O enfermeiro acredita na capacidade de superação dos indivíduos frente as desavenças da vida, mesmo porque, existem evidências científicas que mostram a contribuição da saúde para a qualidade de vida das populações.

04
Ago 09

 

Enf. Jorge Franco

 

 

Artigo “Enfermagem Avançada”: um sentido para o desenvolvimento da profissão e da disciplina. Autor: Abel Braga, Doutor em Ciências de Enfermagem pelo ICBAS – Universidade do Porto, publicado na revista Servir nº 55 Jan./Fev. 2007 (p. 11 a 19), sobre o sentido de direcção para o desenvolvimento da profissão e da disciplina de Enfermagem.

 

Resumo e Crítica da Obra

 

A importância do tema, a simplicidade, frontalidade e o domínio com que o autor aborda questões fundamentais referentes a enfermagem, influenciaram na escolha deste artigo.

 

A obra permite ao leitor fazer uma reflexão de suas práticas, pois leva-o a que se pergunte: O que estou fazendo? Como? Baseado em quê? O que quero? Para onde estou indo?

 

Propõe-se com este trabalho evidenciar e analisar os pontos mais relevantes, procurando, de forma simples, contribuir positivamente.

 

O artigo apresenta-se dividido em quatro partes, além da introdutória, expostas de forma organizada e rica em bibliografia de qualidade, o que leva o autor a justificar e evoluir o seu pensamento de forma segura.

 

Pretende-se ir directo a primeira parte, visto que a introdutória coloca de forma sintética o que será abordado. O autor refere que o ser humano sempre se preocupou em cuidar do seu semelhante nos momentos de sofrimento e diz “assume-se no entanto relativamente à enfermagem”. Entende-se que o doutor abre um espaço para que se pergunte: Quando surge a enfermagem, visto ser alusiva ao cuidado humano. COLLIERE (1) afirma que “ a prática dos cuidados é, sem dúvida, a mais velha prática da história do mundo”. Baseado na linguagem popular, visto que esta acaba se tornando objecto de estudo de muitos pesquisadores, o ditado “cada um tem um pouco de médico”, devido erradamente se auto-diagnosticar e se auto-medicar muitas vezes, têm-se aqui a pretensão de dizer que antes disso já tinha “um pouco de enfermeiro”. Isso para tentar defender ou fortalecer a ideia de que o cuidado humano surge da própria essência do ser, isto é, da procura, muitas vezes instintiva, de promover o seu próprio desenvolvimento. VIEIRA (2) coloca que “os seres humanos sempre precisaram de cuidados (…) ” e acrescenta “ a história dos cuidados aos que padecem é a história da enfermagem” fazendo uma clara distinção entre o tempo dessa história e a época da profissão organizada quando refere " enquanto profissão organizada , a enfermagem remonta do século XIX, mas o seu passado ainda hoje influencia o presente dos cuidados (...)". 

 

Diz que Florence Nightingale é responsável pela prática profissional moderna e reproduz as palavras da enfermeira “ (…) toda a mulher é enfermeira”. O que nos faz pensar no pouco interesse do sexo masculino para o exercício da profissão, promovendo-se assim uma enfermagem centrada na mulher como o próprio autor coloca “ Vemos aqui a enfermagem centrada na mulher dedicada ao cuidado”.

 

Analisando o que foi referido percebe-se que já se passaram mais de um século e a enfermagem contínua a ser uma profissão predominantemente feminina, fruto da repercussão de um modelo sociocultural histórico que deve ser ultrapassado. Segundo o Instituto Nacional de Estatística Português (3), no ano de 2000 estavam escritas na Ordem dos Enfermeiros 37.487 pessoas sendo que 82% eram do sexo feminino. Esses dados confirmam que a profissão ainda não conseguiu atrair significativamente o sexo masculino, o que gera a necessidade de se estudar profundamente o fenómeno.

 

Realça marcos importantes para a Enfermagem portuguesa tanto ao nível do ensino como do ponto de vista do enquadramento legal do exercício da profissão como: a proibição do exercício a quem não possuísse diploma na década de 40; O REPE em 1996; A criação da ordem dos Enfermeiros em 1998; A integração do ensino de Enfermagem no sistema educativo nacional a nível do ensino superior politécnico; A licenciatura em 1999; o surgimento dos mestrados e o primeiro doutoramento em enfermagem no ano de 2001. Destaca também as intervenções interdependentes e autónomas do enfermeiro.

 

É interessante observar que o autor cita datas não com o propósito puramente ilustrativo, mas sim com o intuito de mostrar ao leitor que a enfermagem evoluiu de forma positiva e que é importante que os enfermeiros estejam bem organizados no futuro para enfrentar novos desafios.

 

Na segunda parte cita as Escolas de Pensamento de Enfermagem dando destaque para a Escola do cuidar. Utiliza a definição de enfermagem de Meleis & Trangenstein o que lhe permite fazer a coligação: Enfermagem/cuidar/transição/desenvolvimento humano.

 

Considera, baseando-se em bibliografia apropriada, que apesar da evolução da enfermagem, a qualidade dos cuidados que hoje vivenciamos ainda tem como foco a gestão de sinais e sintomas, desvalorizando o modelo curativo (lógica executiva/Paradigma biomédico) e reforçando uma lógica conceptual com utilização de conhecimentos da disciplina à partir da utilização de teorias da enfermagem e da própria investigação dos enfermeiros. Facto que é unânime na opinião de vários autores, porém não desvanece a ideia de que tanto as teorias como a investigação na área não foram suficientes, até ao momento, para sensibilizar grande parte do grupo profissional. Segundo Oliveira, Lopes e Araújo (4) “ apesar de toda evolução da ciência e, consequentemente, da enfermagem, ainda hoje, percebemos uma certa dificuldade por parte de alguns enfermeiros em trabalhar com teorias, seja no âmbito da assistência, ensino ou pesquisa”.

 

Na tentativa de reforçar esse pensamento tomemos como exemplo os académicos de enfermagem. Estes necessitam realizar estágios no campo prático, não só para o seu desenvolvimento profissional como também pessoal. Apesar das instituições de ensino transmitirem uma visão conceptual da enfermagem, os estudantes são defrontados com o paradigma biomédico da prática, tendo que o aceitar devido ser a própria realidade. Essa desarticulação entre a teoria e a prática e a aceitabilidade total ou parcial do aluno a situação exposta, faz com que se inicie um “ciclo vicioso”, pois permite que no futuro, o aluno agora profissional, aceite mais facilmente o modelo em uso. Tudo isso faz-nos pensar em um processo moroso e pouco resolutivo a curto e médio prazo, com pouca resposta aos anseios do autor. PIRES (5) aponta um estudo que mostra que os enfermeiros na prática não estão totalmente preparados para receber os estudantes e que estes “ deparam-se com um fosso entre a teoria e a prática (…) ”.

 

A terceira parte observa a necessidade de mudança na natureza dos cuidados de saúde frente a uma população cada vez mais envelhecida, onde as doenças crónicas assumem importância capital. Diz que as intervenções de enfermagem devem ser centradas em um modelo conceptual, visto que o paradigma biomédico não é capaz de dar as respostas necessárias.

 

Chama a atenção ao leitor enfermeiro, dando alguns exemplos onde a intervenção de enfermagem deve ser urgente, apelando de forma extremamente positiva para o direito dessas pessoas em terem acesso a cuidados de enfermagem de qualidade, isto é, dirigido as suas reais necessidades de saúde, visto comprometer a qualidade de vida e acarretar graves prejuízos.

  

No desenvolvimento de seu raciocínio introduz temáticas como o Auto Cuidado; a Adesão do Regime Terapêutico; a Transição; o Prestador de Cuidados que são sustentadas por teorias de enfermagem e que devem ser desenvolvidas e valorizadas pelo enfermeiro.

 

Contudo, se observamos a sequência: “saúde – doença/comprometimento – melhor bem-estar possível”, podemos notar que o autor tem como ponto de partida a doença/comprometimento baseando-se em necessidades de intervenção actuais. Apesar de focar necessidades emergências, não subvalorizando outras, é importante sublinhar a importância em se trabalhar a partir da saúde, reforçando o papel do enfermeiro na promoção da saúde e prevenção da doença, mesmo porque, muitas dessas doenças chamadas “crónicas” podem ser evitadas. Com o intuito de solidificar esse pensamento temos FERREIRA (6) que coloca “ (…) infelizmente, as próprias políticas de saúde, neste país aparentemente desenvolvido, têm-se centrado quase só nos tratamentos e pouco tem sido investido na saúde como um bem a promover”. Dando sequência a essa reflexão podemos considerar também urgente e fundamental que este profissional aproveite o conceito alargado de saúde e invista em novas linhas de actuação e descubra novos caminhos. Como agente promotor do desenvolvimento humano e por isso crítico e reflexivo com competência técnica/científica/ética/política/social/educativa, deve buscar conhecimentos dentro da sua disciplina e em outras. O aumento de conhecimentos gera a abertura de fronteiras e proporciona não só novas oportunidades, como também campos de intervenção diferentes.

 

A última parte o autor coloca algumas questões bastante polémicas, indaga-as e por fim põe claramente a sua posição.

 

Diz que em muitos países tem-se observado uma preocupação com os custos da saúde e que devido a isso alguns países como os EUA elaboraram um conceito chamado “Advanced Nursing Practice” que engloba dois tipos de enfermeiros: os “Clinical Nurse Specialists” que são aqueles, que na sua maioria, têm o grau de Mestre e os “Nurse Pratitioners”. O primeiro surge essencialmente no âmbito das unidades médico-cirúrgicas, não actuam junto aos indivíduos e se restringem ao ensino e a gestão da qualidade. Já os Nurse Practitioners actuam em sua maioria no contexto comunitário, no domínio da prática. Estes últimos possuem formação avançada em fisiopatologia e farmacologia, o que faz com que estejam preparados para prescrever medicamentos e solicitar exames laboratoriais entre outras atribuições. Seguem assim um modelo biomédico, pouco resolutivo na opinião do autor, apesar de se observar esforços para conservar a essência da enfermagem.

 

Coloca claramente que esse não é o caminho a seguir e cita o caso dos países nórdicos.

 

Estimula o leitor a fazer uma reflexão sobre os conceitos “Prática Avançada”, que usa os procedimentos da medicina e “Enfermagem Avançada” que se baseia em conhecimentos próprios da enfermagem. A seguir reafirma a sua posição de que a enfermagem avançada é a melhor opção a seguir. Diz que os cuidados de saúde exigem um esforço multiprofissional, um espaço multidisciplinar e que a perspectiva unidisciplinar não responde a complexidade que os problemas de saúde exigem.

 

A reflexão suscitada faz com que se perceba que nenhuma profissão deve estar acoplada ao momento político ou económico que se vive, visto ser muito variável (hoje pensa-se de um jeito, amanhã de outro). Porém não ofusca o pensamento de que deva aproveitar as ocasiões ditas “satisfatórias” para se desenvolver, visando sempre o bem-estar dos seus membros e daqueles que estes assistem; deva procurar dar respostas aos anseios e solicitações da sociedade que, na maioria das vezes, se apresentam através de necessidades.

  

Como é sabido, o enfermeiro é hoje um dos profissionais de saúde mais cobiçados a nível mundial. A própria OMS (7) realça o papel deste profissional na “prevenção, identificação de necessidades, no planeamento, execução e avaliação de cuidados, com o intuito de ajudar as pessoas, famílias e grupos a determinar e a realizar o seu potencial físico, mental e social, nos contextos em que vivem e trabalham”. Baseado nesse entendimento podemos considerar que o facto de prescrever medicamentos, solicitar exames ou outros atributos, deva ser visto como um simples detalhe frente a responsabilidade que lhe foi atribuída. Contudo, não deixa de ser relevante imaginar que na formação deste técnico, seja ela de base (licenciatura) ou posterior (especializações/mestrados), seja apontada e reforçada claramente a linha a ser seguida. Nos doutoramentos e cursos superiores seja incutido a responsabilidade da produção de conhecimentos e criação de estratégias para o melhoramento da própria disciplina enfermagem.

 

Para finalizar, a preocupação do autor é valiosa, mas é preciso sensibilizar os profissionais de enfermagem. Observa-se que muitos enfermeiros encontram-se desmotivados, cansados, carentes de algo novo e transformador. Em uma carta “convidativa”, publicada por uma organização não governamental, (8) um enfermeiro expõe seus sentimentos que talvez venha expressar o de muitos. Palavras como: desconforto, dúvidas, falta de oportunidades, receios entre outras, devem ser consideradas e reflectidas; mesmo porque, possivelmente o sentimento deste enfermeiro seja fruto de um modelo inapropriado seguido, ou talvez seja a falta de “algo novo”, que o faça realmente acreditar.   

 

 

Bibliografia

 

 

1 - COLLIÉRE, M – Promover a Vida. Da prática das mulheres de virtude aos cuidados de enfermagem. Tradução do Francês Maria Abecasis. 5ª ed. Lisboa: Lidel, 1999. ISBN 272 96-0009-4.

 

2 – VEIRA, Margarida – Ser Enfermeiro: Da Compaixão à Proficiência. Lisboa: ed. Universidade Católica Portuguesa, Lda. 2007 (pág 11,12) ISBN 978-972-54-0146-0

 

3 - Instituto Nacional de Estatística - Portal de Estatísticas Oficiais. Disponível:

http://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_destaques&DESTAQUESdest_boui=70978&DESTAQUESmodo=2

 

4 - OLIVEIRA, T.C; LOPES, M.V.O; ARAUJO, T.L – Modo Fisiológico da Teoria de Roy: Análise Reflexiva Segundo Melleis. 57º Congresso de Enfermagem. Nov. 2005. Brasil. Disponível: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/57cbe/resumos/380.htm.

 

5 – PIRES, Regina Maria; (et.al.) – Supervisão clínica de alunos de enfermagem. Revista Sinais Vitais. Nº 54 Maio 2004. ISSN: 0872-0844.

 

6 - FERREIRA, António Cardoso – Pensar Saúde. Revista Aprender ao Longo da Vida. Nº 7; Edição Maio 2005.

 

7 - Ordem dos Enfermeiros – Tempo de Mudança. Revista da ordem dos Enfermeiros. Nº 22. Julho 2006. (p. 29 a 31) ISSN 1646-2629.

 

8 - Médicos do Mundo – Desabafo de um Enfermeiro. ONG de Ajuda Humanitária. Portugal. Disponível: http://www.medicosdomundo.pt/index.jsp?page=news&lang=pt&newsId=385

 

9 - Ordem dos Enfermeiros – Um novo modelo de desenvolvimento profissional. Certificações de Competências e Individualização de Especialidades em Enfermagem. Suplemento de Revista. Nº26. Junho 2007. (p. 9 a 20). ISSN 1646-2629

 

 

Publicado por Enfermagem Aberta às 17:33

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