O enfermeiro acredita na capacidade de superação dos indivíduos frente as desavenças da vida, mesmo porque, existem evidências científicas que mostram a contribuição da saúde para a qualidade de vida das populações.

16
Jul 09

 

Enf. Jorge Franco

O surgimento e desenvolvimento das comunidades são fruto do próprio nascimento do ser humano e de movimentos migratórios com os quais o trabalho e a necessidade de vida em grupo são factores fundamentais. A sua sustentabilidade conduz a necessidade de um aumento da produção e divisão de bens, o que gera não só o desenvolvimento das regiões ou territórios, como também fortes laços e sentimentos de identidade nas pessoas, cujas características e contextos normalmente são específicos. A CIPE (1) reforça este pensamento quando define comunidade “ (…) grupo de seres humanos vistos como uma unidade social ou todo colectivo, composta por membros ligados pela partilha geográfica, condições ou interesses comuns. A unidade social constituída pela comunidade como um todo é vista como algo para além dos indivíduos e da sua relação de proximidade geográfica, partilha de condições ou interesses comuns, que constituem as partes do grupo”.

Apesar de estar na moda o termo “Enfermeiro de Saúde Comunitária”, devido a compreensão da sua importância e a necessidade no contexto actual, é importante que não esqueçamos que a enfermagem em outras épocas já desenvolvia trabalhos na área, o que contribuiu, de certa forma, para o acúmulo de saberes que hoje desfrutamos. Podemos fundamentar tal afirmação citando o trabalho de Elizabeth Fry que tinha como primeiro objectivo cuidar dos doentes “ (…) de todas as classes sociais nas suas próprias casas” (2).

Actualmente o enfermeiro comunitário adopta um papel de relevo, por assumir a responsabilidade/compromisso de ir ao encontro das necessidades reais de saúde das populações, onde centra as suas práticas na promoção da saúde, dado destaque para as actividades de educação em saúde, prevenção da doença, recuperação e manutenção da saúde, planeamento, coordenação, gestão e avaliação dos cuidados prestados aos indivíduos, famílias e grupos que constituem uma comunidade.

A Saúde Comunitária por ser uma área de especialização da enfermagem, faz com que o profissional tenha que incorporar uma visão holística e contextual da pessoa/família, o que potencializa a adequação de respostas face à especificidade dos problemas encontrados (5).

Correia (6) aborda a Enfermagem Comunitária como sendo “uma prática continuada e globalizante dirigida a todos os indivíduos ao longo do seu ciclo de vida e desenvolve-se em diferentes locais da comunidade”.

Contudo, as intervenções devem ser dinâmicas observando um conjunto de medidas que contribua para o bem-estar na óptica do cidadão inserido em sua comunidade. Sendo o enfermeiro também um cidadão “emissor e receptor de mensagens”, deve interferir nos problemas de forma precisa e harmoniosa, onde sentimentos como o de ajudar, incentivar, colaborar e participar sejam colocados em prática e tidos como prioritários.

A Ordem dos Enfermeiros (7) através do documento “Padrões de Qualidade dos Cuidados de Enfermagem” define seis categorias de enunciados que ajudam a precisar o papel do enfermeiro junto dos clientes, dos outros profissionais e do público: 1) satisfação do cliente; 2) prevenção de complicações; 3) bem-estar e o auto cuidado; 4) readaptação funcional; 5) organização dos cuidados de enfermagem e 6) promoção da saúde. Nesta última categoria, “Promoção da Saúde”, cita elementos importantes para que os enfermeiros ajudem os indivíduos a alcançarem o máximo potencial de saúde: 

A)    Identificação da situação de saúde da população e dos recursos do cliente / família e comunidade.

A)   Criação e o aproveitamento de oportunidades para promover estilos de vida saudáveis.

B)   Promoção do potencial de saúde do cliente através da optimização do trabalho adaptativo aos processos de vida, crescimento e desenvolvimento.

C)    Fornecimento de informação geradora de aprendizagem cognitiva e de novas capacidades pelo cliente.

A Organização Mundial de Saúde (5) realça o papel dos enfermeiros na prevenção, identificação de necessidades, no planeamento, execução e avaliação de cuidados, com o intuito de ajudar as pessoas, famílias e grupos a determinar e a realizar o seu potencial físico, mental e social, nos contextos em que vivem e trabalham. 

A percepção dos problemas inerentes a uma determinada comunidade requer o entendimento e o envolvimento profundo com a mesma, o que se traduz em proximidade. A Ordem dos Enfermeiros é assertiva quando coloca que “é no contexto da comunidade que, partindo da investigação das suas necessidades, é permitido compreender melhor os seus mecanismos e aumentar os conhecimentos nos quais os diferentes “artesãos de cuidados” se poderão apoiar” (4).

Esse aumentar conhecimentos só pode ser conseguido com a partilha de experiências que deverá ser facultada com a criação de um elo de confiança, que deve ser conquistado e preservado. O fortalecimento da relação entre o enfermeiro e o cidadão passa, entre outras, pelo respeitar de ideias, pontos de vista, conceitos providos de experiências passadas, sem que haja qualquer tipo de desvalorização. Tudo isso talvez venha de encontro a que chamo aqui “troca harmoniosa de saberes”, onde um saber “técnico e científico” não sobrepõe por completo ao outro saber “popular/experiências de vida”. A conjugação desses dois saberes deve sim servir de base para uma melhor compreensão das necessidades de mudança, tanto do enfermeiro como daquele que este assiste. A Ordem dos Enfermeiros (8) entende que “ o saber especializado em enfermagem deverá ser decorrente do aprofundar do conhecimento da pessoa já que, por definição os cuidados de enfermagem tomam por foco de atenção a promoção de projectos de saúde que cada pessoa vive e persegue”.

A multiculturalidade é um tema no qual o enfermeiro de Saúde Comunitária deve ter atenção. Não é raro observar pessoas de diferentes raças, culturas, religiões e nacionalidades em busca de respostas para os seus problemas de saúde. Essa diversidade cultural traz  a oportunidade de conhecer e compreender formas diferentes de ver e estar na vida. Estas pessoas trazem em suas “bagagens” hábitos, costumes, mitos, crenças, linguagem própria, comportamentos, entre outros, que estão relacionados com suas experiências de vida, e que por isso devem ser considerados e respeitados. O enfermeiro deve procurar descodificar expressões e comportamentos naturais, provenientes da linguagem cultural do indivíduo, para que possa prestar um cuidado personalizado. Ordem dos Enfermeiros coloca que é necessário “ (…) descobrir o significado do cuidado cultural e as práticas de cuidados específicos de cada cultura (…) ” e acrescenta “ (…) para proporcionar um cuidado de enfermagem culturalmente sensível, congruente com os factores que influenciam a saúde/ bem-estar”.

A CIPE (1) define cultura como “ estrutura psicossocial com as características específicas: Tudo que a pessoa tem de saber ou em que tem de acreditar para agir de uma maneira aceitável”.

LEININGER (9) através da Teoria da Diversidade e Universalidade Cultural do Cuidado esclarece que o cuidado de enfermagem emerge no próprio contexto cultural onde daí se desenvolve. Mostrou que a Enfermagem Transcultural “ (…) é um comparativo e análise de culturas em relação às práticas de cuidado de enfermagem, visando um atendimento significativo e eficaz às pessoas de acordo com seus valores culturais e seu contexto saúde/doença”.

Diversos instrumentos legais a nível nacional e internacional garantem cuidados de saúde de qualidade a todas as pessoas, independentemente da sua origem. No caso da enfermagem o Decreto de Lei nº 104/98 Artigo 81, diz que é dever do enfermeiro: alínea a) “Cuidar da pessoa sem qualquer discriminação económica, social, política, étnica, ideológica ou religiosa; e) “Abster de juízos de valor sobre o comportamento da pessoa assistida e não lhe impor os seus próprios critérios e valores no âmbito da consciência e da filosofia de vida; f) “Respeitar e fazer respeitar as opções políticas, culturais, morais e religiosas da pessoa e criar condições para que ela possa exercer, nestas áreas, os seus direitos” (10).

A actuação do enfermeiro não se restringe as unidades de saúde. A compreensão por parte deste de que a expansão do “território da saúde” vai muito além da simples utilização por parte do cidadão das unidades de saúde, isto é, dele próprio, componente desta, e que o desenvolvimento de suas práticas deve ser centrado no indivíduo/família/comunidade também fora destas unidades, faz com que este perceba a importância de seu papel como mediador ou facilitador de mudanças positivas em prol da saúde. Mesmo porque, acredita-se que grande parte dos problemas encontram-se no seio da própria comunidade, e é responsabilidade deste, em uma perspectiva multidisciplinar, identificá-los, minimiza-los ou soluciona-los. É junto das comunidades que observamos pessoas no mais completo isolamento social e com “fome de saúde” como é o caso de idosos dependentes e sem família, cuidadores desesperados e desgastados que abdicam de sua própria vida para cuidar do outro, portadores de doenças crónicas como é o caso da SIDA que muitas vezes para não serem discriminados preferem esconder o seu status de saúde, a violência familiar, crianças abandonadas com o futuro perdido onde tornam-se verdadeiros “fantasmas” perante os olhos que não as vê, a violência na escola, o desrespeito com os idosos, a toxicodependência, o analfabetismo que cria dificuldades na obtenção de informações e oportunidades, pessoas sem-abrigo ou com habitação indigna, entre outras muitas para não falar na pobreza extrema que assola muitos países (11).

O profissional enfermeiro deve acreditar na capacidade de superação dos indivíduos frente as desavenças da vida, mesmo porque existem evidências científicas que mostram a contribuição da saúde para a qualidade de vida das populações. Da mesma forma que é sabido que muitos componentes do dia-a-dia contribuem para uma vida com qualidade, são também fundamentais para que indivíduos e populações alcancem um perfil elevado de saúde. A OMS define qualidade de vida como “ (…) a percepção do indivíduo de sua posição na vida no contexto da cultura e sistemas de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objectivos, expectativas, padrões e preocupações” (8). Já a Ordem dos Enfermeiros sublinha que “ (…) a saúde encontra-se cada vez mais associada à qualidade de vida, chegando, inclusive, a com esta se confundir”. (12)

A especialização na área por conceder um elevado grau de resposta as necessidades dos cidadãos e por proporcionar uma visão multidimensional da saúde, permite ao enfermeiro ir ao encontro dos problemas citados, através da coordenação e/ou participação de projectos locais e no desenvolvimento de actividades em vários locais na comunidade como: centros de saúde, ambulatórios hospitalares, infantários, escolas, universidades, presídios, repartições públicas, centros de desporto e lazer, locais onde se concentrem grande aglomerado de pessoas, nos domicílios, entre outros, de forma a (…) “interferir nos processos saúde/doença do cidadão, com vista à promoção da saúde, prevenção e tratamento da doença, readaptação funcional e reinserção social” (5).

O autoconhecimento e a capacidade de se auto estimular são factores determinantes para todos os técnicos de saúde que trabalham nesta área. A complexidade e a diversidade dos problemas fazem com que muitos projectos só apresentem resultados significativos a longo prazo. Essa falta de visualização de resultados imediata, aliada ao possível agravamento das situações/problema ou o aparecimento de outras, fazem com que estes técnicos experimentem uma sensação de incapacidade que resulta, muitas vezes, em desmotivação. A capacidade de leitura das suas próprias emoções e o reconhecimento dos seus efeitos, o entendimento de seu valor e de seus recursos, de suas capacidades e limites interiores são pontos fundamentais para se ultrapassar melhor os obstáculos. Porem só isso não basta, é necessário também ter um auto controlo sobre as emoções destrutivas, ser honesto e transparente, ter capacidade de adaptação frente as mudanças e ter iniciativa agindo consoante as oportunidades com orientação para estratégias futuras.

A comunicação terapêutica é um instrumento fundamental para a prática da enfermagem. A capacidade de expressar seus pensamentos de forma clara e precisa, tendo em atenção o contexto e o receptor específico (indivíduo/família/grupo) lhe proporciona uma intervenção dirigida as necessidades detectadas, observando todas as suas dimensões. Stefanelli, citado por OLIVEIRA (13) coloca que este tipo de comunicação tem intuito de identificar e atender as necessidades de saúde e contribuir para melhorar a prática de enfermagem, ao criar oportunidades de aprendizagem e activar sentimentos de confiança e auto-estima proporcionando assim maior satisfação e segurança. O mesmo autor acrescenta que é importante que se estabeleça um relacionamento empático e que se considere a individualidade, os valores, as crenças dos indivíduos utilizando sempre uma linguagem clara, de acordo com o nível de instrução da pessoa, permitindo assim uma avaliação correcta de suas necessidades.

 

BIBLIOGRAFIA

1- CIPE – Classificação Internacional para a Prática de Enfermagem. Versão 1.0, 2005, Ordem dos Enfermeiros Portugueses (tradução) ISBN: 92-95040-36-8.   

2- VIEIRA, Margarida – Ser Enfermeiro: da compaixão à proficiência. Edição Universidade Católica Portuguesa, Lda. Lisboa. 2007. (p.18;19). ISBN 972-54-0146-8

3- Revista de Formação e Educação em Enfermagem. Escola Superior de Enfermagem de Coimbra. 1ªsérie; 5ª Edição; 2000. Consulta. 2009-05-25 Disponível: http://www.esenfc.pt/rr/rr/index.php?target=Detalhes&id_website=3&id_edicao=20

4- Ordem dos Enfermeiros – O Enfermeiro de Cuidados de Saúde Primários. 2007. Consulta. 2009-05-25 Disponível: http://www.ordemenfermeiros.pt/index.php?page=72&view=news:Print&id=379&print=.

5 - Ordem dos Enfermeiros – Tempo de Mudança. Revista da ordem dos Enfermeiros. Nº 22. Julho 2006. (p. 29 a 31) ISSN 1646-2629.

6- CORREIA, Cristina; (et. al.) - Os enfermeiros em cuidados de saúde primários. Revista Portuguesa de Saúde Pública. 2001. Consulta 2009-05-25 Disponível: http://www.ensp.unl.pt/dispositivos-de-apoio/cdi/cdi/sector-de-ublicacoes/revista/2000-2008/pdfs/E-07-2001.pdf 

 

7- Ordem dos Enfermeiros – Divulgar: Padrões de Qualidade dos Cuidados de Enfermagem. Enquadramento Conceptual. Revista da Ordem dos Enfermeiros. Nº32. 2002 (p. 8). ISSN 1646-2629.

8- Ordem dos Enfermeiros – Um novo modelo de desenvolvimento profissional. Certificações de Competências e Individualização de Especialidades em Enfermagem. Suplemento de Revista. Nº 26. Junho 2007. (p. 9 a 20).  ISSN: 1646-2629.

9 - LEININGER, M.M. - Culture care diversity and universality: a theory of nursing.  New York: National League for Nursing, 1991.

 

10- DECRETO-LEI nº 104/98. Diário da Republica, I Série -A de 21 de Abril. Nº 93, p. 1719 a 1757.

11- CIDADE SOLIDÁRIA – Pobreza intervir para mudar. Revista da Santa Casa de Misericórdia de Lisboa. Nº20, 2008 (p. 18 a 27). ISSN: 0874-2952.

 12- Ordem dos Enfermeiros – Envelhecimento Activo e Educação para a Saúde: uma prioridade. ISSN 1646-2629. 2005. Consulta. 2009-05-25 Disponível: http://www.ordemenfermeiros.pt/index.print.php?page=72&view=news:Print&id=153

13- OLIVEIRA, Poliéria, Santos; (et. al.) – Comunicação terapêutica em enfermagem revelada nos depoimentos de pacientes internados em centro de terapia intensiva. Revista Electrónica de Enfermagem. Vol. 7; Nº 1; pag. 54 a 63. 2005. Consulta 2009-05-27 Disponível: http://www.fen.ufg.br/revista/revista7_1/pdf/ORIGINAL_05.pdf 

 


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