O enfermeiro acredita na capacidade de superação dos indivíduos frente as desavenças da vida, mesmo porque, existem evidências científicas que mostram a contribuição da saúde para a qualidade de vida das populações.

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Jul 09

 

Enf. Jorge Franco

 

A educação para a saúde tradicional tem se preocupado em alterar estilos de vida considerados pouco saudáveis. Porém, tem utilizando estratégicas persuasivas e de transmissão de conhecimento sem ao menos se importar com os contextos e o ambiente onde as pessoas estão inseridas. Parte do princípio que tudo depende dos comportamentos do indivíduo e que este deve encaixar-se, de qualquer maneira, no ambiente em que vive. Este tipo de método educacional vem sendo muito criticado por pesquisadores da área por acreditarem que se baseia em conceitos estáticos e pré-estabelecidos, o que leva com que o indivíduo/grupos sejam verdadeiros “depósitos de informação” por terem que aceitar e seguir recomendações que os afasta da sua realidade. Por não conseguirem cumprir, na maioria das vezes, os conselhos transmitidos, acabam sendo culpabilizados pelos seus fracassos, o que leva a se sentirem incompetentes face ao modelo aplicado. Grenn citado por OLIVEIRA (45) acredita que para promover saúde, o ambiente deve oferecer condições físicas, económicas e sociais que proporcionem estilos de vida saudáveis e que garantam informações e serviços. O indivíduo deve ter no ambiente um suporte que auxilie nas decisões comportamentais em favor da manutenção de sua saúde.

 

A Organização Pan-americana de Saúde entende estilos de vida, como a maneira como as pessoas vivem e fazem suas escolhas que se relacionam com os seus contextos de vida, sua cultura, seus hábitos que podem ser adquiridos no ambiente familiar e social e com o conhecimento acumulado durante a vida (46).

 

É imperativo a necessidade de formação de indivíduos autónomos, livres, críticos, inovadores e criativos. Para que isso aconteça é importante que a saúde seja vista numa perspectiva individual, social e cultural, onde seja considerado, em qualquer abordagem de educação em saúde, a percepção própria do ideal de saúde de cada indivíduo, bem como, o ambiente onde este esta inserido, mesmo porque, um indivíduo jovem pode definir saúde e estilo de vida de forma diferente de um idoso, pois provavelmente terá aspirações e necessidades também diferentes. É fundamental capacitar as pessoas para que no seu dia-a-dia possam lidar com sua saúde e usufruir do ambiente que as cerca de forma positiva.

 

Hoje existem muitos estudos que condenam o modelo de educação para saúde tradicional e disponibilizam outros mais eficazes. Estes estudos evidenciam a influência de ambientes favoráveis a saúde, na promoção e desenvolvimento de estilos de vida saudáveis. Destacam a importância de acções que forneçam aos indivíduos condições para que possam optar, de forma livre e consciente, pelo melhor caminho para seguir suas vidas (opção informada). Baseiam-se no desenvolvimento de uma consciência crítica (capacidades de pensar) das pessoas, observando os recursos pessoais e sociais de cada um, de maneira com que se tornem sujeitos convictos e capazes de tomar decisões seguras e apropriadas para melhoria da saúde individual e colectiva. Já a Carta de Bangkok em 2005, identificava a necessidade de se intensificar acções para abordar os determinantes de saúde num mundo globalizado. Destacava a importância de políticas e parcerias para capacitação das comunidades (34). 

 

Segundo a OMS ambientes favoráveis à saúde refere-se “ (…) aos aspectos físicos e sociais que nos rodeiam. Isto é, os locais onde as pessoas residem, trabalham e passam os seus tempos livres. O que também envolve as questões estruturais que determinam o acesso aos recursos vitais e às oportunidades de capacitação (empowerment) ” (26).

 

STOKOLS (47) afirma que os ambientes físicos e sociais exercem influência sobre as percepções e os comportamentos dos indivíduos podendo afectar a saúde de diferentes maneiras. Coloca que “ entre o meio e o indivíduo desenvolvem-se interacções que provocam alterações mútuas, o meio transforma o indivíduo que, ao actuar no meio, também o transforma”.

OMS considera o ambiente “ (…) de superior importância para a saúde. Os dois são interdependentes e inseparáveis (26).

 

Logo, concluísse que a saúde pode ser considerada uma consequência da qualidade de adaptação do binómio “pessoa x ambiente” visto serem inseparáveis.

 

Segundo a Ordem dos Enfermeiros a pessoa “ é um ser social e agente intencional de comportamentos baseados nos valores, nas crenças e nos desejos da natureza individual, o que torna cada pessoa num ser único, com dignidade própria e direito a auto-determinar-se”. Considera ainda que a pessoa está em sintonia constante com o ambiente que a cerca onde “ modifica-o e sofre a influencia dele durante todo o processo de procura incessante do equilíbrio e da harmonia”. Diz que o ambiente é constituído por “elementos humanos, físicos, políticos, económicos, culturais e organizacionais, que condicionam e influenciam os estilos de vida e que se repercutem no conceito de saúde. Na prática dos cuidados, os enfermeiros necessitam de focalizar a sua intervenção na complexa interdependência pessoa / ambiente” (48).

 

A OMS em 1986, através da carta de Ottawa define saúde de forma bastante positiva quando refere “ (…) para atingir um estado de completo bem-estar físico, mental e social, o indivíduo ou grupo devem estar aptos a identificar e realizar as suas aspirações, a satisfazer as suas necessidades e a modificar ou adaptar-se ao meio. Assim, a saúde é entendida como um recurso para a vida e não como uma finalidade de vida; a saúde é um conceito positivo, que acentua os recursos sociais e pessoas, bem como as capacidades físicas” (25).

 

A criação de ambientes saudáveis parte da necessidade de se analisar criticamente o local em que se vive, seja ele o ambiente domiciliar, a escola, a comunidade, o local de trabalho e lazer, entre outros. É necessário que se atente que além dos aspectos físicos na criação de ambientes saudáveis, as condições sociais, económicas, políticas e emocionais são determinantes para criação de uma relação coerente entre o ser humano e o ambiente.

 

É de interesse destacar a Teoria Sistémico-Ecológica de Enfermagem criada por PAIM em 1974 que assenta no “homem sistémico e cibernético”. Visualiza o ambiente, no processo de cuidar, como "um factor a mais" da rede de multicausalidade (49).

 

O enfermeiro, como agente fomentador da saúde, deve incentivar a participação popular na criação de ambientes saudáveis. Como educador deve procurar trabalhar junto dos indivíduos, famílias, comunidades no sentido de proporcionar conhecimentos que visem a preservação ou eliminação de possíveis agravos ao ambiente. Como investigador pode contribuir na procura de metodologias que avaliem os riscos ambientais nocivos a saúde das populações. A detecção precoce de possíveis riscos e o fornecimento de informações/orientações a cerca das questões ambientais, além de promover a saúde do indivíduo, contribui para a saúde a nível global. Desta forma podemos dizer que a relação harmoniosa entre o homem e o ambiente propicia a construção de uma sociedade com consciência ecológica e que por isso mais afectuosa, solidária e democrática.

 

BIBLIOGRAFIA

 

1 - OLIVEIRA, Thaís Branquinho; (et.al.) - A Promoção de Saúde na Perspectiva social Ecológica. Artigo de Revisão. Universidade de Brasília – DF. 2008. Consulta 2009-05-26 Disponível:

http://www.unifor.br/notitia/file/2319.pdf  

 

2 - Organização Pan-americana de Saúde (OPS) – Editorial: Estilos de Vida. Consulta 2009-05-28 Disponível:

http://www.paho.org/spanish/dd/pub/TopicHome.asp?TP=&KW=reviewedPublicationsULS&Lang=S&Title=Estilos%20de%20vida

 

3 - World Health Organization. Bangkok charter for health promotion in the a globalized world. Geneve: WHO; 2005. Consulta 2009-04-25 Disponível: www.worldhealthorganization/html

 

4 - Organização Pan-Americana de Saúde (OPS) – Declaração de Adelaide. Segunda Conferência Internacional sobre Promoção da saúde. Adelaide, Austrália, Abril de 1988 OPS. Consulta 2009-04-27 Disponível:

http://www.opas.org.br/coletiva/uploadArq/Adelaide.pdf

 

 

5 – STOKOLS, D - Translating Social Ecological Theory into guidelines for community health promotion. American Journal of Health Promotion. 1996. Consult 2009-05-21 Disponível:

https://webfiles.uci.edu/dstokols/Pubs/Translating.PDF?uniq=-z4d46s.

 

6 - Ordem dos Enfermeiros – Padrões de Qualidade dos Cuidados de Enfermagem. Dez. 2001. Consulta 2009-05-30 Disponível:

http://www.ordemenfermeiros.pt/images/contents/documents/98_Padroesqualidade.pdf .

 

7 – Organização Pan-Americana de Saúde (OPS) – Carta de Ottawa. Primeira Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde. Ottawa, Novembro de 1986 OPS. Consulta 2009-04-28. Disponível:

http://www.opas.org.br/coletiva/uploadArq/Ottawa.pdf

 

8 - RIBEIRO, Maria Celeste Soares; (et.al.) - Reflexões sobre a participação da enfermagem nas questões ecológicas. Rev. Esc. enferm. USP vol.36 no.4 São Paulo Dez. 2002 ISSN 0080-6234

 


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