O enfermeiro acredita na capacidade de superação dos indivíduos frente as desavenças da vida, mesmo porque, existem evidências científicas que mostram a contribuição da saúde para a qualidade de vida das populações.

12
Ago 09

 

 

 

 

 

 

 

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Enf. Jorge Franco 

 

  

 

As novas tecnologias de informação e comunicação vieram facilitar a socialização de conhecimentos pois permitiram reduzir a distância entre os povos e potencializaram o intercâmbio cultural. Contudo, algumas das experiências de vida difundidas acabam sendo de difícil aplicabilidade, visto não serem congruentes as circunstâncias de quem as recebe. No caso da saúde isso pode ser demonstrado se considerarmos duas pessoas com o mesmo diagnóstico, que, apesar disso, irão sempre necessitar de orientações e intervenções diferenciadas. Logo podemos afirmar que cada pessoa é um ser único, particular, envolvido em seus próprios problemas, pensamentos, sentimentos, experiências, percepções e ambientes. O que nos leva a pensar que as respostas devam ser personalizadas frente as necessidades de cada um e ao momento em que se vive.     

 

Actualmente a educação em saúde assume desse entendimento pois compartilha possibilidades, respeita o direito de escolha e o potencial de cada um e observa a realidade individual. O que se traduz em um processo responsável, debatido, atencioso que assenta e fundamenta-se numa “ (…) educação multicultural, ética e transformadora (…) (1) ” que vai ao encontro dos fenómenos que afligem as pessoas à fim de lhes proporcionar o melhor bem-estar possível.   

 

Durante muito tempo a saúde foi abordada e fundamentada em um modelo biológico, centrado na queixa/doença, onde acções curativas predominavam e acabavam por se transformar em indicadores de medida. O indivíduo era dividido em partes e só era observado a parte afectada ou a sintomatologia que se associava a uma determinada doença. A educação para saúde seguia a mesma linha, pois se prendia na transmissão de informações ou recomendações baseadas no poder técnico, não respeitando a individualidade, a dimensão social nem tão pouco os determinantes culturais. O indivíduo não era totalmente envolvido no processo educativo, sendo obrigado à assumir o papel de “objecto”, apesar de se tratar de sua própria vida. 

 

Infelizmente ainda presenciamos essa prática em muitos locais. Os seus seguidores insistem em adoptar uma ideologia individualista, que exclui o indivíduo e desvaloriza a influência dos factores sociais e ambientais na determinação e estruturação dos problemas de saúde. Acreditam que todos os indivíduos vivenciam os mesmas componentes estruturais e que por isso, apresentam as mesmas capacidades para alterar os tão famosos “comportamentos insalubres”, bastando para isso que adquiram as informações necessárias. Consideram que os comportamentos “não saudáveis” são os principais responsáveis pelo surgimento de doenças, e acham, que combatendo-os simplesmente, resolverão o problema.  

 

Verifica-se que os defensores da ideologia individualista sustentam uma educação em saúde assentada na supremacia exagerada do conhecimento técnico frente ao saber popular/experiência de vida. Face a essa arrogância despropositada, observa-se que algumas pessoas deixam de colocar suas dúvidas e ideias sobre determinados assuntos, até porque já sabem que estas correm o sério risco de serem totalmente desconsideradas e contestadas e que o suposto “dono da razão”, não conseguirá fornecer respostas aceitáveis para resolução de seus problemas.

 

Paulo Freire (1) considera que a Educação em Saúde “ do ponto de vista dominante e tradicional é uma área de saber técnico, ou seja, uma organização dos conhecimentos das ciências sociais e da saúde voltada para “instrumentalizar” o controlo dos doentes pelos serviços e a prevenção de doenças pelas pessoas”.  

 

É imperativo acabar com essa estranheza e promover um trabalho verdadeiramente de parceria. Torna-se urgente que alguns profissionais aceitem o seu papel de facilitador no processo educativo, que pode ser iniciado com o simples “desfardamento técnico” frente a nudez pura e simples de muitos. Em outras palavras, é necessário que estes tenham a percepção que não são totalmente suficientes frente à actual produção social da própria doença. Entende-se que o discurso tecnicista e rígido deva ser substituído por outro que promova a troca de ideias (diálogo) e que respeite e inclua verdadeiramente os indivíduos, até porque e segundo a linguagem popular: “é mais fácil confiar no vizinho do que num estranho”.

 

Rice e Candeias, citados por PEREIRA (2), colocam que “muitos profissionais de saúde, erradamente, acreditam que o papel da educação para a saúde limita-se apenas à reprodução de conhecimento técnico e julgam que apenas com este enfoque poderá mudar o comportamento dos indivíduos e alterar suas práticas tradicionais de saúde”, o que de facto, já se sabe, não ocorre.

 

Apoiado nesse pensamento considera-se ser necessário um modelo de educação em saúde que propicie a oportunidade de fazer com que os indivíduos busquem, dentro de sua realidade, alternativas favoráveis as mudanças necessárias. Uma prática que inclua os indivíduos, aprecie suas capacidades, estimule a procura das causas e analise as suas implicações com o intuito de ajuda-los a enfrentar os problemas. Um modelo simples, prático, que valorize a realidade dos indivíduos, “ (…) suas vivencias e experiências, seus saberes e conhecimentos objectivando o desenvolvimento cognitivo, crítico e autónomo (…) ” (3), a fim de proporcionar uma educação para a saúde assentada e fundamentada em uma política de confiança e respeito mútuo.   

 

A enfermagem tem procurado adequar suas práticas de acordo com as rápidas transformações sociais. Tem trilhado caminhos em busca de processos de educativos contextualizados, isto é, baseados em uma prática integrada à dinâmica do dia-a-dia das pessoas, na tentativa de alargar horizontes, promover o intercâmbio de saberes e facultar mecanismos eficazes de crescimento não só para os indivíduos, como também para os enfermeiros.   

 

Diversos pesquisadores de enfermagem têm utilizado o Modelo Pedagógico da Problematização. Este modelo foi criado por Paulo Freire, que, apesar de não ser um enfermeiro, muito tem contribuido para o desenvolvimento da profissão. MIRANDA (1) refere que “ (…) o pensamento de Freire tem colaborado de forma significativa na construção de uma educação reflexiva na enfermagem, incorporando uma educação crítica e problematizadora, tendo como leitmotiv o diálogo com seus educandos (…) ”. Apesar de o autor referir-se aos alunos de enfermagem, acredita-se que este modelo possa ser utilizado no terreno da prática pelos enfermeiros. 

 

A Teoria da Problematização contrapõe o ensino tradicional e propõe um ensino diferenciado, pois problematiza a realidade e busca de soluções, possibilitando o desenvolvimento do raciocínio crítico. Esta teoria encontra “ (…) muitos dos pressupostos de sua prática nas correntes filosóficas fenomenológicas e existencialistas” (4). Logo apresenta uma natureza transformadora, “ (…) na medida em que problematiza o conhecimento adquirido, confrontando-o com a realidade, de modo a verificar como esses conhecimentos podem contribuir para explicar, interpretar ou modificar o mundo que nos cerca, encontrando novas aplicações em todos os sectores da vida social” (4;7).  

 

Paulo Freire mostra uma educação voltada para uma sociedade que “ (…) ouve, pensa, fala, sente e se comporta de formas diferentes”. Evidencia uma educação “emancipadora, dialogada, continuada, sem arrogância e predomínio do educador, defendendo a articulação do saber, conhecimento, experiências de vida, comunidade, meio ambiente, traduzindo-se em um trabalho colectivo”. Propõe a possibilidade de uma pedagogia fundamentada na prática, “inserida numa política de esperança, de amor e de fé no ser humano”.  

 

Tem sido usado o esquema intitulado Método do Arco, para ajudar a explicar a Metodologia da Problematização como um “processo que privilegia a troca de conhecimentos, de saberes e de experiências entre os educandos e o educador, considerando que ambos apresentam uma história individual – colectiva – e um contexto social compartilhado” (2).

 

O Metodologia da Problematização apresenta cinco etapas: 

 

1ª – Observação da Realidade – Caracteriza-se por uma observação cuidadosa dos problemas colocados pelo indivíduo, procurando identificar factores relacionados que possam estar subjacentes. Nesta fase é feita uma reflexão crítica junto com o sujeito acerca dos problemas levantados para posterior problematização. SCHAURICH (2) acrescenta e diz (…) neste momento que se torna oportuno aos educandos e ao educador lançar um olhar atento e crítico ao vivido (…) ”. 

 

2ª - Ponto-chave - Momento de síntese e de definição dos problemas fundamentais que serão aprofundados junto do indivíduo. É importante questionar quais as possíveis causas; os determinantes contextuais; os componentes e seus desdobramentos. Para SANTOS (5) esse momento é importante para seleccionar pontos essenciais que deverão ser estudados.  

 

3ª – Teorização – Após os problemas serem identificados, o enfermeiro nesta fase analisa-os de vários ângulos, à fim de fundamentar as futuras propostas para a resolução dos problemas. SCHAURICH (2) refere que esta fase possibilita um ampliar de horizontes teóricos, um aprofundar de conhecimentos acerca do problema.  

 

4ª – Formulação de Hipóteses de Solução – É o momento de encontrar alternativas e elaborar propostas para a resolução dos problemas. Nesta fase incentiva-se a participação, visto que na maioria das vezes, é o indivíduo que será responsável pela implementação das acções futuras. Para SCHAURICH (2) esta fase tem como premissa a criatividade inerente ao indivíduo como ser inacabado. Este olhar/agir criativo e reflexivo, propicia aos educandos e educador uma percepção do problema, de sua génese, de seu entorno e repercussões individuais e colectivas”. 

 

5ª Aplicação na Realidade Prática – Esta etapa se resume na acção que deve ser executada ou encaminhada na prática. BERBEL (6) refere que as hipóteses são construídas como resultado do estudo e da compreensão pormenorizada dos problemas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Para concluir, é importante que os profissionais considerem a educação para saúde algo indissociável das actividades desenvolvidas no dia-a-dia profissional; que promovam uma educação em saúde voltada para capacitação dos indivíduos, humanização dos cuidados e valorização da cidadania; que estejam atentos e observem se suas acções estão adequadas a realidade social, económica e cultural dos indivíduos; que tenham consciência do notório esgotamento das dinâmicas essencialmente curativas que, na maioria das vezes, tornam-se pouco resolutivas; que realizem um trabalho verdadeiramente de parceria; e finalmente, que na formação desses técnicos de saúde seja incutido o compromisso com posturas acolhedoras e de construção da autonomia das pessoas e comunidades.  

 

Bibliografia 

 

1 – MIRANDA, Karla Corrêa Lima; (et.al.) - A contribuição de Paulo Freire à prática e educação crítica em enfermagem. Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.12 no.4 Ribeirão Preto Jul. /Auge.  2004. Consulta 2009-04-20 Disponível: http://www.revistasusp.sibi.usp.br/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S0104-11692004000400008&lng=pt&nrm=iso.  

 

2- PEREIRA, Ana Paula Chancharulo de Morais; (et.al.) – A enfermeira e a educação em saúde: estudo de uma realidade local. Revista Baiana de Saúde Pública, vol 30 p, 7-18 2006. Disponível: http://www.saude.ba.gov.br/rbsp/volume30/Páginas 7-18 de Revista Baiana de Saúde Pública-OS1037.pdf 

 

 

3 – SCHAURICH, Diego; (et.al) – Metodologia da Problematização no Ensino em Enfermagem: uma reflexão do vivido no PROFAE/RS. Escola Anna Nery R Enferm 2007 Jun. 11 (2): 318 - 24. Consulta 2009-04-20 Disponível: http://www.portalbvsenf.eerp.usp.br/pdf/ean/v11n2/v11n2a21.pdf

 

 

 

4 – GUEDES, Bianca Nunes; Maria Iracema Tabosa da SilvaI, Cesar Cavalcanti da SilvaII - A metodologia da problematização na Escola de Posturas da UFPB: um processo emancipatório na prática da educação gerontológica. Revista Electrónica de Enfermagem, v. 09, n. 02, p. 298 - 314, 2007. Disponível: http://www.fen.ufg.br/revista/v9/n2/v9n2a02.htm

 

 

 

5 - SANTOS, Anaide Mary Barbosa; (et.al) - A Pedagogia da Problematização como Prática Emancipatória da Formação em Enfermagem. Consulta 2009-04-20 Disponível: www.cbcenf.com.br/anaiscofen/anais7.asp?edicao=7  

 

6 - BERBEL. Neusi Aparecida Navas - A Problematização e a Aprendizagem Baseada em Problemas: diferentes termos ou diferentes caminhos? Revista Comunicação, Educação, Saúde, São Paulo, v. 2, n.2, p. 139-154, 1998. 

 

 

7- RODRIGUES, Juliana; (et.al) - Alternativas para a Prática Docente no Ensino Superior de Enfermagem. Escola Anna Nery. Jun. 2007. Consulta 2009-04-20 Disponível: http://www.portalbvsenf.eerp.usp.br/pdf/ean/v11n2/v11n2a20.pdf. 

 

 

 

8 – Gadotti, MoacirContribuição de Paulo Freire ao Pensamento Pedagógico Mundial. CÁTEDRA PAULO FREIRE. Universidade Nacional da Costa Rica. Abril de 200. Disponível:  http://www.paulofreire.org/twiki/pub/Institucional/MoacirGadottiArtigosIt0054/PF_pensamento_ped_2001.pdf

 

 

 

9 - CORREIA, Cristina; (et. al.) - Os enfermeiros em cuidados de saúde primários. Revista Portuguesa de Saúde Pública. 2001. Consulta 2009-05-25 Disponível: http://www.ensp.unl.pt/dispositivos-de-apoio/cdi/cdi/sector-de-ublicacoes/revista/2000-2008/pdfs/E-07-2001.pdf 

 

10- Organização Mundial de Saúde (OMS) – Cuidados de Saúde Primários Agora Mais que Nunca. Relatório Mundial de Saúde 2008. Consulta 2009-04-24 Disponível: http://www.who.int/whr/2008/whr08_pr.pdf

 

 

 

 

 

 


11
Ago 09

 

                                                                          Enf. Jorge Franco

 

Resumo

 

Este artigo procedente de uma revisão bibliográfica evidencia o cuidador familiar como o principal responsável pelo cuidado ao nível domiciliário. Traça o seu perfil e aborda os principais motivos que normalmente fazem com que uma pessoa assuma tal papel. Descreve sentimentos e necessidades experimentados consoante os estudos realizados. Finalmente faz uma análise do sistema formal de saúde e conclui com algumas recomendações.

Palavras-chave: Cuidador familiar; invisibilidade; descrição.

Resumen

 

Este artículo procedente de una estudio bibliográfico revela al cuidador familiar como siendo el principal responsable del cuidado a nivel domiciliario. Hace una identificación del cuidador y describe los principales motivos que normalmente hacen que una persona asuma tal papes. Describe sentimientos y necesidades vivenciadas por los cuidadores familiares de acuerdo con estudios realizados. Finalmente, hace un análisis del sistema formal de salud y concluye con algunas sugerencias.

Palabra-clave: Cuidador familiar; invisibilidad; descrisón.

 

Introdução

Uma das principais características deste início de século é o envelhecimento da população, fruto de um aumento significativo da esperança de vida. Esse facto torna-se relevante na medida que causa um aumento da demanda social e económica devida esta população necessitar de uma maior atenção por parte não só das autoridades de saúde, como também de suas famílias.

 A ONU estima para os próximos 20 anos, um aumento de 300% nas necessidades em cuidados de saúde da população idosa. Paralelamente a isso espera-se um aumento acentuado da prevalência de doenças não transmissíveis e de evolução prolongada que deverão reclamar por políticas de saúde que prestigiem mais apoios à assistência domiciliária.

Actualmente, devido a sobrecarga do sistema de saúde, observa-se uma tendência para se diminuir ao máximo possível o tempo de permanência dos indivíduos nas unidades de saúde e para transferir muitos cuidados, que dantes eram tidos como hospitalares, para os serviços de apoio a comunidade e com isso para as famílias. COLLIÉRÈ (1999), refere que a família é o eixo dos cuidados “ (…) que detém em si próprio um valor terapêutico”. Por ser uma unidade viva, é nesta que se encontra o maior número de cuidadores informais, destacando-se as mulheres, pois desenvolvem este ofício desde o início da humanidade.

A insistência por um modelo biomédico centrado na doença, deixa de lado aquele que mais assiste ao doente “o cuidador”, pois não permite que o seu trabalho tenha a visibilidade merecida e todo o apoio necessário. Cabe a Enfermagem, à responsabilidade pelo aprimoramento e desenvolvimento de acções que sejam verdadeiramente centradas na família, tendo em conta o seu contexto.

Tendo o cuidador familiar como o principal responsável pela assistência ao nível domiciliário, este trabalho traça o seu perfil, descreve sentimentos, dificuldades, necessidades e recomenda algumas acções que devem ser realizadas pelo sistema formal de saúde.

 

Perfil e os motivos que levam a ser um cuidador

Os cuidadores familiares desempenham um papel crucial, pois assumem a responsabilidade em cuidar do familiar. A maioria são do sexo feminino, normalmente esposas, filhas ou filhos que desempenham o papel preponderante no resgate do cuidar. Apresentam geralmente nível educacional baixo e se situam em faixas etárias próximas das pessoas que cuidam, o que explica o facto de grande parte desses cuidadores ser os cônjuges.

Quando fala-se de cuidador familiar, faz-se referência a uma pessoa adulta, que realiza e proporciona as actividades de vida diária, procurando minorar ou até mesmo suprir o deficit de auto cuidado da pessoa que cuida.

Os motivos que levam com que o familiar seja o cuidador principal são na generalidade: a disponibilidade de tempo para o fazer, o sentimento de obrigação e de dever e a solidariedade. CALDAS (1995), coloca que os factores que influenciam o familiar a assumir a responsabilidade do cuidar são: a influência histórica, os imperativos culturais e os preceitos religiosos.

É comum verificar que muitas pessoas aceitam, de forma súbita e inesperada, o papel de cuidador sem que para isso tenham se preparado adequadamente ou pensado seriamente no assunto. Estas pessoas, em um acto impulsivo, assumem ou sem perceber vão arcando com pequenos cuidados e quando se dão conta já estão completamente envolvidas e comprometidas com a situação. FERNANDES (2002), relata que na maioria das vezes a pessoa assume um papel que lhe é imposto pelas circunstâncias e não por escolha própria, apesar de reconhecer que esta missão naturalmente seja sua.

 

Sentimentos / Dificuldades

O planeamento de alta é extremamente importante e deve ser aplicado a todos os cuidadores. Porém, infelizmente observa-se situações em que este instrumento é mal aplicado ou simplesmente inexiste, o que gera dificuldades e sentimentos de incerteza. CONNEL e BAKER (2004), colocam que muitos cuidadores acabam por experimentar um elevado grau de incerteza quanto ao próprio planeamento dos cuidados e que por isso, utilizam algumas estratégias de coping na tentativa de ultrapassar os obstáculos. No que refere as estratégias citam: 1) manutenção de uma atitude positiva; 2) adaptação à mudança; 3) comparação com os outros; 4) mudanças no trabalho; 5) o humor; 6) o suporte de familiares e amigos próximos. Já RODRIGUES; et al., (1999), em um estudo com cuidadores familiares de idosos com sequelas de AVC, identificou uma diversidade de sentimentos experimentados pelos cuidadores no decorrer do processo de cuidar como o carinho, amor, indignação pela situação, o prazer, a pena, a tristeza entre outros.   

O cuidador familiar tende a valorizar em primeiro lugar as necessidades da pessoa que cuida, deixando para um segundo plano as suas próprias necessidades. Muitas vezes, após assumir a responsabilidade do cuidar, experimentam dificuldades/necessidades como: a pouca ou nenhuma informação a cerca da doença, dúvidas quanto a prestação de cuidados, falta de recursos e de apoio económico além das relacionadas ao suporte emocional.

O planeamento de alta permite ao familiar obter informações importantes durante o processo de hospitalização, facilitando a planificação do regresso a casa e o processo de transição. Porém, o enfermeiro deve ter atenção alguns pontos como DRISCOLL, A (2000), coloca bem: 1º) a percepção da informação por parte do cuidador; 2º) a suficiência dessa informação; 3º) a devida utilização dessa informação. Quanto ao primeiro ponto é importante a realização de um planeamento adequado a cada situação específica e de acordo com as necessidades sentidas. No que diz respeito ao segundo, é imprescindível que os cuidadores recebam informação suficiente para que se diminua a ansiedade e a probabilidade de complicações domiciliares. E finalmente quanto a utilização da informação, que esta gere cuidados domiciliares mais eficazes e que contribua para redução do número de readmissões e do tempo de permanência dos doentes ao nível hospitalar. 

Um outro ponto a ter em conta é a sobrecarga que o cuidador vive devido aos factores geradores de stress e ansiedade. Esta sobrecarga pode estar ligada a uma dimensão objectiva como é o caso dos acontecimentos e actividades concretas como a dependência económica, mudança na sua rotina, a falta de tempo para si mesmo, entre outros ou a uma dimensão subjectiva que inclui os sentimentos de culpa, de vergonha, baixa auto-estima e a preocupação excessiva com o familiar doente.

O cuidador que se dedica ao cuidar de uma pessoa totalmente dependente sem qualquer tipo de apoio formal, tende a vir a sofrer desgastes físicos e emocionais consideráveis, provenientes da sobrecarga imposta principalmente quando o doente assistido apresenta além de incapacidade física algum deficit cognitivo. MAROTE; et al (2005), dá exemplos de alguns sinais de desgaste físico referenciados pelos cuidadores: lombalgias, cansaço físico, hipertensão arterial, anorexia, cefaleias, entre outras. Refere também a ocorrência de alterações no sistema imunológico para além de problemas como fadiga crónica, alterações cardiovasculares, depressão e ansiedade em níveis superiores aos da população em geral.

 

Sistema Formal / Informal

A procura por parte do cuidador as unidades de saúde ocorre, em muitos casos, em momentos de extremo sofrimento. Os técnicos de saúde devem estar atentos e procurar investigar a possibilidade da relação entre os motivos desta procura e o possível desgaste físico e mental proveniente do processo de cuidar. Contudo, na maioria das vezes, o modelo biomédico aplicado impede que seja detectado a verdadeira razão dessa procura e o seu real estado de saúde, pois se limita simplesmente ao tratamento sintomático do problema.

A ineficácia dos programas públicos de saúde de atenção ao domicílio não só trás graves prejuízos a todo o sistema como também a grande massa de cuidadores.MONIS; et al., (2005), relata que o cuidado formal de saúde prestado no domicílio “não é mais de que a ponta do iceberg no qual o sistema informal constitui um verdadeiro sistema invisível de cuidados de saúde.” 

O enfermeiro deve observar a família como uma unidade, um grupo e não como uma simples soma de pessoas. Deve entender que qualquer alteração em um de seus membros pode repercutir no funcionamento do grupo como um todo. Durante a visita domiciliar deverá estar atento não só ao doente como também ao seu cuidador, ambos inseridos em um contexto próprio e envolvido em relações sociais e afectivas. CRESPO e LOPEZ (2007), ressaltam que é importante que os profissionais, inclusive o enfermeiro, desenvolvam e incentivem vários tipos de intervenções com a finalidade de salvaguardar a integridade física e emocional dos cuidadores e citam: 1º) apoios formais mediante serviços comunitários de alívio; 2º) programas psicoeducativos; 3º) formação de grupos de ajuda mútua; 4º) intervenções psicoterapeutas; 5º) combinações das anteriores. Já PERA (2000), sugere outras medidas que também devem ser incentivadas: 1ª) proporcionar formação adequada dos cuidadores objectivando a melhoria dos cuidados prestados, prevenção de lesões e redução do stress; 2ª) fornecer informação sobre técnicas de planeamento com a finalidade de gerir melhor o tempo: 3ª) identificação, diagnóstico e tratamento imediatos de problemas por parte dos profissionais; 4ª) proporcionar opções de escolha (sistemas de apoio) para que em momentos de dificuldade o cuidador possa recorrer e buscar a ajuda necessária e sem demora.

É importante adequar a aplicação de qualquer programa as necessidades das pessoas. Uma das estratégias é a de envolver as famílias nos cuidados prestados ao nível hospitalar, numa tentativa de capacita-las para a futura transferência do doente para o domicílio, facto já observado em muitas unidades de saúde. Porém, não deixa de ser imprescindível mais investimentos em políticas de intervenção comunitária onde os profissionais possam desenvolver planos de saúde de interesse das famílias, onde o conjunto de acções não foquem somente a pessoa dependente mais também o seu cuidador.

 

Conclusão

O cuidador familiar representa a base do cuidar no domicílio, pois apesar da pouca visibilidade é ele que assegura a grande parte da assistência a esse nível. Estudos mostram que a grande maioria tem nível educacional baixo, são do sexo feminino e não recebem qualquer tipo de remuneração pelo que fazem. Os motivos que levam as pessoas a serem cuidadores familiares são o sentimento de obrigação e solidariedade, os factores históricos e culturais e o simples facto de não existir uma outra opção.

Existe uma tendência cada vez maior para se transferir o cuidar para o domicílio responsabilizando assim as famílias. Verifica-se que, em muitas ocasiões, essa transferência não é acompanhada com a devida avaliação quanto as condições dos familiares para que o recebimento do doente dependente seja feito sem qualquer tipo de risco. Alguns estudos destacam a importância das unidades hospitalares e outras à nível comunitário se organizarem no sentido de planear melhor a transferência do doente para o domicílio e para o desenvolvimento de programas de formação para cuidadores em diversas áreas.

Dentre as estratégias sugeridas verificou-se: a criação de um serviço comunitário de alívio, onde o cuidador possa fazer pausas de descanso sempre que necessitar; o fornecimento de formação e informação suficiente aos familiares, maior investimento em políticas de intervenção comunitária que garantam a integridade física e psicológica dos cuidadores.

 

Referenciais Bibliográficas

 

1 - MAROTE, A; CARMEM, M; LEODORO, S; PESTANA, V; - Realidade dos Cuidadores Informais de Idosos Dependentes da Região Autónoma da Madeira. Revista de Investigação Sinais Vitais, nº 61,  Julho, Coimbra (2005) p.19-24  ISSN 0872-0844.

2 - CONNEL, B e BAKER, L - Managing as carers of stroke survivors: strategies from the field. Journal of Nursing Practice. Oxford. 10, (2004) p. 121-126.

3 - CRESPO, M ; LÓPEZ, J - Intervenciones  con cuidadores de familiares mayores dependientes: una revisión. Psicothema, vol 19 (2007).  AN 24805796, disponível: http://web.ebscohost.com/ehost/results

4 - RODRIGUES, P; APARECIDA, R; ANDRADE, O.G - Representaciones del cuidador familiar : Ante el anciano com ACV. Revista de Enfermaria, vol 22 nº6 (1999). ISSN : 0210-5020.

5 - CALDAS, C.P - Contribuindo para a construção da rede de cuidados: trabalhando com a família do idoso portador de sindrome demencial. Revista de Enfermagem. UERJ, Rio de Janeiro, Vol 3, nº 2 (1995) disponível: http://www.unati.uerj.br/tse/scielo.php?script.    

6 - O.M.S- Declaração elaborada pelo Grupo de Trabalho da Qualidade de Vida  Organização Mundial de Saúde. Disponível:

URL: http:// www.ops.org.br/publicacl.

7 - PERA, I.P - El cuidador Familiar. Una Revisión sobre la necesidad del cuidado doméstico y sus repercusiones en la familia. Revista de Enfermaria y Humanidades. Ed. Consejo de Enfermeria de la Comunidad Valenciana. (2000).

Dep.Legal: A-3.210-2000.

8 - MONIS, C; LOPES, G; CARVALHAS, J; MACHADO, S - Sobrecarga do Cuidador Informal. Revista de Formação continuada de Enfermagem - Informar. Ano XI, nº 35, (2005)  Dep. legal nº 86 748/95.

9 - COLLIÉRÈ, Marie-Françoise - Promover a vida: da prática das mulheres de virtude aos cuidados de enfermagem. 2º edição Lisboa, Edições Técnicas (1999).

10- MARTINS, M.M.F.P.S - Uma crise Acidental na Família. O Doente com AVC. Coimbra, edição Formasau (2002). ISBN 972-8485-30-1.

11- DRISCOLL. A - Managing post-discharge care at home: na analysis of patients’ and  their carers’ perceptions of information receiced during their stay in hospital. Journal of Advanced Nursing. (2000). Disponível: http://web.ebscohost.com/ehost/detail?vid

12- MARTINS, M.M.S; - A Família, um Suporte ao Cuidar. Revista sinais Vitais. 50, p.52 a 56. Coimbra (2003) ISSN 08728844.

 

 

                                                                        


04
Ago 09

 

Enf. Jorge Franco

 

 

Artigo “Enfermagem Avançada”: um sentido para o desenvolvimento da profissão e da disciplina. Autor: Abel Braga, Doutor em Ciências de Enfermagem pelo ICBAS – Universidade do Porto, publicado na revista Servir nº 55 Jan./Fev. 2007 (p. 11 a 19), sobre o sentido de direcção para o desenvolvimento da profissão e da disciplina de Enfermagem.

 

Resumo e Crítica da Obra

 

A importância do tema, a simplicidade, frontalidade e o domínio com que o autor aborda questões fundamentais referentes a enfermagem, influenciaram na escolha deste artigo.

 

A obra permite ao leitor fazer uma reflexão de suas práticas, pois leva-o a que se pergunte: O que estou fazendo? Como? Baseado em quê? O que quero? Para onde estou indo?

 

Propõe-se com este trabalho evidenciar e analisar os pontos mais relevantes, procurando, de forma simples, contribuir positivamente.

 

O artigo apresenta-se dividido em quatro partes, além da introdutória, expostas de forma organizada e rica em bibliografia de qualidade, o que leva o autor a justificar e evoluir o seu pensamento de forma segura.

 

Pretende-se ir directo a primeira parte, visto que a introdutória coloca de forma sintética o que será abordado. O autor refere que o ser humano sempre se preocupou em cuidar do seu semelhante nos momentos de sofrimento e diz “assume-se no entanto relativamente à enfermagem”. Entende-se que o doutor abre um espaço para que se pergunte: Quando surge a enfermagem, visto ser alusiva ao cuidado humano. COLLIERE (1) afirma que “ a prática dos cuidados é, sem dúvida, a mais velha prática da história do mundo”. Baseado na linguagem popular, visto que esta acaba se tornando objecto de estudo de muitos pesquisadores, o ditado “cada um tem um pouco de médico”, devido erradamente se auto-diagnosticar e se auto-medicar muitas vezes, têm-se aqui a pretensão de dizer que antes disso já tinha “um pouco de enfermeiro”. Isso para tentar defender ou fortalecer a ideia de que o cuidado humano surge da própria essência do ser, isto é, da procura, muitas vezes instintiva, de promover o seu próprio desenvolvimento. VIEIRA (2) coloca que “os seres humanos sempre precisaram de cuidados (…) ” e acrescenta “ a história dos cuidados aos que padecem é a história da enfermagem” fazendo uma clara distinção entre o tempo dessa história e a época da profissão organizada quando refere " enquanto profissão organizada , a enfermagem remonta do século XIX, mas o seu passado ainda hoje influencia o presente dos cuidados (...)". 

 

Diz que Florence Nightingale é responsável pela prática profissional moderna e reproduz as palavras da enfermeira “ (…) toda a mulher é enfermeira”. O que nos faz pensar no pouco interesse do sexo masculino para o exercício da profissão, promovendo-se assim uma enfermagem centrada na mulher como o próprio autor coloca “ Vemos aqui a enfermagem centrada na mulher dedicada ao cuidado”.

 

Analisando o que foi referido percebe-se que já se passaram mais de um século e a enfermagem contínua a ser uma profissão predominantemente feminina, fruto da repercussão de um modelo sociocultural histórico que deve ser ultrapassado. Segundo o Instituto Nacional de Estatística Português (3), no ano de 2000 estavam escritas na Ordem dos Enfermeiros 37.487 pessoas sendo que 82% eram do sexo feminino. Esses dados confirmam que a profissão ainda não conseguiu atrair significativamente o sexo masculino, o que gera a necessidade de se estudar profundamente o fenómeno.

 

Realça marcos importantes para a Enfermagem portuguesa tanto ao nível do ensino como do ponto de vista do enquadramento legal do exercício da profissão como: a proibição do exercício a quem não possuísse diploma na década de 40; O REPE em 1996; A criação da ordem dos Enfermeiros em 1998; A integração do ensino de Enfermagem no sistema educativo nacional a nível do ensino superior politécnico; A licenciatura em 1999; o surgimento dos mestrados e o primeiro doutoramento em enfermagem no ano de 2001. Destaca também as intervenções interdependentes e autónomas do enfermeiro.

 

É interessante observar que o autor cita datas não com o propósito puramente ilustrativo, mas sim com o intuito de mostrar ao leitor que a enfermagem evoluiu de forma positiva e que é importante que os enfermeiros estejam bem organizados no futuro para enfrentar novos desafios.

 

Na segunda parte cita as Escolas de Pensamento de Enfermagem dando destaque para a Escola do cuidar. Utiliza a definição de enfermagem de Meleis & Trangenstein o que lhe permite fazer a coligação: Enfermagem/cuidar/transição/desenvolvimento humano.

 

Considera, baseando-se em bibliografia apropriada, que apesar da evolução da enfermagem, a qualidade dos cuidados que hoje vivenciamos ainda tem como foco a gestão de sinais e sintomas, desvalorizando o modelo curativo (lógica executiva/Paradigma biomédico) e reforçando uma lógica conceptual com utilização de conhecimentos da disciplina à partir da utilização de teorias da enfermagem e da própria investigação dos enfermeiros. Facto que é unânime na opinião de vários autores, porém não desvanece a ideia de que tanto as teorias como a investigação na área não foram suficientes, até ao momento, para sensibilizar grande parte do grupo profissional. Segundo Oliveira, Lopes e Araújo (4) “ apesar de toda evolução da ciência e, consequentemente, da enfermagem, ainda hoje, percebemos uma certa dificuldade por parte de alguns enfermeiros em trabalhar com teorias, seja no âmbito da assistência, ensino ou pesquisa”.

 

Na tentativa de reforçar esse pensamento tomemos como exemplo os académicos de enfermagem. Estes necessitam realizar estágios no campo prático, não só para o seu desenvolvimento profissional como também pessoal. Apesar das instituições de ensino transmitirem uma visão conceptual da enfermagem, os estudantes são defrontados com o paradigma biomédico da prática, tendo que o aceitar devido ser a própria realidade. Essa desarticulação entre a teoria e a prática e a aceitabilidade total ou parcial do aluno a situação exposta, faz com que se inicie um “ciclo vicioso”, pois permite que no futuro, o aluno agora profissional, aceite mais facilmente o modelo em uso. Tudo isso faz-nos pensar em um processo moroso e pouco resolutivo a curto e médio prazo, com pouca resposta aos anseios do autor. PIRES (5) aponta um estudo que mostra que os enfermeiros na prática não estão totalmente preparados para receber os estudantes e que estes “ deparam-se com um fosso entre a teoria e a prática (…) ”.

 

A terceira parte observa a necessidade de mudança na natureza dos cuidados de saúde frente a uma população cada vez mais envelhecida, onde as doenças crónicas assumem importância capital. Diz que as intervenções de enfermagem devem ser centradas em um modelo conceptual, visto que o paradigma biomédico não é capaz de dar as respostas necessárias.

 

Chama a atenção ao leitor enfermeiro, dando alguns exemplos onde a intervenção de enfermagem deve ser urgente, apelando de forma extremamente positiva para o direito dessas pessoas em terem acesso a cuidados de enfermagem de qualidade, isto é, dirigido as suas reais necessidades de saúde, visto comprometer a qualidade de vida e acarretar graves prejuízos.

  

No desenvolvimento de seu raciocínio introduz temáticas como o Auto Cuidado; a Adesão do Regime Terapêutico; a Transição; o Prestador de Cuidados que são sustentadas por teorias de enfermagem e que devem ser desenvolvidas e valorizadas pelo enfermeiro.

 

Contudo, se observamos a sequência: “saúde – doença/comprometimento – melhor bem-estar possível”, podemos notar que o autor tem como ponto de partida a doença/comprometimento baseando-se em necessidades de intervenção actuais. Apesar de focar necessidades emergências, não subvalorizando outras, é importante sublinhar a importância em se trabalhar a partir da saúde, reforçando o papel do enfermeiro na promoção da saúde e prevenção da doença, mesmo porque, muitas dessas doenças chamadas “crónicas” podem ser evitadas. Com o intuito de solidificar esse pensamento temos FERREIRA (6) que coloca “ (…) infelizmente, as próprias políticas de saúde, neste país aparentemente desenvolvido, têm-se centrado quase só nos tratamentos e pouco tem sido investido na saúde como um bem a promover”. Dando sequência a essa reflexão podemos considerar também urgente e fundamental que este profissional aproveite o conceito alargado de saúde e invista em novas linhas de actuação e descubra novos caminhos. Como agente promotor do desenvolvimento humano e por isso crítico e reflexivo com competência técnica/científica/ética/política/social/educativa, deve buscar conhecimentos dentro da sua disciplina e em outras. O aumento de conhecimentos gera a abertura de fronteiras e proporciona não só novas oportunidades, como também campos de intervenção diferentes.

 

A última parte o autor coloca algumas questões bastante polémicas, indaga-as e por fim põe claramente a sua posição.

 

Diz que em muitos países tem-se observado uma preocupação com os custos da saúde e que devido a isso alguns países como os EUA elaboraram um conceito chamado “Advanced Nursing Practice” que engloba dois tipos de enfermeiros: os “Clinical Nurse Specialists” que são aqueles, que na sua maioria, têm o grau de Mestre e os “Nurse Pratitioners”. O primeiro surge essencialmente no âmbito das unidades médico-cirúrgicas, não actuam junto aos indivíduos e se restringem ao ensino e a gestão da qualidade. Já os Nurse Practitioners actuam em sua maioria no contexto comunitário, no domínio da prática. Estes últimos possuem formação avançada em fisiopatologia e farmacologia, o que faz com que estejam preparados para prescrever medicamentos e solicitar exames laboratoriais entre outras atribuições. Seguem assim um modelo biomédico, pouco resolutivo na opinião do autor, apesar de se observar esforços para conservar a essência da enfermagem.

 

Coloca claramente que esse não é o caminho a seguir e cita o caso dos países nórdicos.

 

Estimula o leitor a fazer uma reflexão sobre os conceitos “Prática Avançada”, que usa os procedimentos da medicina e “Enfermagem Avançada” que se baseia em conhecimentos próprios da enfermagem. A seguir reafirma a sua posição de que a enfermagem avançada é a melhor opção a seguir. Diz que os cuidados de saúde exigem um esforço multiprofissional, um espaço multidisciplinar e que a perspectiva unidisciplinar não responde a complexidade que os problemas de saúde exigem.

 

A reflexão suscitada faz com que se perceba que nenhuma profissão deve estar acoplada ao momento político ou económico que se vive, visto ser muito variável (hoje pensa-se de um jeito, amanhã de outro). Porém não ofusca o pensamento de que deva aproveitar as ocasiões ditas “satisfatórias” para se desenvolver, visando sempre o bem-estar dos seus membros e daqueles que estes assistem; deva procurar dar respostas aos anseios e solicitações da sociedade que, na maioria das vezes, se apresentam através de necessidades.

  

Como é sabido, o enfermeiro é hoje um dos profissionais de saúde mais cobiçados a nível mundial. A própria OMS (7) realça o papel deste profissional na “prevenção, identificação de necessidades, no planeamento, execução e avaliação de cuidados, com o intuito de ajudar as pessoas, famílias e grupos a determinar e a realizar o seu potencial físico, mental e social, nos contextos em que vivem e trabalham”. Baseado nesse entendimento podemos considerar que o facto de prescrever medicamentos, solicitar exames ou outros atributos, deva ser visto como um simples detalhe frente a responsabilidade que lhe foi atribuída. Contudo, não deixa de ser relevante imaginar que na formação deste técnico, seja ela de base (licenciatura) ou posterior (especializações/mestrados), seja apontada e reforçada claramente a linha a ser seguida. Nos doutoramentos e cursos superiores seja incutido a responsabilidade da produção de conhecimentos e criação de estratégias para o melhoramento da própria disciplina enfermagem.

 

Para finalizar, a preocupação do autor é valiosa, mas é preciso sensibilizar os profissionais de enfermagem. Observa-se que muitos enfermeiros encontram-se desmotivados, cansados, carentes de algo novo e transformador. Em uma carta “convidativa”, publicada por uma organização não governamental, (8) um enfermeiro expõe seus sentimentos que talvez venha expressar o de muitos. Palavras como: desconforto, dúvidas, falta de oportunidades, receios entre outras, devem ser consideradas e reflectidas; mesmo porque, possivelmente o sentimento deste enfermeiro seja fruto de um modelo inapropriado seguido, ou talvez seja a falta de “algo novo”, que o faça realmente acreditar.   

 

 

Bibliografia

 

 

1 - COLLIÉRE, M – Promover a Vida. Da prática das mulheres de virtude aos cuidados de enfermagem. Tradução do Francês Maria Abecasis. 5ª ed. Lisboa: Lidel, 1999. ISBN 272 96-0009-4.

 

2 – VEIRA, Margarida – Ser Enfermeiro: Da Compaixão à Proficiência. Lisboa: ed. Universidade Católica Portuguesa, Lda. 2007 (pág 11,12) ISBN 978-972-54-0146-0

 

3 - Instituto Nacional de Estatística - Portal de Estatísticas Oficiais. Disponível:

http://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_destaques&DESTAQUESdest_boui=70978&DESTAQUESmodo=2

 

4 - OLIVEIRA, T.C; LOPES, M.V.O; ARAUJO, T.L – Modo Fisiológico da Teoria de Roy: Análise Reflexiva Segundo Melleis. 57º Congresso de Enfermagem. Nov. 2005. Brasil. Disponível: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/57cbe/resumos/380.htm.

 

5 – PIRES, Regina Maria; (et.al.) – Supervisão clínica de alunos de enfermagem. Revista Sinais Vitais. Nº 54 Maio 2004. ISSN: 0872-0844.

 

6 - FERREIRA, António Cardoso – Pensar Saúde. Revista Aprender ao Longo da Vida. Nº 7; Edição Maio 2005.

 

7 - Ordem dos Enfermeiros – Tempo de Mudança. Revista da ordem dos Enfermeiros. Nº 22. Julho 2006. (p. 29 a 31) ISSN 1646-2629.

 

8 - Médicos do Mundo – Desabafo de um Enfermeiro. ONG de Ajuda Humanitária. Portugal. Disponível: http://www.medicosdomundo.pt/index.jsp?page=news&lang=pt&newsId=385

 

9 - Ordem dos Enfermeiros – Um novo modelo de desenvolvimento profissional. Certificações de Competências e Individualização de Especialidades em Enfermagem. Suplemento de Revista. Nº26. Junho 2007. (p. 9 a 20). ISSN 1646-2629

 

 


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