) e 3) aquelas que são obrigatórias para a entrada nalguns países:

1)    Uso comum:

Difteria; tétano; Tosse convulsa; Gripe; Haemophilus influenzae B; Hepatite B; Papilomavirus Humano; Anti-Pneumocócica; Poliomielite; Rotavirus; Sarampo; Papeira; Rubéola; Tuberculose; Varicela.

2)    Uso selectivo para Viajantes:

Cólera

Actualmente não é exigida como condição de entrada em nenhum país. Contudo, os viajantes de alto risco como trabalhadores de ajuda humanitária entre outros devem receber a vacina ao se dirigirem para regiões endémicas.

Tipo: inactivada; Dose: duas, com intervalo de uma semana; Contra indicação: hipersensibilidade; Reacções adversas: transtornos digestivos leves ocasionais; Administração: três semanas antes da partida

Encefalite Japonesa

Principal causa de encefalite vírica na Ásia. Sua incidência tem aumentado em países como Bangladesh, Índia, Nepal, Paquistão, norte de Tailândia e Vietname. Diminuído no Japão e na península Coreana e em algumas regiões da China.

Tipo: inactivada; Dose: duas, com intervalo de quatro semanas; Contra indicação: hipersensibilidade; Reacções adversas: pode ocorrer reacção cutânea ou sistémica leve e ocasionalmente reacção grave com urticária generalizada, hipotensão e colapso; Administração: no mínimo duas doses antes da partida.

Meningocócica

 Actualmente a Arábia Saudita exige a vacina tetravalente (A, C,Y,W-135) as pessoas que visitam Meca anualmente (Hajj) ou em qualquer período (Umrah).

Tipo: Inactivada; Dose: única; Duração da protecção: 3 a 5 anos; Contra indicação: reacção grave a dose anterior; Reacções adversas: reacções locais leves e nalguns casos febre ligeira; Indicação: 2 semanas antes da partida. Observações: obrigatória para os viajantes de Hajj. A vacina não protege crianças menores de 2 anos de idade.  

Encefalite por carraças (carrapatos)

 Só é recomendada para viajantes de alto risco como aqueles que viajam para zonas infestadas.

Tipo: inactiva; Dose: duas, com 4 a 12 semanas de intervalo e reforço 9 a 12 meses após a última dose; Contra indicação: Hipersensibilidade; Reacções adversas: locais e raramente febre; Administração: segunda dose duas semanas antes da partida.

Hepatite A

Viajantes que partem para zonas de risco moderado a alto e aquelas com alto risco de contrair a doença.

Tipo: Inactivada; Dose: duas, com intervalo de 6 a 24 meses; Contra indicação: hipersensibilidade a dose anterior; Reacção adversa: local ou sistémica leve.

Anti-Rábica

Viajantes que se dirigem para zonas de alto risco. Segundo a OMS calcula-se que 13% dos viajantes do Sudeste Asiático entram em contacto com animais locais.

Tipo: vacina moderna (em cultivo celular ou ovos embrionários); Doses: três; Reacções adversas: pequena reacção local ou sistémica.

Febre Tifóide

Risco elevado especialmente no subcontinente Indiano.

Tipo: Ty21a (oral) e Vi CPS (injectável); Dose: Uma de Vi CPS ou Três a quatro de Ty21a viva, com intervalo de 2 dias e reforço a cada 2 a 3 anos; Contra indicações: Uso de Proguanil, mefloquina e antibióticos 3 dias antes ou depois de começar a administração de Ty21a. Reacções adversas: nenhuma significativa. Indicação: 1 semanas antes da partida. Observações: A Vi CPS não é recomendada para crianças menores de 2 anos de idade.

3)    Obrigatória:

Febre-amarela

Muitos países exigem o Certificado Internacional de Vacinação contra a Febre-amarela na travessia de suas fronteiras aos viajantes procedentes de países com risco de transmissão e em alguns casos até mesmo a todos os viajantes. Existem situações em que o trânsito interno (visitas a zonas endémicas) é recomendada a vacinação a qualquer pessoa independente de ser turista ou não. A validade do certificado Internacional inicia após o 10º dia da vacinação e tem duração de 10 anos. Os países de língua oficial portuguesa exigem a vacinação contra a febre-amarela aos visitantes procedentes de zonas de risco. Em Portugal, segundo a OMS, este requisito só se aplica as pessoas que visitam os Açores e a Madeira.

Tipo: Vírus vivos; Dose: única, com reforço a cada 10 anos; Contra indicação: Hipersensibilidade a dose anterior, alergia a proteína do ovo, indivíduos imunodeprimidos; Reacções adversas: raramente encefalite e problemas hepáticos; Observação: não administrar em crianças menores de 9 meses de idade.

Os países que actualmente exigem a todos os visitantes a vacina contra a Febre-amarela na passagem de suas fronteiras são: Angola, Benim, Burkina Faso, Burundi, Camarões, Congo, Costa do Marfim, Gabão, Gana, Guiana Francesa, Libéria, Mali, Niger, República Centro Africana, República Democrática do Congo, Ruanda, São Tomé e Príncipe, Serra Leoa e Togo.    

É importante que se diga que para além desses países mencionados acima, existem outros onde o risco de transmissão é evidente em algumas áreas, apesar de não ser exigido a vacinação como condição de entrada: Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Etiópia, Gâmbia, Guiné Equatorial, Guiné-Bissau, Quénia, Mauritânia, Panamá, Paraguai, Peru, Senegal, Somália, Sudão, Suriname, Tanzânia, Trinidad e Tobago, Uganda, Venezuela.   

Também é bom lembrar que para além destas doenças mencionadas existem muitas outras que infelizmente não existem vacinas para protecção. Estas podem ser transmitidas através dos alimentos, água insalubre, picada de insectos, contacto ou mordedura de animais, ar e solo contaminado, contacto com sangue infectado e através das relações sexuais inseguras. Algumas são conhecidas, outras nem tanto, o que faz com que todas as pessoas tenham que ter obrigatoriamente alguns cuidados. A OMS destaca algumas doenças que não existem vacinas específicas para protecção ou que estas encontram-se indisponíveis na maioria dos países: Dengue – Leptopisrose – Paludismo - Diarreia do viajante - Doença de Lyme (Borrelia burgdorferi) – Burcelose - Carbúnculo (Bacilo anthracis) - Chikungunya (vírus chikungunya) – Hantavírus - Esquistosomose (schistosoma mansoni, japonicum, haematobium) - Febres Hemorrágicas – Filariose – Giardíase - Hepatite C - Hepatite E - Legionolese (legionella) - Listeriose (listeria monocytogenes) – VIH entre outras.  

Como vimos, a OMS segue vigiando a evolução das doenças infecciosas, alertando, compartilhando conhecimentos técnicos e articulando respostas necessárias com o intuito de proteger as populações. Em 2005 finalizou o novo Regulamento Sanitário Internacional (RSI) (3;7) que entrou em vigor em Junho de 2007. Este mais abrangente e eficaz acompanha melhor a evolução de todas as enfermidades e os factores que determinam a sua aparição e transmissão a nível mundial. Traz algumas novidades em relação ao RSI de 1969: a obrigatoriedade dos estados em notificar rapidamente a OMS qualquer emergência de Saúde Pública de importância internacional como: eventos de grande repercussão que exigem uma acção imediata; surtos de doença que tenham potencial epidémico independente de natureza, origem ou fonte; eventos incomuns ou imprevistos ou com elevada morbidade e mortalidade; eventos que possam causar restrições ao comércio ou tráfego de pessoas. O novo RSI refere também a obrigação dos estados em instalar um mínimo de capacidades básicas para detecção, avaliação e notificação de riscos em matérias de saúde pública; a autorização, pela OMS, do uso de outras fontes de informação, além das notificações oficiais dos países; melhor vigilância e controlo sanitário bem como melhoria de medidas aplicadas em portos, aeroportos e pontos fronteiriços; recomendação de medidas de saúde pública para o manejo de emergências internacionais. O Regulamento institui um comité de emergências para avaliar os evento e formular, modificar ou prorrogar recomendações rapidamente. Apresenta um comité de revisão, que presta assessoria na formulação de recomendações sobre emendas ao Regulamento e modificações de recomendações permanentes.

A OMS (4) estabelece sete estratégias de trabalho para orientar a aplicação do Regulamento Sanitário Internacional 2005:

1ª - Impulsionar as alianças mundiais que inclui ela própria, os países membros e todos os sectores pertinentes como a saúde, agricultura, transporte, comércio, educação e defesa.

2ª – Fortalecer os sistemas nacionais de vigilância, prevenção e controle.

3ª – Fortalecer a segurança sanitária global dos viajantes e transportes.

4ª – Fortalecer os sistemas mundiais de alerta e resposta da OMS.

5ª – Fortalecer a gestão de riscos específicos.

6ª – Proteger os direitos, obrigações e procedimentos.

7ª – Realizar estudos e vigiar e acompanhar os progressos realizados.

Actualmente o mundo vem sendo muito castigado pela Gripe A, tendo a OMS e parceiros respondido em ritmo acelerado e de forma eficaz. A própria agência coloca que o mundo está melhor preparado para enfrentar o desafio e que é imprescindível continuar aplicando as medidas necessárias no que tange a vigilância, diagnóstico, tratamento precoce e controle da infecção. Alerta para a possibilidade da pandemia vir afectar mais os países pobres, podendo originar elevadas taxas de mortalidade, o que mostra que a evolução da doença vem sendo seguida em tempo real (5).

Frente a tudo que foi referido, não é difícil de imaginar que o papel do enfermeiro neste contexto prende-se a prevenção e ao fortalecimento de comportamentos positivos de saúde que garantam o bem-estar dos indivíduos onde quer que estejam.

O enfermeiro observa com muita atenção as solicitações e recomendações da OMS. No terreno tem procurado orientar as famílias que pretendem viajar para as regiões consideradas de risco, referenciando-as as unidades especializadas (consulta do viajante). No que toca as pessoas portadoras de doenças crónicas que regressam do estrangeiro, estas tem sido avaliadas e encaminhadas de imediato aos seus médicos assistentes consoante as necessidades. Contudo, observa-se que muitos indivíduos/famílias não procuram a consulta do viajante, talvez pela não obrigatoriedade da apresentação de Certificado Internacional de Vacinação para a entrada em muitos países. Todavia, como já foi referido, muitos destinos escondem riscos potenciais, o que gera a urgência de programas educativos de proximidade que reforcem medidas de precaução e protecção tanto para as pessoas que se dirigem para países onde é obrigatória imunização específica, como para muitos outros. Acredita-se que a “saúde do viajante” deva ser uma matéria de domínio de todos os enfermeiros que actuam nas comunidades, principalmente aos que se especializam em Enfermagem Comunitária.

Ao pesquisar diversos sites que mencionam Cursos de Especialização em Saúde Comunitária, constatou-se que alguns não referem em seus planos de estudo uma cadeira específica nesta área. Acredita-se que a inclusão e o aprofundamento dessa temática contribua para que os enfermeiros possam melhor intervir de modo a minimizar os riscos e a importações de doenças, entendendo risco como o simples desconhecimento dos indivíduos. A Ordem dos Enfermeiros (6) é clara quando diz “os enfermeiros encontram-se numa posição única para identificar factores de risco, providenciar informação acerca do modo mais apropriado de gestão desses mesmos riscos e da divulgação dos benefícios da adopção de estilos de vida saudáveis e evitação de comportamentos de risco”.

Para finalizar, o alastramento vigoroso do vírus da gripe A, mostra a vulnerabilidade humana e põe em teste a nossa resistência e capacidade em ultrapassar obstáculos que muitas vezes são consequências da própria acção do homem. A devastação das florestas e a invasão do meio natural dos agentes; práticas de agricultura perversas ao ambiente; a concentração de “riquezas” que deslumbra o homem pouco informado e gera área urbanas super povoadas e bolsas de pobreza e doenças; a poluição atmosférica; as alterações climáticas; mudanças constantes de hábitos de vida e comportamentos, que facilitam a resistência dos microrganismos e dificulta o seu combate; o transporte irresponsável que facilita o rápido deslocamento de agentes e vectores causadores de doenças e o seu aparecimento em lugares nunca vistos são factores, entre muitos, que incomodam os mais conscientes. A contribuição do enfermeiro estende-se para além do tratamento das sequelas daí resultantes, pois tem em suas bases técnico-científicas instrumentos de mobilização e prevenção. Devido a abrangência e importância das questões relacionadas e a capacidade irrefreável de mobilidade das pessoas, torna-se imprescindível a intervenção fundamentada deste profissional, mesmo porque, questões que envolvem a educação/prevenção/protecção da saúde são de sua responsabilidade.

        

Bibliografia

 

1 - Organização Mundial de Saúde - Viajes Internacionales y Salud : situación en 1 de enero de 2008. Versão em espanhol. Disponível:

http://whqlibdoc.who.int/publications/2008/9789241580403_spa.pdf

2 - Rezende, Joffre. M - As Grandes Epidemias da História. Disponível: www4.ensp.fiocruz.br/biblioteca/dados/txt_908756715.ppt 

3 – Organização Mundial de Saúde – Reglamento Sanitário Internacional 2005. Segunda Edición. Versão em espanhol. Disponível: http://www.who.int/ihr/es/index.html  

4 - Organização Mundial de Saúde - Áreas de trabajo para su aplicación

http://www.who.int/ihr/AreasofworkES.pdf

5 - Organização Mundial de Saúde - Declaración de la Directora General de la OMS Gripe por A (H1N1). Abril de 2009. Disponível: http://www.who.int/mediacentre/news/statements/2009/h1n1_20090429/es/index.html.

6 - Ordem dos Enfermeiros – Servir a Comunidade e Garantir Qualidade. Disponível:

http://www.ordemenfermeiros.pt/index.php?page=103&news=978&version=4

7 - Organização Pan-Americana da Saúde - Regulamento Sanitário Internacional – Informações básicas para órgãos normativos e Unidades Federadas. Disponível:

http://pfdc.pgr.mpf.gov.br/grupos-de-trabalho/saude/docs_publicacao/rsi_cartilha_opas.pdf

8 - Organização Mundial de Saúde – Estadísticas Sanitarias Mundiales 2009. Versão em espanhol. Disponível:

http://www.who.int/whosis/whostat/ES_WHS09_Full.pdf

9 - Organização Mundial de Saúde - Guía de la Organización Mundial de la Salud para planificar la comunicación en caso de brotes epidémicos. Edición del 2008. Versão em espanhol. Disponível: http://whqlibdoc.who.int/publications/2009/9789243597447_spa.pdf

10- Jornal Oficial da União Europeia - DECISÃO DA COMISSÃO de 28 de Abril de 2008. Disponível: http://eur-lex.europa.eu/LexUriServ/LexUriServ.do?uri=OJ:L:2008:120:0015:0016:PT:PDF

11- Direcção Geral de Saúde - Programa Nacional de Vacinação 2006. Orientações Técnicas. Circular Normativa Nº 08/DT de 21/12/05. Disponível:

http://www.acs.min-saude.pt/wp-content/uploads/2007/12/vacinacaocircularnormativaorientacoestecnicas10.pdf

 


01
Set 09

 

 

Enf. Jorge Franco

 

O trabalho faz parte da história da humanidade pois permite que o homem satisfaça suas necessidades, evolua, crie, transforme o meio e usufrua das consequências. Muitos estudiosos consideram-no instrumento gerador de felicidade e bem-estar, um operador indispensável na estruturação do próprio ser. MARX (1) aborda trabalho como sendo “ um processo em que ambos, o homem e a natureza, participam e no qual o homem, de sua livre vontade regula e controla as relações materiais entre si próprio e a natureza. Logo ao actuar no mundo externo e ao modifica-lo ele muda a sua própria natureza”.

O trabalho observado por vários ângulos e perspectivas, como a religiosa, psicológica, filosófica e económica mostra a busca permanente por uma sensação de liberdade, satisfação, uma oportunidade para realizações pessoais, um veículo para se obter uma melhor qualidade de vida. Logo a importância do equilíbrio dentre homem/trabalho/ambiente torna-se fundamental para qualquer conquista. Contudo, esse equilíbrio foi sempre muito perturbado por eventos resultantes de ambientes inapropriados, processos de trabalho desajustados, falta de organização, ausência de pensamento ecológico, ineficácia de medidas de combate aos acidentes e doenças decorrentes do local de trabalho e do processo produtivo. A enfermagem não fica atrás, pois é marcada desde o seu surgimento até os dias de hoje por acidentes e doenças profissionais. Na sua história, para além dos casos não registados, temos o de Florence Nightingale (FN) que no desempenho de suas funções durante a guerra da Criméria, contraiu uma febre que lhe minou as energias (2).  

Muitos pesquisadores ligados a Enfermagem do Trabalho colhem vestígios dessa época na tentativa de associar FN a saúde ocupacional. Alguns consideram que o facto de a enfermeira ter cuidado dos soldados, considerados funcionários do Ministério da Guerra na época, e ter tratado de suas feridas, vistas como acidentes de trabalho, contribui para a associação.   

Todavia, o surgimento da enfermagem do trabalho é algo ainda obscuro. Existem estudos que evidenciam a inglesa Phillipa Flowerday (1867) como sendo a primeira enfermeira do trabalho. Esta prestava atendimentos aos empregados, não só na fábrica onde trabalhava como também em suas residências. Outras enfermeiras também são consideradas pioneiras na área, como Elisabeth Parry (1858), Betty Moulder (1888) e Ada Mayo Stewat (1895). Os estudiosos acreditam que as lutas e conquistas dessas enfermeiras representam marcos históricos, pois promoveram o surgimento e desenvolvimento da especialidade ao cultivarem o interesse de outras em várias partes do mundo. Bulhões (3), descreve um pouco da evolução da Enfermagem do Trabalho no século passado em alguns países considerados desenvolvidos:   

Austrália - Em 1976 foi criado a Associação de Enfermeiros de Saúde Ocupacional da Austrália que se integrou a Federação Australiana de Enfermagem. Abriram-se vários Cursos de Especialização garantindo o desenvolvimento da especialidade na época. Em 1980 o país já contava com 1500 enfermeiros do trabalho actuando em várias empresas.  

Estados Unidos – Em 1942 foi fundado a American Association of Industrial Nurses (AAIN). Em 1968 já havia no país 19.500 enfermeiros que exerciam actividades na área da Enfermagem do Trabalho. Em meados de 1976, os enfermeiros já eram responsáveis pela gerência dos programas de saúde ocupacional na quase totalidade das empresas. Por possuírem formação especializada, eram capazes de desenvolver, implementar, avaliar e coordenar a distribuição de assistência à saúde. Aplicavam o processo de enfermagem congruente com as necessidades dos trabalhadores, participavam de programas de educação continuada e de formação, desenvolviam projectos de prevenção de doenças ocupacionais e acidentes de trabalho, tinham habilidades clínicas suficientes e um profundo conhecimento em ciências do comportamento, o que lhes permitiam realizar aconselhamento em saúde mental.

Finlândia - Em 1978 já actuavam no país cerca de 1343 enfermeiros do trabalho e desfrutavam de um grande prestígio devido a sua alta qualificação. Assumiam papel de gerência e desenvolviam diversas actividades como avaliação física e psicológica dos trabalhadores, programas de educação em saúde, assessoria na área segurança, cursos de primeiros socorros, confecção de relatórios, entre outras. Em 1980 a Associação Finlandesa de Enfermeiros do Trabalho já tinha 1200 membros inscritos.

França - O enfermeiro do trabalho têm presença obrigatória nos serviços de saúde ocupacional desde 1946. Em 1969 a legislação Francesa já obrigava as empresas com mais de 500 trabalhadores a terem em seu quadro um enfermeiro do trabalho a tempo inteiro.

Holanda - A Associação Holandesa de Enfermeiros do trabalho foi criada em 1946 e os primeiros cursos de saúde ocupacional surgiram em 1960. Em 1982, já existia cerca de 600 enfermeiros do trabalho que desenvolviam actividades no campo administrativo, assistencial e de ensino.

Reino Unido - Em 1934 eram realizados cursos para “enfermeiros da indústria”. Bulhões (50) refere que a partir de 1952 após reunião do Comité da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e Organização Mundial de Saúde (OMS) o curso tornou-se mais completo e se projectou, a partir de então, “ à enfermagem para a saúde dos trabalhadores”. A mesma autora cita Sleney que coloca que o curso “preocupou-se, desde o início, não apenas em preparar os enfermeiros para o novo campo de trabalho, mas, ao mesmo tempo, em garantir através desses cursos, um excelente padrão de assistência de enfermagem e assegurar a satisfação no trabalho nessa especialidade”.

Suécia - Desde 1980 que os enfermeiros de trabalho integram a equipe de saúde ocupacional e desenvolvem suas actividades em estreita relação com os engenheiros de segurança. A Associação de Enfermeiros do Trabalho da Suécia contabilizava 2000 enfermeiros inscritos nesta data. Os cursos de especialização formavam cerca 200 enfermeiros por ano.  

BULHÕES (3), menciona também a ocorrência de um seminário sobre formação de Enfermeiros do Trabalho, realizada em 1969 pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) onde participaram a OMS, Associação Internacional de Saúde Ocupacional e o Conselho Internacional de Enfermagem. Nesse evento debateram-se as experiências vivenciadas na área por diversos países como: Brasil, Espanha, EUA, Finlândia, França, Grécia, Itália, Noruega, Reino Unido, Suécia e a antiga URSS.       

Como podemos notar a Especialização na área Enfermagem do Trabalho é uma realidade, a muito tempo, em muitos países. Considerando que o estudo de Bulhões data de mais de vinte anos e que já foram realizadas diversas Conferências Internacionais desde então, podemos imaginar que muita coisa mudou, e para melhor. Além dos países mencionados, outros como Colômbia, Chile, Argentina, Cuba, Canada apresentam instituições de ensino que ministram cursos de Pós Graduação e/ou Mestrados e Doutoramentos na área. Logo podemos afirmar que a Enfermagem do Trabalho vem aprofundamento conhecimentos através do desenvolvimento de pesquisas que visam fundamentar teoricamente a prática profissional. RASTEIRO (4) com uma visão alargada de saúde coloca “a globalização da Enfermagem do Trabalho passa pela construção de pontes internacionais tais como parcerias e intercâmbios em educação/formação, em investigação, em partilha de experiências profissionais nos vários países”.

A Ordem dos Enfermeiros Portugueses (5) não menciona o curso de Especialização em Enfermagem do Trabalho na listagem de cursos de Pós Licenciatura de Especialização. Em uma página informativa em seu site informa “agora poderá consultar neste espaço as listagens completas de todos os Cursos de Pós Licenciatura de Especialização em Enfermagem que mereceram parecer positivo da Ordem dos Enfermeiros e já têm autorização de funcionamento” e cita: Comunitária; Saúde Infantil e Pediátrica; Médico Cirúrgica; Reabilitação; Saúde Materna e Obstétrica; Saúde Mental e Psiquiátrica. O que nos leva a pensar que ainda não estão criadas as condições necessárias para o surgimento da especialidade. RASTEIRO (4) diz “ vai ser frequente encontrar o Enfermeiro do Trabalho a exercer com enfermeiras/os de outros países ou mesmo continentes (União Europeia, Mercosul) ” e acrescenta “para isso acontecer é necessário que a formação em Enfermagem do Trabalho seja globalmente relevante”.

O II Congresso da Federação de Enfermeiras do Trabalho da União Europeia (6) realizado na cidade de Estrasburgo no ano de 2000, teve como tema central "Europeus: tornando a saúde e o bem-estar no trabalho uma verdadeira parceria". Neste, a enfermeira Janine Bigaignon-Fanchet-te coloca que “ a evolução do trabalho irá exigir dos profissionais de saúde ocupacional a competência necessária para enfrentar as mudanças”. Durante os debates enfatizou-se a necessidade dos Enfermeiros do Trabalho “adquirirem competência e as qualificações necessárias para que possam actuar com segurança no cenário futuro da saúde ocupacional”.

A OMS não deixa dúvidas quando refere “o Enfermeiro do Trabalho está, cada vez mais, a tornar-se um elemento chave na prática da Saúde no Trabalho; é o enfermeiro que, muitas vezes sozinho, assume a inteira responsabilidade pelo serviço de Saúde no Trabalho em alguns lugares.

Bulhões (3), é clara quando diz que a especialidade Enfermagem do Trabalho “é destinada ao cuidado daqueles que trabalham. Sua atenção volta-se para os trabalhadores de todas as categorias e de todos os sectores de ocupação, onde quer que se encontrem. Qualquer destinatário ou receptor desse cuidado profissional, que por acaso aí se acrescente, tais como: família, empresa, comunidade, serão incluídos por força da assistência que se destina e reserva, em primeiro lugar ao trabalhador. Se assim não for, de outra forma, teremos enfermagem em saúde pública, enfermagem em saúde da comunidade, enfermagem em saúde materno-infantil e, não enfermagem em saúde dos trabalhadores”. A American Association of Occupational Health Nurses (AAOHN) (7) define Enfermagem do Trabalho como “ prática especializada que providencia cuidados de saúde aos trabalhadores”. Enfatiza a promoção, protecção e recuperação da saúde dos trabalhadores dentro do contexto de um ambiente de trabalho. Coloca que “a prática da Enfermagem do Trabalho é autónoma e os enfermeiros do trabalho tomam decisões de enfermagem independentes em Serviços de Saúde no Trabalho estabelecidos – o fundamento para a enfermagem do trabalho é baseado na investigação com ênfase na optimização da saúde, na prevenção da doença e acidente e na redução dos riscos de saúde” (7).

Com base no referido conclui-se que a Enfermagem do Trabalho não pode ser absorvida por qualquer outra especialidade visto ser orientada por objectivos que têm como base as necessidades específicas dos trabalhadores com foco no trabalho e no ambiente de trabalho.

No que refere a Enfermagem do Trabalho a legislação Portuguesa - Lei n.º 7/95 de 29 de Março que foi alterada no ano de 2000 referia:

Artigo 23; Alínea 5: “O médico e o enfermeiro do trabalho exercem as suas funções com independência técnica e em estrita obediência aos princípios da deontologia profissional”. Alínea 6: “Considera-se enfermeiro do trabalho o enfermeiro com o curso de estudos superiores especializados de Enfermagem de Saúde Pública com formação específica no domínio de saúde no trabalho”. Alínea 7: “ No caso de insuficiência comprovada de enfermeiros do trabalho qualificados, nos termos referidos no número anterior, poderão ser autorizados pela Direcção-Geral da Saúde a exercer as respectivas funções enfermeiros com o grau de bacharel, os quais, no prazo de cinco anos a contar da respectiva autorização, deverão apresentar o diploma de estudos superiores especializados previsto no número anterior, sob pena de lhes ser vedada a continuação do exercício das referidas funções.

Cinco anos mais tarde, o Decreto-Lei nº 109/2000 de 30 de Junho de 2000 DR 149 - SÉRIE I-A que alterou a Lei anterior refere:

Artigo 16º; Alínea 6: “Nas empresas cujo número de trabalhadores seja superior a 250, no mesmo estabelecimento, ou estabelecimentos situados na mesma localidade ou localidades próximas, o médico do trabalho, na realização dos exames de saúde, deve ser coadjuvado por um profissional de enfermagem com experiência adequada.

Em Fevereiro de 2001, no documentoConselho Económico e Social – Comissão Permanente de Concertação Social”, página 16 (item 2), o termo “Enfermeiro do Trabalho” volta a aparecer, porém, por pouco tempo pois a Lei nº 35/2004 de 29 de Julho no Artigo 246 torna surgir a expressão “ (…) coadjuvado por um profissional de enfermagem com experiência adequada”.

Ao pesquisar sites de enfermagem constata-se que muitos enfermeiros não compreendem essas diferenças.

Em um trabalho apresentado no III Congresso de Enfermagem do Trabalho (8) realizado em São Paulo/Brasil em 2008, é referido “a Associação Nacional dos Enfermeiros do Trabalho Portugueses (ANET), reajustou a definição de Enfermeiro do Trabalho e propôs, através da Ordem dos Enfermeiros de Portugal, que o âmbito de acção e o estatuto destes profissionais se encontrem claramente delimitados e regulados através de diplomas legais, ao contrário do que acontece actualmente”.

O Plano de Acção Mundial sobre a Saúde dos Trabalhadores 2008-2017 (9) estabelece um marco normativo que permite a implementação de medidas para proteger, promover e melhorar a saúde de todos os trabalhadores. Realça que todos os trabalhadores devem usufruir de condições favoráveis a saúde, que proporcionem o mais alto nível de bem-estar físico e psicológico nos ambientes de trabalho. É claro quando coloca que os trabalhadores representam a metade da população mundial, apesar de somente uma pequena minoria desfrutar de serviços ocupacionais, e são os maiores colaboradores para o desenvolvimento económico e social. Salienta a importância de se estar atento para os aspectos positivos e negativos proveniente da mobilização cada vez maior de pessoas, produtos e tecnologia. Alerta para a necessidade de todos os componentes dos sistemas de saúde estarem preparados para dar as respostas adequadas aos problemas dos trabalhadores. Destaca cinco objectivos que devem ser perseguidos:

1 - Elaborar e aplicar instrumentos coerentes a saúde dos trabalhadores.

2 - Proteger e promover a saúde no local de trabalho.

3 - Melhorar o funcionamento dos serviços de saúde ocupacional.

4 - Proporcionar dados para fundamentar as actividades e as práticas.

5 - Integrar a saúde dos trabalhadores a outras políticas.

Juan Somavia, directora geral da OIT, afirmou recentemente que o trabalho em condições inseguras “é uma autêntica tragédia humana” e alertou “a segurança e a saúde no trabalho constitui um direito humano e ambos são parte integrante do programa de desenvolvimento centrado nas pessoas” (10).

Ao nível europeu a comunicação da Comissão ao Parlamento Europeu, ao Conselho, ao Comité Económico e Social Europeu e ao Comité das Regiões (11) propõe uma nova estratégia intitulada Melhorar a Qualidade e a Produtividade do Trabalho, estratégia comunitária para a saúde e a segurança no trabalho 2007-2012” concretizada no Parlamento Europeu em Janeiro de 2008. O documento analisa as estratégias anteriores e sinaliza os aspectos positivos e os que ainda precisam melhorar. Propõe a criação de um quadro normativo moderno e eficaz para se atingir um objectivo ambicioso - reduzir em 25% da taxa total de incidência de acidentes no trabalho na UE-27 até 2012. Destaca a necessidade de reforçar a protecção da saúde e a segurança dos trabalhadores, enquanto factor determinante para o êxito da estratégia de crescimento e emprego. Cita um conjunto de medidas fundamentais para atingir o objectivo:

      I.        Garantir e apoiar a correcta aplicação da legislação.

Destaca em conjunto de instrumentos que garantam o respeito pela legislação: Divulgação de boas práticas a nível local; Formação dos empresários e dos trabalhadores; Desenvolvimento de instrumentos simples para facilitar a avaliação de riscos; Divulgação, em linguagem simples, de informações e orientações de fácil compreensão e execução; Difusão mais eficaz das informações e melhor acesso a serviços de aconselhamento; Acesso a serviços externos de prevenção de alta qualidade e a preços acessíveis; Envolvimento dos inspectores do trabalho como intermediários para promover um melhor cumprimento da legislação.

    II.        Adaptar o quadro normativo à evolução do mundo do trabalho e favorecer o desenvolvimento e a execução de estratégias nacionais.

Acompanhamento de sectores que apresentem resultados pouco satisfatórios em matéria de redução de acidentes e doenças profissionais.

   III.        Incentivar as mudanças de comportamento dos trabalhadores e encorajar os empregadores a adoptarem abordagens favoráveis à saúde.

Desenvolvimento de programas de educação e formação para os trabalhadores garantindo os conhecimentos necessários para que desempenhem suas actividades com segurança. Adopção de medidas para promover a reabilitação e reinserção dos trabalhadores.

  IV.        Definir os métodos para a identificação e a avaliação de novos riscos potenciais.

Realça a investigação como arma para melhor combater riscos e agravos a saúde dos trabalhadores. Destaca as questões psicossociais e uma série de afecções que necessitam serem melhor investigadas. Coloca que actualmente os problemas associados a saúde mental representam a quarta causa mais frequente de afastamento do trabalho.

    V.        Melhorar o acompanhamento dos progressos realizados.

Criar instrumentos de acompanhamento adequados para que o objectivo seja seguramente alcançado.

  VI.        Promover a saúde e segurança a nível internacional.

 

Em Portugal a resolução do Conselho de Ministros nº 59/2008 de 1 de Abril aprovou a Estratégia Nacional para a Segurança e Saúde no Trabalho para o horizonte temporal 2008-2012 (12). Destaca objectivos operativos e acções a desenvolver alicerçados em dois eixos fundamentais de desenvolvimento:

1- Desenvolvimento de políticas públicas coerentes e eficazes, resultado da articulação entre os vários departamentos da Administração Pública e que funcionem como motor de mobilização da sociedade em torno de uma questão social e económica fundamental para a coesão social e que diz respeito à sociedade no seu todo.

2- Promoção da segurança e saúde nos locais de trabalho, como pressuposto de uma melhoria efectiva das condições de trabalho.

Objectivos:

a) Desenvolver e consolidar uma cultura de prevenção entendida e assimilada pela sociedade.

b) Aperfeiçoar os sistemas de informação no domínio da segurança e saúde no trabalho.

c) Incluir, nos sistemas de educação e investigação, abordagens no âmbito da segurança e saúde no trabalho.

d) Dinamizar o Sistema Nacional de Prevenção de Riscos Profissionais;

e) Melhorar a coordenação dos serviços públicos que exercem competências no domínio da segurança e saúde no trabalho.

f) Concretizar, aperfeiçoar e simplificar normas específicas de segurança e saúde no trabalho.

g) Implementar o modelo orgânico da Autoridade para as Condições de Trabalho (ACT).

No âmbito do desenvolvimento da prevenção de riscos laborais:

h) Promover a aplicação efectiva da legislação de segurança e saúde no trabalho, em especial nas pequenas empresas.

i) Melhorar a qualidade da prestação dos serviços de segurança e saúde no trabalho e incrementar as competências dos respectivos intervenientes.

j) Aprofundar o papel dos parceiros sociais e implicar empregadores e trabalhadores na melhoria das condições de trabalho nas empresas.  

Enfermagem do Trabalho é uma especialidade que esta em plena ascensão em diversos países do mundo, pois reúne um conjunto de conhecimentos, fundamentações e práticas voltadas para valorização do trabalhador. Busca a protecção, prevenção e manutenção da saúde, reabilitação funcional e reinserção laboral. Prepara o enfermeiro para desenvolver acções na área da organização e administração dos serviços ocupacionais de saúde (gerência de serviços); vigilância à saúde; assistência de campo, onde os eventos específicos acontecem e se manifestam, no ambulatório e/ou em situações de emergência; cria condições para o aperfeiçoamento e implementação de planos e programas de educação/promoção em saúde e de prevenção de agravos aos trabalhadores, observando, para além das capacidades psicofisiológicas do ser humano, os aspectos socioculturais e ambientais; possibilita o planeamento e execução de projectos baseados em dados oriundos da investigação dos enfermeiros.  

A especialização faculta também uma visão alargada da saúde e permite uma melhor compreensão das relações entre o trabalho e o processo saúde/doença. Proporciona o fortalecimento do trabalho multiprofissional, valoriza o espaço multidisciplinar e combate a fragmentação de intervenções que nada ou pouco ajudam. Promove o envolvimento dos trabalhadores nas questões da saúde e segurança, através de ferramentas que estimulam o conhecimento e comportamentos laborais seguros. Fornece aos enfermeiros subsídios para melhor planejar, propor e executar acções integradas através de mecanismos interdisciplinares e contribui para um maior entendimento de conceitos como cuidado/pessoa/saúde/ambiente de forma a adaptar o trabalho ao homem e vice e versa.

Para finalizar, as preocupações e as necessidades sentidas em matéria de saúde e segurança no trabalho decorrentes das estratégias citadas, reforça a necessidade de se ampliar a contribuição dos enfermeiros na produção de conhecimentos na área da saúde do trabalhador. Essa produção de conhecimentos científicos esta intimamente ligada a existência e ao reconhecimento de cursos de especialização e mestrados na área, como também ao incentivo que deve ser dado a investigação em todos os níveis, inclusive nos doutoramentos.

 

Bibliografia

1 – MARX, Karl; Engels, Friederich – O capital, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira. 1990

2 – História da Enfermagem – Período Florence Nightingale. Disponível: http://www.ellusaude.com.br/enfermagem/historico_enf04.asp

3 – BULHÕES, Ivone – Enfermagem do Trabalho. Rio de Janeiro, IDEAS, Vol 2, 1976-1986. CDD 610.7346 B 933.

4 - RASTEIRO, Margarida Plantier - O Impacto de Globalização sob Ótica da Enfermagem do Trabalho. I CONGRESSO INTERNACIONAL DE ENFERMAGEM DO TRABALHO. Disponível: http://www.anent.org.br/congressos/I_congresso/programacao9.htm

5 – Ordem dos Enfermeiros - CPLEE - Curso de Pós-Licenciatura de Especialização em Enfermagem. Página de informação. Disponível: http://www.ordemenfermeiros.pt/index.php?page=405&version=1        

6 - II Congresso da Federação de Enfermeiras do Trabalho da União Europeia. Estrasburgo. Disponível: http://www.anent.org.br/boletim/outubro_dezembro_00/outubro_dezembro_00.htm

7 - American Association of Occupational Health Nurses (AAOHN). Disponível: http://www.aaohn.org/  

8 - III Congresso Internacional de Enfermagem do Trabalho e 13 Encontro Nacional de Enfermagem do Trabalho. Formação do enfermeiro do trabalho: um panorama actual na união europeia. São Paulo, Agosto 2008. Disponível: http://www.anent.org.br/congressos/III_congresso/PDF/formacao_do_enfermeiro_do_trabalho.pdf

9 – Organização Mundial de Saúde (OMS) - Salud de los trabajadores: proyecto de plan

de acción mundial. CONSEJO EJECUTIVO EB120/28 Rev.1 Janeiro de 2007. Disponível: http://apps.who.int/gb/ebwha/pdf_files/EB120/B120_28Rev1-sp.pdf

10- Oficina Internacional del Trabajo - Mensaje de Juan Somavia. Director General de la Oficina Internacional del Trabajo con motivo del Día Mundial para la Seguridad y la Salud en el Trabajo. Abril de 2009. Disponível: http://www.ilo.org/public/spanish/bureau/dgo/speeches/somavia/2009/90th.pdf

11 - Comunicação da Comissão ao Conselho, ao Parlamento Europeu, ao Comité Económico e Social Europeu e ao Comité das Regiões - Melhorar a qualidade e a produtividade do trabalho. Estratégia comunitária para a saúde e a segurança no trabalho (2007-2012). Fevereiro de 2007. Disponível: http://europa.eu/legislation_summaries/employment_and_social_policy/health_hygiene_safety_at_work/l10114_pt.htm

12 - Estratégia Nacional para a Segurança e Saúde no Trabalho para o horizonte temporal 2008-2012. Abril de 2008. Disponível: http://www.igt.gov.pt/downloads/content/EN_SST_2008-2012.pdf

13 - DECRETO-LEI nº 109/2000 de 30 de Junho. MINISTÉRIO DO TRABALHO E DA SOLIDARIEDADE. Disponível:

 http://www.ishst.pt/downloads/content/109.2000.pdf

14 - LEI nº 7/95 de 29 de Março de 1995 Diário da República 75/95 - SÉRIE I-A. Disponível:

http://www.iapmei.pt/iapmei-leg-03.php?lei=2378  

15 - CONSELHO ECONÓMICO E SOCIAL – Comissão Permanente de Concertação Social. Fevereiro de 2001. Disponível: http://www.ces.pt/file/doc/172   

16 - Lei nº 35/2004 de 29 de Julho Diário da República – I SÉRIE A nº 177 Disponível: http://dre.pt/pdf1s/2004/07/177A00/48104885.pdf     

17 - Fóruns sobre Saúde e Segurança no Trabalho  (Letra E) (1). Disponível: http://www.ensp.unl.pt/lgraca/citacoes_E.html#Enfermagem do Trabalho  

 

 


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