Lamentavelmente a indignação dos enfermeiros portugueses se generalizou.
São diversos os jornais, noticiários na TV e sites que fazem referência a situação actual desses profissionais.
Muitos enfermeiros resolveram sair do anonimato e de forma organizada e democrática procuram mostrar a sua insatisfação.
Muitas pessoas andam curiosas e fazem de tudo para incentiva-los e acaricia-los na tentativa de ajudar de alguma forma. Frente a revindicação honesta da classe, que já se arrasta a muito, se intensificaram os esforços na procura de uma solução.
Os sindicatos estão a trabalhar arduamente para que estes técnicos, já tão penalizados, não sejam ainda mais prejudicados.
A Ordem dos enfermeiros segue com muita atenção os acontecimentos e já se manifestou e apelou para o "bom senso", pois não vai tolerar qualquer tipo de desrespeito ou ofensa para com a profissão.
Para quem não sabe, esses técnicos são muito sensíveis a injustiças, diferenças e desigualdades, pois, entre outros valores, observam a igualdade, respeito com o próximo, liberdade responsável, verdade, inclusão, solidariedade e a justiça social.
Sentem-se injustiçados face as contradições impostas que os diferenciam dos restantes licenciados da administração pública. É importante lembrar que o tratamento desigual implica privação e provoca irritabilidade, fadiga, falta de estímulo, ansiedade, entre outros muitos agravos.
Os enfermeiros estão perplexos com o “descaso” dos decisores políticos para com as suas revindicações, pois acreditam, acertadamente, que "pensar saúde" deve incluir todas às pessoas e contemplar a equidade, solidariedade e a participação. O que inclui tratamento igual para todos os profissionais de saúde. Frente as diversas tentativas falhadas por parte destes decisores, apela-se para que estes reflictam e mudem suas posições.
Enf. Jorge Franco
Mundialmente observa-se um número crescente de pessoas envelhecidas. Segundo forte literatura, este fenómeno é consequência da baixa fecundidade, redução da mortalidade, melhor controlo das doenças transmissíveis, contenção das doenças crónicas e da descoberta de vacinas e outros medicamentos mais eficazes. Contudo, esse fenómeno não vem sendo acompanhado com a qualidade de vida perspectivada por muitos, visto se verificar que as unidades de saúde se encontram lotadas de pessoas envelhecidas e que os idosos no seu dia-a-dia ainda suportam conceitos e imagens preconcebidas, simplistas, desajustadas e distantes da verdade.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) (1) definiu qualidade de vida como " (…) a percepção do indivíduo de sua posição na vida no contexto da cultura e sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objectivos, expectativas, padrões e preocupações".
Como sabemos o envelhecimento é um processo natural e deve ser considerado uma experiência positiva, pois é rico em momentos únicos e diferentes. Necessita ser acompanhado de oportunidades contínuas de saúde, participação e segurança. Existem vários factores determinantes no processo que podem influenciar e ditar a forma de se envelhecer: o componente genético, o modo de vida, o ambiente, as experiências vividas, a intelectualidade e as relações familiares.
Vários programas de saúde dirigidos a essa fatia populacional evidenciam a importância da conjugação desses factores e fornecem subsídios para intervenções multidimensionais, que visam assegurar o bem-estar dessas pessoas independentemente da presença ou não da componente doença/comprometimento. Todavia, constata-se, no terreno da prática, que a maioria das acções parte e fundamenta-se na existência desta componente, o que acaba por limitar a resposta de muitos programas. Muitas são as tentativas para justificar esse comportamento: o número insuficiente de técnicos no terreno ou de outros recursos, existência de um grande número de pessoas acometidas por doenças e incapacidades, falhas no repasse ou na clarificação de conceitos/ideias, pouca sensibilização dos executores no terreno, entre outras, o que provoca distorções e dificuldades em se trabalhar com o fenómeno de forma ampliada.
Segundo a OMS (2) em 2025 haverá mais de um bilhão de pessoas com mais de 60 anos e para 2050 é esperado que estes valores dupliquem, gerando um aumento das demandas que suportam os sistemas sociais e de saúde em todo mundo.
Portugal caminha no mesmo sentido, tendo o Instituto Nacional de Estatística (3) sinalizado recentemente que “nos próximos 50 anos, o país poderá continuar com cerca de 10 milhões de residentes, mas manter-se-á a tendência de envelhecimento demográfico, projectando-se que em 2060 residam no território nacional cerca de 3 idosos por cada jovem”. Esta projecção é baseada em um estudo onde foram consideradas as componentes fecundidade, migração e mortalidade e um cenário central “que conjuga um conjunto de hipóteses consideradas como mais prováveis face aos recentes desenvolvimentos demográficos”. Os resultados mostram uma esperança média de vida à nascença muito próxima dos 90 anos em 2060. Se considerarmos o estudo referido, podemos concluir que as pessoas ao alcançarem as idades esperadas irão exigir goza-las com boa saúde, o que reforça a ideia de que os programas dirigidos a essa população devam ser seguidos a risca, livres de interferências e com segurança.
A Classificação Internacional para a Prática de Enfermagem (CIPE) (4) define esperança de vida como “status com as características específicas: Idade média de morte numa dada população de nados vivos”. O mesmo instrumento define envelhecimento como “processo de desenvolvimento físico, normal e progressivo, durante a transição da idade adulta para a velhice; de acordo com a idade aproximada e estádios de desenvolvimento, é acompanhado pelo declínio dos processos corporais devido à diminuição da capacidade para regenerar as células, levando à perda de massa e coordenação musculares e de competências psicomotoras (…) ”.
O tema envelhecimento foi sempre muito debatido e com ele os estereótipos que tanto castigam essa fatia populacional e acarretam sérios prejuízos de ordem social e económica. As sociedades capitalistas, valorizadoras da produção e do consumo, infelizmente insistem em acreditar que o progresso só pode ser alcançado através da jovialidade e que os mais envelhecidos pouco ou nada têm a contribuir. Por outro lado existem evidências de que estas pessoas ricas em conhecimentos/experiencias de vida têm ainda muito a acrescentar. Baseado nesse pensamento destaca-se algumas questões que se associam:
Idadismo.
Muitos estudiosos na área tem criticado o uso de uma idade padrão para determinar ou descrever pessoas “mais velhas”. Acreditam que o facto pode ser considerado um factor discriminatório e contraproducente pois entendem que a idade cronológica não é, por si só, marcador para as mudanças que acompanham o envelhecimento e que faz com que uma pessoa seja ou não mais velha. Além disso, afirmam que mitos relacionados ao envelhecimento geram estereótipos que interferem negativamente nas pessoas, principalmente nas idosas, por resultarem em idadismo, que é nada mais do que uma forma de discriminação baseada na idade do indivíduo. A CIPE (4) define discriminação pela idade como sendo “ (…) prática de fazer distinções no tratamento; mostrar parcialidade ou preconceito com base na idade”.
Toda essa discussão leva-nos a pensar que as pessoas não envelhecem todas ao mesmo tempo e da mesma forma. Segundo a Direcção Geral de Saúde (5) existe uma grande diferença em envelhecer no feminino ou no masculino, sozinho ou no seio da família, casado, solteiro ou divorciado, com filhos ou sem filhos, no meio urbano ou no meio rural, no seu país ou no estrangeiro, activo ou inactivo. Já FONSECA (6) coloca que as pessoas independentemente da idade biológica apresentam outras idades como a psicológica e a sociocultural e que influenciam directamente na forma de estar na vida. A idade biológica refere-se ao funcionamento do organismo com base na condição biológica dos seus tecidos comparados com um determinado padrão; a idade psicológica prende-se a capacidade e adaptação ao meio de acordo com as mudanças que ocorrem; e por último a sociocultural que está ligada ao conjunto específico de papéis sociais que uma pessoa adopta frente a outras, a sociedade e até mesmo à sua cultura.
Tempo de vida / Qualidade de vida.
É certo que os avanços científicos e tecnológicos contribuíram para uma vida mais longa. Porém, esses progressos não foram capazes de afastar por completo as doenças crónicas degenerativas nem garantiram que o prolongamento do tempo de vida seja gozado com a qualidade desejada. Facto gerador de muita frustração principalmente por parte dos mais interessados, os idosos. Cientes disso, muitos pesquisadores se lançaram de imediato em um novo desafio: o de aliar o aumento da expectativa média de vida, uma real elevação da sua qualidade. PESSINI (7) em seu trabalho coloca que a longevidade sempre fez parte das aspirações das pessoas, e acrescenta “a humanidade quer mais quando questiona e busca outras respostas que se constituem em profundos desafios relacionados à longevidade”.
Conceituar qualidade de vida não é uma tarefa fácil, pois cada indivíduo tem a impressão de que já sabe o que esta quer dizer, ou quando não, sente o que ela exprime. A OMS (1) coloca qualidade de vida como “ (…) a percepção que o indivíduo tem da sua posição na vida, dentro do contexto de sua cultura e do sistema de valores de onde vive e em relação a seus objectivos, expectativas, padrões e preocupações”. É um conceito muito amplo que incorpora de uma maneira complexa a saúde física, nível de dependência, as relações sociais, as crenças e a relação com as características proeminentes no ambiente.
Para alguns pesquisadores, um envelhecimento com uma perspectiva positiva requer que seja garantido ao indivíduo a oportunidade de participação em questões de ordem social, política, cultural, espiritual que o mesmo tenha o direito de usufruir. Com isso assegura e respeita-se os valores universais de liberdade e igualdade e garante o direito à cidadania. CABRITA (8) reforça esse pensamento quando refere que é importante que o idoso continue a desenvolver actividades e participe activamente fazendo a sua parte em prol da família, da comunidade e do seu país.
As pessoas envelhecidas têm os mesmos direitos e devem tomar suas decisões.
O direito das pessoas não se modifica a medida que estas envelhecem. Os indivíduos com idades avançadas têm o mesmo direito de viver a vida com qualidade como qualquer outra. A sociedade contemporânea, vista por muitos como de consumo, costuma privilegiar os indivíduos mais jovens criando sobre os cidadãos, principalmente nos idosos, situações constrangedoras e geradoras de fracturas profundas nas relações sociais. Além disso, alimenta um modelo de beleza dominado por estereótipos que valorizam o símbolo da juventude de forma exagerada, desprestigiando e desafiando constantemente a forma possível de estar na vida. STANHOPE & LANCASTER (9) diz que “ (…) o envelhecimento é um processo normal que não é bem compreendido e, ao longo dos anos, têm surgido mitos a ele associados. Alguns dos mitos comuns implicam a percepção de que todos os idosos são débeis, senis, surdos, que não conseguem adaptar-se à mudança”.
A pressão dos estereótipos acerca da velhice faz com que o idoso sinta-se fragilizado e angustiado, observando-se uma diminuição acentuada na sua auto-estima e repercussões na sua autonomia. Com a auto-estima abalada este, na maioria das vezes, não encontra outra saída a não ser o isolamento, o que o torna ainda mais dependente, necessitando da família para manter o equilíbrio. A família com a intenção de amparar, proteger e cuidar acaba impedindo, muitas vezes, que o idoso tome suas próprias decisões a respeito de sua própria vida, afectando assim a sua liberdade.
Envelhecer não significa obrigatoriamente uma redução na capacidade de tomar decisões. Muito pelo contrário. GOLDIM (10) afirma que a autonomia do idoso deve ser preservada, suas convicções respeitadas e que é importante avaliar o grau de capacidade que a pessoa idosa tem para tomar suas decisões. A capacidade de decisão da pessoa se baseia em diversas habilidades, tais como: “envolver-se com o assunto, compreender ou avaliar as alternativas e fazer a comunicação da sua preferência”.
No passado os idosos ocupavam lugares de destaque e tinham um papel de prestígio devido a experiência acumulada durante os anos. Eram reconhecidos no seio familiar como elementos importantes, onde a sua opinião e a sua decisão era, na maioria das vezes, aceita e respeitada por todos. Hoje essa posição foi deixada um pouco para trás. Não é raro observar que muitos idosos são levados para lares, casas de repouso e outras instituições do tipo e acabam sendo “esquecidos”. Outros são deixados sozinhos em suas moradas onde recebem ocasionalmente uma visita ou outra de algum familiar ou amigo. Não se sabe ao certo o que é pior. Muitos familiares com o intuito de ajudar acabam cometendo alguns erros do tipo: modificam a arrumação do mobiliário, descaracterizando o ambiente que o idoso criou para si; inutiliza certos objectos com a justificativa de não serem mais úteis; controla seus gastos, fazendo com que o idoso perda o direito de gastar livremente o seu próprio dinheiro; entre outros. Tudo isso faz-nos pensar que o indivíduo possa vir a perder o prazer pelas coisas que, na grande parte das vezes, custaram muito à conquistar e gerar mais dependência e vulnerabilidade quando este se torna incapaz de modificar tal situação.
Factores que interferem na sexualidade
O processo de envelhecimento acompanha algumas mudanças fisiológicas, psicológicas e trás modificações nos papeis sociais independente da heterogeneidade do envelhecimento individual. Porém, todas essas mudanças não necessariamente afectam a vida sexual das pessoas, pois a maioria continua sendo capaz de usufruir experiências sexuais bastantes gratificantes. Todavia, observa-se que alguns factores acabam interferindo no interesse pela sexualidade:
* Doença - Interfere na expressão física da sexualidade. Doenças como diabetes e outras afecções que atingem o sistema vascular ou nervoso, o aparelho geniturinário ou o próprio efeito colateral de certos medicamentos afectam o desempenho sexual e reduzem o interesse pela sexualidade.
* Preconceitos socioculturais - A ideologia cultural marcada pelos estereótipos, principalmente nos países ocidentais, influenciam negativamente o processo de envelhecimento, fazendo com que o idoso se torne refém destes. Por se sentir pressionado pelas exigências adaptativas ele acaba por acreditar, de forma errada, na progressiva e generalizada incompetência assim como na impotência sexual.
* Auto-estima - A sociedade contemporânea tende a valorizar a juventude e desprezar de maneira cruel os idosos em termos de sua aptidão e atracção sexual. Muitos idosos, principalmente as mulheres, acabam por abandonar a ideia por acharem que perderam a sua feminilidade ou a capacidade de atrair e agradar. Algumas se voltam para as técnicas de rejuvenescimento na tentativa de se tornarem atraentes ou de negarem o próprio envelhecimento. Segundo MESSINA (11) essa atitude ilusória de se buscar uma juventude eterna gera o surgimento de uma nova configuração corporal, “ (…) que altera a imagem do sujeito velho, sua semelhança familiar, suas características herdadas, suas marcas vitais, numa busca por substituir um traço individual por um outro idealizado diferente do seu”.
* Conhecimento - A falta de conhecimento a respeito da sexualidade é outro problema. Os preconceitos e os estigmas a cerca do assunto fazem com que os idosos não procurem de forma aberta e honesta informações e orientações. Rodeados de tabus a cerca do assunto acabam deixando de lado a ideia desviando sua atenção para outras áreas. Vilaça Ramos diz que “ (…) a ignorância assenta em ideias feitas e até em constrangimentos psicológicos que fazem dele uma espécie de tabu” (12).
Sempre há tempo para envelhecer
Envelhecer não é algo que só acontece aos outros e sim uma experiência impar e altamente pessoal que afecta a todos os que vivem por tempo suficiente. Quando falamos do envelhecimento, nos referimos a um processo natural e universal que se inicia com o nascer biológico e a partir daí todos nos tornarmos envelhecidos. O curso natural da existência humana não se limita a uma sequência de factos e acontecimentos, nem tão pouco a uma juventude passada. Envelhecer é ter a oportunidade de se puxar pela memória e viajar através das lembranças, boas ou ruins, e reviver momentos significativos que se passaram no percurso da vida. Além de poder realizar tal façanha, por ter adquirido bagagem suficiente, mantém a responsabilidade de continuar a sua história de vida que se cruza normalmente com a de outras pessoas, independentemente da idade que estas apresentem. Logo o processo de envelhecimento não é algo estático nem tão pouco igualitário mais sim dinâmico, particular, intransferível com realidades próprias e diferenciadas.
O enfermeiro frente ao idoso
A capacidade da pessoa em se adaptar bem ao processo de envelhecimento requer estratégicas positivas para ultrapassar os obstáculos. Dos factores que podem vir a influenciar este processo destacam-se: o ambiente, a educação, os determinantes socioculturais, as condições de saúde a ideia individual de bem-estar. MORIN (13) coloca que não é preciso ressaltar a estrutura complexa do conhecimento sobre o envelhecimento, e diz “ (…) a questão envolve aspectos biopsicosociais da humanidade e de cada um. A sociedade autoriza vários saberes e diferentes disciplinas para tratar do assunto. Há um emaranhado de discursos sobre o assunto. Eles são, ao mesmo tempo, interdependentes – influenciam uns aos outros e independentes – influenciados por uma série de factores que fogem do controle humano”.
O enfermeiro deve incorporar novos conhecimentos para fazer frente aos desafios que o mundo contemporâneo exige. Para isso deve estar motivado e preparado, pois os novos horizontes da enfermagem exigem do profissional responsabilidade e compromisso com essa ciência em desenvolvimento. A busca por um envelhecimento saudável, além de ser um desafio, necessita ser encarado como uma oportunidade visto que a própria disciplina engloba o estudo da resposta humana aos processos de vida. Compreender do idoso como um ser único, envolvido em um contexto próprio, com sua percepção do mundo face as competências adquiridas durante os anos, são alguns pontos que devem ser considerados. Este profissional deve observar e respeitar as capacidades e potencialidades, reforçar aspectos positivos, estimular o auto-cuidado e a auto-estima, tendo em atenção aos factores de risco que normalmente estão sujeitos, identificando precocemente alterações patológicas de forma a intervir para a sua eliminação ou minimização. COLLIÉRE (14) sublinha que mudanças relativas ao envelhecimento requerem cuidados de estimulação e de manutenção das capacidades que a pessoa ainda possui, de modo a prevenir maiores limitações funcionais.
A família é considerada uma unidade onde sentimentos como amor, amizade, acolhimento e apoio são característicos. Isso faz com que a família seja vista como a primeira linha de suporte na prestação de cuidados, e que por isso, deve ser incluída em qualquer plano de acção. O enfermeiro tem procurado ir ao encontro das necessidades de saúde utilizando pilares sólidos e fundamentais da disciplina. A promoção de um envelhecimento activo, a adequação dos cuidados às necessidades específicas, a preocupação com a promoção e o desenvolvimento de ambientes estimuladores da autonomia e independência são questões normalmente abrangidas em seu plano de intervenção.
É comum observar, quando se fala de idosos, a tendência de abordar somente os aspectos negativos, esquecendo-se, na maioria das vezes, os positivos. O idoso tem que ser visto como um sinal de desenvolvimento e prosperidade, um motivo de orgulho para todos. Devemos aproveitar a experiência destas pessoas para encontrar saídas para os inúmeros problemas que a nossa sociedade se confronta. O idoso deve ser considerado um potencial agente de desenvolvimento social e económico, não só pelos anos que já viveu, mais pelo que ainda pode contribuir para transformar o nosso mundo em algo melhor e mais justo.
Para finalizar, envelhecimento é uma realidade neste início de século e tem que ser encarado como um avanço, uma oportunidade no campo social, cultural, económico e político. É um momento singular, pois é rico de experiências individuais que devem ser partilhadas com vistas ao desenvolvimento humano. É importante e necessário que os idosos não sejam mais vistos como um grupo carente e sem interesse social. Chegar aos sessenta e cinco ou oitenta e cinco anos, não significa que a pessoa esteja ultrapassada, que não tenha mais interesse por nada, que tenha que levar uma vida solitária, esquecida e afastada do vínculo social. Muito pelo contrário. A cidadania é adquirida no convívio entre as pessoas e por isso deve ser cultivada e desenvolvida. Logo a exclusão das pessoas mais envelhecidas tem que ser combatida. Ao idoso deve ser garantido as mesmas oportunidades das outras pessoas no que diz respeito aos direitos sociais, espaços de participação política e inserção social. Sendo o idoso parte da família os seus direitos básicos não devem ser diferenciados em relação aos outros membros, pois isso seria uma forma de discriminação produtora de isolamento. O enfermeiro além de repudiar qualquer tipo de acto discriminatório, deve se adequar a essa nova realidade e se preparar para responder as necessidades que essa fatia crescente de nossa sociedade irá exigir. Tem a responsabilidade de aprofundar conhecimentos que favoreça e estimule a auto-estima, o auto-cuidado, a auto-confiança e que garanta a manutenção da saúde e o melhor bem-estar possível, mesmo porque, as pessoas não ambicionam somente viver mais tempo; elas querem respostas para os desafios relacionados a longevidade.
Bibliografia
1 – Organização Mundial da Saúde - Declaração elaborada pelo Grupo de Trabalho da Qualidade de Vida: Organização Mundial de Saúde (2005) Disponível: www.ops.org.br/publicacl
2 - Organização Mundial de Saúde - Envelhecimento Activo: Uma Política de Saúde. 1ª Edição traduzida 2005. Disponível: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoe
3 - Instituto Nacional de Estatística – Projecções de População Residente - Portugal - 2008 – 2060. Disponível: http://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&x
4 - CIPE – Classificação Internacional para a Prática de Enfermagem Versão1.0, (2005) ISBN: 92-95040-36-8 (Traduzido pela Ordem dos Enfermeiros/2007).
5 - Direcção Geral de Saúde - Os mais velhos: relatório de actividades. Ministério da Saúde (1998) Disponível: http://www.dgs.pt/
6 - FONSECA, A. M.- O envelhecimento. Uma abordagem psicológica. Campos do Saber. Lisboa: Universidade Católica Editora (2004)
7 - PESSINI, LEO; et.al. – Os desafios da longevidade. Ano 2005. Disponível:
Https://www.scamilo.edu.br/index.php?pag=p
8 - CABRITA, M.J.S.N - O envelhecimento e os cuidados continuados. In Servir. - ISSN 0871-2370. - Vol. 52, nº 1 (Jan/Fev.2004), p. 11-18.
9 - STANHOPE, M. & LANCASTER, J - Enfermagem Comunitária: Promoção de Saúde de Grupos, Famílias e Indivíduos. Lusociência, Lisboa, 1999. ISBN 972-8383
10 - GOLDIM, J.R - Bioética, Relações Familiares e Envelhecimento. Ano 2004, Disponível: URL: http: // www.ufrgs.br/bioetica/velho.htm.
11 - MESSINA, M. - Dimensões do envelhecer na contemporaneidade. Segundo Encontro Mundial – Rio de Janeiro, 2003. Disponível:
http://www.estadosgerais.org/mundial_rj/d
12 - Cadernos de Bioética: Edição do Centro de Estudos de Bioética. Perspectivas da Bioética Humanização, Genética. Ano XI, nº 23, Agosto 2000
13 – MORIN, E. – Introdução ao Pensamento Complexo. Sulina 3ª ed. Porto Alegre. 2007 ISBN 9727713831
14 - COLLIÉRE, M.F. – Promover a Vida. Sindicato dos Enfermeiros Portugueses, Lisboa 1989.
15 - COLLIÉRE, M – Promover a Vida. Da prática das mulheres de virtude aos cuidados de enfermagem. Tradução do Francês Maria Abecasis. 5ª edição. Lisboa: Lidel, 1999. ISB N 272 96-0009-4.
16 - La 58ª Asamblea Mundial de la Salud - Promoción de un envejecimiento activo y saludable., mayo de 2005. Disponível: http://www.who.int/gb/ebwha/pdf_files/WH
17 - Ordem dos Enfermeiros – Envelhecimento Activo e Educação para a Saúde: uma prioridade. ISSN 1646-2629. 2005. Disponível: www.ordemenfermeiros.pt/index.print.php?p
18 - Cadernos de Bioética: Revista Portuguesa de Bioética. Famílias disfuncionais e a lei de protecção de crianças e jovens. Ano XVII, nº 40, Abril 2006
19 - Cadernos de Bioética: Edição do Centro de Estudos de Bioética. Cérebro e Liberdade - Comentários e Notícias. Ed. Coimbra, nº20, Setembro 1999
20 - Cadernos de Bioética: Edição do Centro de Estudos de Bioética. Identidade, Sexualidade, Clonagem. Ano XI, nº 22, Abril 2000.
Video inserido por Enfermagem Aberta.
Para quem não sabe, Pão de Deus é um “doce” ou melhor um “bolo” muito gostoso com coco ralado em cima. A maioria das pastelarias ou confeitarias vendem e não é muito caro. Todos podem comprar. Excepto…
Um casal foi a um supermercado fazer umas mini comprinhas devido estarem completamente no vermelho, isto é, com muito pouco dinheiro.
Chegando na loja escolheram somente os produtos essenciais como: batata, cebola, alho, …essas coisas e foram colocando dentro da cesta. Quando estavam se dirigindo para o caixa, passaram pelo sector Padaria e avistaram um grande e vistoso Pão de Deus.
Parecia muito fofinho, delicioso, maravilhoso…
Olharam um para o outro e com as bocas “cheias d água” começaram imediatamente a contar o pouco dinheiro que tinham e por final acabaram resolvendo levar o magnífico Pão de Deus.
No caminho de casa não falavam de outra coisa, tendo um deles até mesmo sugerido come-lo de imediato, porém o outro, alegando que seria melhor fazê-lo em casa sentado no sofá à ver uma boa TV, não concordou.
Ao chegarem à porta de casa depararam-se com um indivíduo deitado na entrada do prédio, devo dizer que é coisa rara por essas bandas, mesmo porque, a maioria por vergonha costuma se esconder. Muito magro, sujo, com uma sacola igual a que eles carregavam, porém cheia de roupas sujas, olhou para eles e em seguida abaixou a cabeça.
Frente aquela situação e com um jeito só deles, se dirigiram logo ao sujeito e perguntaram:
“ Senhor que fazes aí deitado?”
E o senhor respondeu:
“Eu estou à vossa espera.”
E lá se foi o Pão de Deus.
Agora se pergunta: E aí… o que eles ganharam com isso?
Isso realmente eu não sei. Eu só sei que ambos são muito felizes.
Apesar dessa história verídica parecer um tanto ridícula para muitos em comparação a várias outras, acaba por mostrar que embora vivamos em um mundo de ilusões, dificuldades e injustiças, parece que não custa muito ser um pouco feliz; seja repartindo um pouquinho com aqueles que nada têm ou de qualquer outra forma nem que seja à comer o seu Pão de Deus logo a saída do supermercado.
Observador desconhecido.
Algumas recomendações da ARSLVT (video).
Enf. Jorge Franco
A oportunidade e a necessidade do ser humano em conhecer lugares diferentes, os compromissos inesperados e urgentes, o trabalho, as viagens de estudo/pesquisa, visitas a familiares e amigos, entre outros muitos motivos levam com que milhares de pessoas se desloquem diária e rapidamente a várias partes deste planeta. O mundo parece que encolhe frente a capacidade de mobilidade das pessoas que é uma característica marcante da sociedade moderna. Contudo, observa-se que devido ao excesso de confiança ou por falta de conhecimento, muitas pessoas tendem observar somente as coisas boas e agradáveis que sonham vivenciar e realizar e esquecem ou descartam os possíveis riscos que podem estar associados.
Os países anfitriões costumam se preparar para receber os seus visitantes da melhor maneira possível e seguem diversas recomendações internacionais de acolhimento e segurança. Todavia, cada destino é marcado por oportunidades e vulnerabilidades o que exige de todos muita atenção e sobretudo prevenção. Estudar previamente o local para onde se quer ir, acredita-se ser uma maneira eficaz de evitar riscos e surpresas desnecessárias. Saber um pouco da cultura local (hábitos/costumes), alimentação e as condições higiénicas, o tipo de alojamento, a temperatura, humidade e o nível de poluição, as doenças mais comuns (endémicas/epidémicas), a qualidade dos serviços de saúde são alguns pontos de extrema importância para qualquer viajante. Muitas agências de viajem fornecem informações nessa matéria, porém, estas tornam-se, muitas vezes, insuficientes devido a sua complexidade. A OMS (1) destaca alguns factores importantes que podem não só determinar a probabilidade de exposição a muitos agentes infecciosos, como também influenciar sobre a necessidade ou não da realização de uma consulta em uma unidade especializada (consulta do viajante): destino da viajem, a sua finalidade e duração, a época escolhida, a conduta e o estilo do viajante.
Todos sabemos que a humanidade tem o seu passado marcado por diversas epidemias que assolaram diferentes países e dizimaram suas populações como é o caso das Pestes (Atenas, Siracusa, Antonina, Negra), Cólera, Varíola, entre outras (2). Mais recentemente observamos episódios de doenças emergentes como é o caso tuberculose resistente, infecções bacterianas agudas, infecções de veiculação hídrica, salmoneloses, entre outras para não falar das infecções víricas que continuam sendo um desafio para a comunidade científica mundial.
Como base nesse passado podemos afirmar que todos temos a responsabilidade de garantir não só à nossa saúde como também a de todos à nossa volta. A OMS (1) cita as responsabilidades de todo o viajante:
Muitas pessoas apresentam doenças pré existentes, normalmente crónicas, que requerem controlo permanente. Recomenda-se que estas pessoas procurarem ajuda para uma avaliação cuidadosa de seu estado de saúde e que solicitem o fornecimento de medicamentos em quantidade suficiente até o seu retorno. É bom lembrar, a importância de levar por escrito informações que evidenciem a patologia, o medicamento e a dose que normalmente consome e recomendações em caso de urgência. A OMS (1) cita algumas doenças, não excluindo outras, nas quais todas as pessoas devem procurar aconselhamento médico antes de viajar:
- Doenças cardiovasculares
- Hepatite crónica
- Doenças intestinais inflamatórias crónicas
- Doenças renais crónicas que requerem diálise
- Doenças respiratórias crónicas
- Diabetes Mellitus
- Epilepsia
- Anemia severa
- Transtornos mentais graves
Algumas vacinas são obrigatórias em alguns países e recomendáveis em outros. Países onde os riscos são significativos torna-se necessário obter um boletim médico onde conste, para além das orientações, as vacinas que foram administradas. A vacinação apesar de ser um procedimento eficaz, não garante protecção contra todos os riscos, mesmo porque, existem doenças nas quais ainda não existe protecção específica, o que reforça a permanente necessidade de medidas de precaução. Segundo a OMS (1) não existe um calendário único de imunização para todos os viajantes. Cada calendário deve ser personalizado e adaptado observando as imunizações anteriores, as características específicas da viajem e o contexto individual. Alerta para que todas as pessoas que apresentem no regresso febre, diarreia persistente, vómitos, transtornos urinários, problemas dermatológicos que procurem imediatamente uma unidade de saúde. Para os portadores de doenças crónicas, citadas anteriormente, esta visita torna-se obrigatória.
Em 2008 a OMS (1;8) disponibilizou uma relação de vacinas: 1) de uso comum na maioria dos países (especialmente em crianças); 2) de uso selectivo para os viajantes (aconselháveis para quem vai viajar para países endémicos) e 3) aquelas que são obrigatórias para a entrada nalguns países:
1) Uso comum:
Difteria; tétano; Tosse convulsa; Gripe; Haemophilus influenzae B; Hepatite B; Papilomavirus Humano; Anti-Pneumocócica; Poliomielite; Rotavirus; Sarampo; Papeira; Rubéola; Tuberculose; Varicela.
2) Uso selectivo para Viajantes:
Cólera
Actualmente não é exigida como condição de entrada em nenhum país. Contudo, os viajantes de alto risco como trabalhadores de ajuda humanitária entre outros devem receber a vacina ao se dirigirem para regiões endémicas.
Tipo: inactivada; Dose: duas, com intervalo de uma semana; Contra indicação: hipersensibilidade; Reacções adversas: transtornos digestivos leves ocasionais; Administração: três semanas antes da partida
Encefalite Japonesa
Principal causa de encefalite vírica na Ásia. Sua incidência tem aumentado em países como Bangladesh, Índia, Nepal, Paquistão, norte de Tailândia e Vietname. Diminuído no Japão e na península Coreana e em algumas regiões da China.
Tipo: inactivada; Dose: duas, com intervalo de quatro semanas; Contra indicação: hipersensibilidade; Reacções adversas: pode ocorrer reacção cutânea ou sistémica leve e ocasionalmente reacção grave com urticária generalizada, hipotensão e colapso; Administração: no mínimo duas doses antes da partida.
Meningocócica
Actualmente a Arábia Saudita exige a vacina tetravalente (A, C,Y,W-135) as pessoas que visitam Meca anualmente (Hajj) ou em qualquer período (Umrah).
Tipo: Inactivada; Dose: única; Duração da protecção: 3 a 5 anos; Contra indicação: reacção grave a dose anterior; Reacções adversas: reacções locais leves e nalguns casos febre ligeira; Indicação: 2 semanas antes da partida. Observações: obrigatória para os viajantes de Hajj. A vacina não protege crianças menores de 2 anos de idade.
Encefalite por carraças (carrapatos)
Só é recomendada para viajantes de alto risco como aqueles que viajam para zonas infestadas.
Tipo: inactiva; Dose: duas, com 4 a 12 semanas de intervalo e reforço 9 a 12 meses após a última dose; Contra indicação: Hipersensibilidade; Reacções adversas: locais e raramente febre; Administração: segunda dose duas semanas antes da partida.
Hepatite A
Viajantes que partem para zonas de risco moderado a alto e aquelas com alto risco de contrair a doença.
Tipo: Inactivada; Dose: duas, com intervalo de 6 a 24 meses; Contra indicação: hipersensibilidade a dose anterior; Reacção adversa: local ou sistémica leve.
Anti-Rábica
Viajantes que se dirigem para zonas de alto risco. Segundo a OMS calcula-se que 13% dos viajantes do Sudeste Asiático entram em contacto com animais locais.
Tipo: vacina moderna (em cultivo celular ou ovos embrionários); Doses: três; Reacções adversas: pequena reacção local ou sistémica.
Febre Tifóide
Risco elevado especialmente no subcontinente Indiano.
Tipo: Ty21a (oral) e Vi CPS (injectável); Dose: Uma de Vi CPS ou Três a quatro de Ty21a viva, com intervalo de 2 dias e reforço a cada 2 a 3 anos; Contra indicações: Uso de Proguanil, mefloquina e antibióticos 3 dias antes ou depois de começar a administração de Ty21a. Reacções adversas: nenhuma significativa. Indicação: 1 semanas antes da partida. Observações: A Vi CPS não é recomendada para crianças menores de 2 anos de idade.
3) Obrigatória:
Febre-amarela
Muitos países exigem o Certificado Internacional de Vacinação contra a Febre-amarela na travessia de suas fronteiras aos viajantes procedentes de países com risco de transmissão e em alguns casos até mesmo a todos os viajantes. Existem situações em que o trânsito interno (visitas a zonas endémicas) é recomendada a vacinação a qualquer pessoa independente de ser turista ou não. A validade do certificado Internacional inicia após o 10º dia da vacinação e tem duração de 10 anos. Os países de língua oficial portuguesa exigem a vacinação contra a febre-amarela aos visitantes procedentes de zonas de risco. Em Portugal, segundo a OMS, este requisito só se aplica as pessoas que visitam os Açores e a Madeira.
Tipo: Vírus vivos; Dose: única, com reforço a cada 10 anos; Contra indicação: Hipersensibilidade a dose anterior, alergia a proteína do ovo, indivíduos imunodeprimidos; Reacções adversas: raramente encefalite e problemas hepáticos; Observação: não administrar em crianças menores de 9 meses de idade.
Os países que actualmente exigem a todos os visitantes a vacina contra a Febre-amarela na passagem de suas fronteiras são: Angola, Benim, Burkina Faso, Burundi, Camarões, Congo, Costa do Marfim, Gabão, Gana, Guiana Francesa, Libéria, Mali, Niger, República Centro Africana, República Democrática do Congo, Ruanda, São Tomé e Príncipe, Serra Leoa e Togo.
É importante que se diga que para além desses países mencionados acima, existem outros onde o risco de transmissão é evidente em algumas áreas, apesar de não ser exigido a vacinação como condição de entrada: Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Etiópia, Gâmbia, Guiné Equatorial, Guiné-Bissau, Quénia, Mauritânia, Panamá, Paraguai, Peru, Senegal, Somália, Sudão, Suriname, Tanzânia, Trinidad e Tobago, Uganda, Venezuela.
Também é bom lembrar que para além destas doenças mencionadas existem muitas outras que infelizmente não existem vacinas para protecção. Estas podem ser transmitidas através dos alimentos, água insalubre, picada de insectos, contacto ou mordedura de animais, ar e solo contaminado, contacto com sangue infectado e através das relações sexuais inseguras. Algumas são conhecidas, outras nem tanto, o que faz com que todas as pessoas tenham que ter obrigatoriamente alguns cuidados. A OMS destaca algumas doenças que não existem vacinas específicas para protecção ou que estas encontram-se indisponíveis na maioria dos países: Dengue – Leptopisrose – Paludismo - Diarreia do viajante - Doença de Lyme (Borrelia burgdorferi) – Burcelose - Carbúnculo (Bacilo anthracis) - Chikungunya (vírus chikungunya) – Hantavírus - Esquistosomose (schistosoma mansoni, japonicum, haematobium) - Febres Hemorrágicas – Filariose – Giardíase - Hepatite C - Hepatite E - Legionolese (legionella) - Listeriose (listeria monocytogenes) – VIH entre outras.
Como vimos, a OMS segue vigiando a evolução das doenças infecciosas, alertando, compartilhando conhecimentos técnicos e articulando respostas necessárias com o intuito de proteger as populações. Em 2005 finalizou o novo Regulamento Sanitário Internacional (RSI) (3;7) que entrou em vigor em Junho de 2007. Este mais abrangente e eficaz acompanha melhor a evolução de todas as enfermidades e os factores que determinam a sua aparição e transmissão a nível mundial. Traz algumas novidades em relação ao RSI de 1969: a obrigatoriedade dos estados em notificar rapidamente a OMS qualquer emergência de Saúde Pública de importância internacional como: eventos de grande repercussão que exigem uma acção imediata; surtos de doença que tenham potencial epidémico independente de natureza, origem ou fonte; eventos incomuns ou imprevistos ou com elevada morbidade e mortalidade; eventos que possam causar restrições ao comércio ou tráfego de pessoas. O novo RSI refere também a obrigação dos estados em instalar um mínimo de capacidades básicas para detecção, avaliação e notificação de riscos em matérias de saúde pública; a autorização, pela OMS, do uso de outras fontes de informação, além das notificações oficiais dos países; melhor vigilância e controlo sanitário bem como melhoria de medidas aplicadas em portos, aeroportos e pontos fronteiriços; recomendação de medidas de saúde pública para o manejo de emergências internacionais. O Regulamento institui um comité de emergências para avaliar os evento e formular, modificar ou prorrogar recomendações rapidamente. Apresenta um comité de revisão, que presta assessoria na formulação de recomendações sobre emendas ao Regulamento e modificações de recomendações permanentes.
A OMS (4) estabelece sete estratégias de trabalho para orientar a aplicação do Regulamento Sanitário Internacional 2005:
1ª - Impulsionar as alianças mundiais que inclui ela própria, os países membros e todos os sectores pertinentes como a saúde, agricultura, transporte, comércio, educação e defesa.
2ª – Fortalecer os sistemas nacionais de vigilância, prevenção e controle.
3ª – Fortalecer a segurança sanitária global dos viajantes e transportes.
4ª – Fortalecer os sistemas mundiais de alerta e resposta da OMS.
5ª – Fortalecer a gestão de riscos específicos.
6ª – Proteger os direitos, obrigações e procedimentos.
7ª – Realizar estudos e vigiar e acompanhar os progressos realizados.
Actualmente o mundo vem sendo muito castigado pela Gripe A, tendo a OMS e parceiros respondido em ritmo acelerado e de forma eficaz. A própria agência coloca que o mundo está melhor preparado para enfrentar o desafio e que é imprescindível continuar aplicando as medidas necessárias no que tange a vigilância, diagnóstico, tratamento precoce e controle da infecção. Alerta para a possibilidade da pandemia vir afectar mais os países pobres, podendo originar elevadas taxas de mortalidade, o que mostra que a evolução da doença vem sendo seguida em tempo real (5).
Frente a tudo que foi referido, não é difícil de imaginar que o papel do enfermeiro neste contexto prende-se a prevenção e ao fortalecimento de comportamentos positivos de saúde que garantam o bem-estar dos indivíduos onde quer que estejam.
O enfermeiro observa com muita atenção as solicitações e recomendações da OMS. No terreno tem procurado orientar as famílias que pretendem viajar para as regiões consideradas de risco, referenciando-as as unidades especializadas (consulta do viajante). No que toca as pessoas portadoras de doenças crónicas que regressam do estrangeiro, estas tem sido avaliadas e encaminhadas de imediato aos seus médicos assistentes consoante as necessidades. Contudo, observa-se que muitos indivíduos/famílias não procuram a consulta do viajante, talvez pela não obrigatoriedade da apresentação de Certificado Internacional de Vacinação para a entrada em muitos países. Todavia, como já foi referido, muitos destinos escondem riscos potenciais, o que gera a urgência de programas educativos de proximidade que reforcem medidas de precaução e protecção tanto para as pessoas que se dirigem para países onde é obrigatória imunização específica, como para muitos outros. Acredita-se que a “saúde do viajante” deva ser uma matéria de domínio de todos os enfermeiros que actuam nas comunidades, principalmente aos que se especializam em Enfermagem Comunitária.
Ao pesquisar diversos sites que mencionam Cursos de Especialização em Saúde Comunitária, constatou-se que alguns não referem em seus planos de estudo uma cadeira específica nesta área. Acredita-se que a inclusão e o aprofundamento dessa temática contribua para que os enfermeiros possam melhor intervir de modo a minimizar os riscos e a importações de doenças, entendendo risco como o simples desconhecimento dos indivíduos. A Ordem dos Enfermeiros (6) é clara quando diz “os enfermeiros encontram-se numa posição única para identificar factores de risco, providenciar informação acerca do modo mais apropriado de gestão desses mesmos riscos e da divulgação dos benefícios da adopção de estilos de vida saudáveis e evitação de comportamentos de risco”.
Para finalizar, o alastramento vigoroso do vírus da gripe A, mostra a vulnerabilidade humana e põe em teste a nossa resistência e capacidade em ultrapassar obstáculos que muitas vezes são consequências da própria acção do homem. A devastação das florestas e a invasão do meio natural dos agentes; práticas de agricultura perversas ao ambiente; a concentração de “riquezas” que deslumbra o homem pouco informado e gera área urbanas super povoadas e bolsas de pobreza e doenças; a poluição atmosférica; as alterações climáticas; mudanças constantes de hábitos de vida e comportamentos, que facilitam a resistência dos microrganismos e dificulta o seu combate; o transporte irresponsável que facilita o rápido deslocamento de agentes e vectores causadores de doenças e o seu aparecimento em lugares nunca vistos são factores, entre muitos, que incomodam os mais conscientes. A contribuição do enfermeiro estende-se para além do tratamento das sequelas daí resultantes, pois tem em suas bases técnico-científicas instrumentos de mobilização e prevenção. Devido a abrangência e importância das questões relacionadas e a capacidade irrefreável de mobilidade das pessoas, torna-se imprescindível a intervenção fundamentada deste profissional, mesmo porque, questões que envolvem a educação/prevenção/protecção da saúde são de sua responsabilidade.
Bibliografia
1 - Organização Mundial de Saúde - Viajes Internacionales y Salud : situación en 1 de enero de 2008. Versão em espanhol. Disponível:
http://whqlibdoc.who.int/publications/20
2 - Rezende, Joffre. M - As Grandes Epidemias da História. Disponível: www4.ensp.fiocruz.br/biblioteca/dados/tx
3 – Organização Mundial de Saúde – Reglamento Sanitário Internacional 2005. Segunda Edición. Versão em espanhol. Disponível: http://www.who.int/ihr/es/index.html
4 - Organização Mundial de Saúde - Áreas de trabajo para su aplicación
http://www.who.int/ihr/AreasofworkES.pdf
5 - Organização Mundial de Saúde - Declaración de la Directora General de la OMS Gripe por A (H1N1). Abril de 2009. Disponível: http://www.who.int/mediacentre/news/stat
6 - Ordem dos Enfermeiros – Servir a Comunidade e Garantir Qualidade. Disponível:
http://www.ordemenfermeiros.pt/index.php?p
7 - Organização Pan-Americana da Saúde - Regulamento Sanitário Internacional – Informações básicas para órgãos normativos e Unidades Federadas. Disponível:
http://pfdc.pgr.mpf.gov.br/grupos-de-tra
8 - Organização Mundial de Saúde – Estadísticas Sanitarias Mundiales 2009. Versão em espanhol. Disponível:
http://www.who.int/whosis/whostat/ES_WHS
9 - Organização Mundial de Saúde - Guía de la Organización Mundial de la Salud para planificar la comunicación en caso de brotes epidémicos. Edición del 2008. Versão em espanhol. Disponível: http://whqlibdoc.who.int/publications/20
10- Jornal Oficial da União Europeia - DECISÃO DA COMISSÃO de 28 de Abril de 2008. Disponível: http://eur-lex.europa.eu/LexUriServ/LexU
11- Direcção Geral de Saúde - Programa Nacional de Vacinação 2006. Orientações Técnicas. Circular Normativa Nº 08/DT de 21/12/05. Disponível:
Enf. Jorge Franco
O trabalho faz parte da história da humanidade pois permite que o homem satisfaça suas necessidades, evolua, crie, transforme o meio e usufrua das consequências. Muitos estudiosos consideram-no instrumento gerador de felicidade e bem-estar, um operador indispensável na estruturação do próprio ser. MARX (1) aborda trabalho como sendo “ um processo em que ambos, o homem e a natureza, participam e no qual o homem, de sua livre vontade regula e controla as relações materiais entre si próprio e a natureza. Logo ao actuar no mundo externo e ao modifica-lo ele muda a sua própria natureza”.
O trabalho observado por vários ângulos e perspectivas, como a religiosa, psicológica, filosófica e económica mostra a busca permanente por uma sensação de liberdade, satisfação, uma oportunidade para realizações pessoais, um veículo para se obter uma melhor qualidade de vida. Logo a importância do equilíbrio dentre homem/trabalho/ambiente torna-se fundamental para qualquer conquista. Contudo, esse equilíbrio foi sempre muito perturbado por eventos resultantes de ambientes inapropriados, processos de trabalho desajustados, falta de organização, ausência de pensamento ecológico, ineficácia de medidas de combate aos acidentes e doenças decorrentes do local de trabalho e do processo produtivo. A enfermagem não fica atrás, pois é marcada desde o seu surgimento até os dias de hoje por acidentes e doenças profissionais. Na sua história, para além dos casos não registados, temos o de Florence Nightingale (FN) que no desempenho de suas funções durante a guerra da Criméria, contraiu uma febre que lhe minou as energias (2).
Muitos pesquisadores ligados a Enfermagem do Trabalho colhem vestígios dessa época na tentativa de associar FN a saúde ocupacional. Alguns consideram que o facto de a enfermeira ter cuidado dos soldados, considerados funcionários do Ministério da Guerra na época, e ter tratado de suas feridas, vistas como acidentes de trabalho, contribui para a associação.
Todavia, o surgimento da enfermagem do trabalho é algo ainda obscuro. Existem estudos que evidenciam a inglesa Phillipa Flowerday (1867) como sendo a primeira enfermeira do trabalho. Esta prestava atendimentos aos empregados, não só na fábrica onde trabalhava como também em suas residências. Outras enfermeiras também são consideradas pioneiras na área, como Elisabeth Parry (1858), Betty Moulder (1888) e Ada Mayo Stewat (1895). Os estudiosos acreditam que as lutas e conquistas dessas enfermeiras representam marcos históricos, pois promoveram o surgimento e desenvolvimento da especialidade ao cultivarem o interesse de outras em várias partes do mundo. Bulhões (3), descreve um pouco da evolução da Enfermagem do Trabalho no século passado em alguns países considerados desenvolvidos:
Austrália - Em 1976 foi criado a Associação de Enfermeiros de Saúde Ocupacional da Austrália que se integrou a Federação Australiana de Enfermagem. Abriram-se vários Cursos de Especialização garantindo o desenvolvimento da especialidade na época. Em 1980 o país já contava com 1500 enfermeiros do trabalho actuando em várias empresas.
Estados Unidos – Em 1942 foi fundado a American Association of Industrial Nurses (AAIN). Em 1968 já havia no país 19.500 enfermeiros que exerciam actividades na área da Enfermagem do Trabalho. Em meados de 1976, os enfermeiros já eram responsáveis pela gerência dos programas de saúde ocupacional na quase totalidade das empresas. Por possuírem formação especializada, eram capazes de desenvolver, implementar, avaliar e coordenar a distribuição de assistência à saúde. Aplicavam o processo de enfermagem congruente com as necessidades dos trabalhadores, participavam de programas de educação continuada e de formação, desenvolviam projectos de prevenção de doenças ocupacionais e acidentes de trabalho, tinham habilidades clínicas suficientes e um profundo conhecimento em ciências do comportamento, o que lhes permitiam realizar aconselhamento em saúde mental.
Finlândia - Em 1978 já actuavam no país cerca de 1343 enfermeiros do trabalho e desfrutavam de um grande prestígio devido a sua alta qualificação. Assumiam papel de gerência e desenvolviam diversas actividades como avaliação física e psicológica dos trabalhadores, programas de educação em saúde, assessoria na área segurança, cursos de primeiros socorros, confecção de relatórios, entre outras. Em 1980 a Associação Finlandesa de Enfermeiros do Trabalho já tinha 1200 membros inscritos.
França - O enfermeiro do trabalho têm presença obrigatória nos serviços de saúde ocupacional desde 1946. Em 1969 a legislação Francesa já obrigava as empresas com mais de 500 trabalhadores a terem em seu quadro um enfermeiro do trabalho a tempo inteiro.
Holanda - A Associação Holandesa de Enfermeiros do trabalho foi criada em 1946 e os primeiros cursos de saúde ocupacional surgiram em 1960. Em 1982, já existia cerca de 600 enfermeiros do trabalho que desenvolviam actividades no campo administrativo, assistencial e de ensino.
Reino Unido - Em 1934 eram realizados cursos para “enfermeiros da indústria”. Bulhões (50) refere que a partir de 1952 após reunião do Comité da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e Organização Mundial de Saúde (OMS) o curso tornou-se mais completo e se projectou, a partir de então, “ à enfermagem para a saúde dos trabalhadores”. A mesma autora cita Sleney que coloca que o curso “preocupou-se, desde o início, não apenas em preparar os enfermeiros para o novo campo de trabalho, mas, ao mesmo tempo, em garantir através desses cursos, um excelente padrão de assistência de enfermagem e assegurar a satisfação no trabalho nessa especialidade”.
Suécia - Desde 1980 que os enfermeiros de trabalho integram a equipe de saúde ocupacional e desenvolvem suas actividades em estreita relação com os engenheiros de segurança. A Associação de Enfermeiros do Trabalho da Suécia contabilizava 2000 enfermeiros inscritos nesta data. Os cursos de especialização formavam cerca 200 enfermeiros por ano.
BULHÕES (3), menciona também a ocorrência de um seminário sobre formação de Enfermeiros do Trabalho, realizada em 1969 pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) onde participaram a OMS, Associação Internacional de Saúde Ocupacional e o Conselho Internacional de Enfermagem. Nesse evento debateram-se as experiências vivenciadas na área por diversos países como: Brasil, Espanha, EUA, Finlândia, França, Grécia, Itália, Noruega, Reino Unido, Suécia e a antiga URSS.
Como podemos notar a Especialização na área Enfermagem do Trabalho é uma realidade, a muito tempo, em muitos países. Considerando que o estudo de Bulhões data de mais de vinte anos e que já foram realizadas diversas Conferências Internacionais desde então, podemos imaginar que muita coisa mudou, e para melhor. Além dos países mencionados, outros como Colômbia, Chile, Argentina, Cuba, Canada apresentam instituições de ensino que ministram cursos de Pós Graduação e/ou Mestrados e Doutoramentos na área. Logo podemos afirmar que a Enfermagem do Trabalho vem aprofundamento conhecimentos através do desenvolvimento de pesquisas que visam fundamentar teoricamente a prática profissional. RASTEIRO (4) com uma visão alargada de saúde coloca “a globalização da Enfermagem do Trabalho passa pela construção de pontes internacionais tais como parcerias e intercâmbios em educação/formação, em investigação, em partilha de experiências profissionais nos vários países”.
A Ordem dos Enfermeiros Portugueses (5) não menciona o curso de Especialização em Enfermagem do Trabalho na listagem de cursos de Pós Licenciatura de Especialização. Em uma página informativa em seu site informa “agora poderá consultar neste espaço as listagens completas de todos os Cursos de Pós Licenciatura de Especialização em Enfermagem que mereceram parecer positivo da Ordem dos Enfermeiros e já têm autorização de funcionamento” e cita: Comunitária; Saúde Infantil e Pediátrica; Médico Cirúrgica; Reabilitação; Saúde Materna e Obstétrica; Saúde Mental e Psiquiátrica. O que nos leva a pensar que ainda não estão criadas as condições necessárias para o surgimento da especialidade. RASTEIRO (4) diz “ vai ser frequente encontrar o Enfermeiro do Trabalho a exercer com enfermeiras/os de outros países ou mesmo continentes (União Europeia, Mercosul) ” e acrescenta “para isso acontecer é necessário que a formação em Enfermagem do Trabalho seja globalmente relevante”.
O II Congresso da Federação de Enfermeiras do Trabalho da União Europeia (6) realizado na cidade de Estrasburgo no ano de 2000, teve como tema central "Europeus: tornando a saúde e o bem-estar no trabalho uma verdadeira parceria". Neste, a enfermeira Janine Bigaignon-Fanchet-te coloca que “ a evolução do trabalho irá exigir dos profissionais de saúde ocupacional a competência necessária para enfrentar as mudanças”. Durante os debates enfatizou-se a necessidade dos Enfermeiros do Trabalho “adquirirem competência e as qualificações necessárias para que possam actuar com segurança no cenário futuro da saúde ocupacional”.
A OMS não deixa dúvidas quando refere “o Enfermeiro do Trabalho está, cada vez mais, a tornar-se um elemento chave na prática da Saúde no Trabalho; é o enfermeiro que, muitas vezes sozinho, assume a inteira responsabilidade pelo serviço de Saúde no Trabalho em alguns lugares.
Bulhões (3), é clara quando diz que a especialidade Enfermagem do Trabalho “é destinada ao cuidado daqueles que trabalham. Sua atenção volta-se para os trabalhadores de todas as categorias e de todos os sectores de ocupação, onde quer que se encontrem. Qualquer destinatário ou receptor desse cuidado profissional, que por acaso aí se acrescente, tais como: família, empresa, comunidade, serão incluídos por força da assistência que se destina e reserva, em primeiro lugar ao trabalhador. Se assim não for, de outra forma, teremos enfermagem em saúde pública, enfermagem em saúde da comunidade, enfermagem em saúde materno-infantil e, não enfermagem em saúde dos trabalhadores”. A American Association of Occupational Health Nurses (AAOHN) (7) define Enfermagem do Trabalho como “ prática especializada que providencia cuidados de saúde aos trabalhadores”. Enfatiza a promoção, protecção e recuperação da saúde dos trabalhadores dentro do contexto de um ambiente de trabalho. Coloca que “a prática da Enfermagem do Trabalho é autónoma e os enfermeiros do trabalho tomam decisões de enfermagem independentes em Serviços de Saúde no Trabalho estabelecidos – o fundamento para a enfermagem do trabalho é baseado na investigação com ênfase na optimização da saúde, na prevenção da doença e acidente e na redução dos riscos de saúde” (7).
Com base no referido conclui-se que a Enfermagem do Trabalho não pode ser absorvida por qualquer outra especialidade visto ser orientada por objectivos que têm como base as necessidades específicas dos trabalhadores com foco no trabalho e no ambiente de trabalho.
No que refere a Enfermagem do Trabalho a legislação Portuguesa - Lei n.º 7/95 de 29 de Março que foi alterada no ano de 2000 referia:
Artigo 23; Alínea 5: “O médico e o enfermeiro do trabalho exercem as suas funções com independência técnica e em estrita obediência aos princípios da deontologia profissional”. Alínea 6: “Considera-se enfermeiro do trabalho o enfermeiro com o curso de estudos superiores especializados de Enfermagem de Saúde Pública com formação específica no domínio de saúde no trabalho”. Alínea 7: “ No caso de insuficiência comprovada de enfermeiros do trabalho qualificados, nos termos referidos no número anterior, poderão ser autorizados pela Direcção-Geral da Saúde a exercer as respectivas funções enfermeiros com o grau de bacharel, os quais, no prazo de cinco anos a contar da respectiva autorização, deverão apresentar o diploma de estudos superiores especializados previsto no número anterior, sob pena de lhes ser vedada a continuação do exercício das referidas funções.
Cinco anos mais tarde, o Decreto-Lei nº 109/2000 de 30 de Junho de 2000 DR 149 - SÉRIE I-A que alterou a Lei anterior refere:
Artigo 16º; Alínea 6: “Nas empresas cujo número de trabalhadores seja superior a 250, no mesmo estabelecimento, ou estabelecimentos situados na mesma localidade ou localidades próximas, o médico do trabalho, na realização dos exames de saúde, deve ser coadjuvado por um profissional de enfermagem com experiência adequada.
Em Fevereiro de 2001, no documento “Conselho Económico e Social – Comissão Permanente de Concertação Social”, página 16 (item 2), o termo “Enfermeiro do Trabalho” volta a aparecer, porém, por pouco tempo pois a Lei nº 35/2004 de 29 de Julho no Artigo 246 torna surgir a expressão “ (…) coadjuvado por um profissional de enfermagem com experiência adequada”.
Ao pesquisar sites de enfermagem constata-se que muitos enfermeiros não compreendem essas diferenças.
Em um trabalho apresentado no III Congresso de Enfermagem do Trabalho (8) realizado em São Paulo/Brasil em 2008, é referido “a Associação Nacional dos Enfermeiros do Trabalho Portugueses (ANET), reajustou a definição de Enfermeiro do Trabalho e propôs, através da Ordem dos Enfermeiros de Portugal, que o âmbito de acção e o estatuto destes profissionais se encontrem claramente delimitados e regulados através de diplomas legais, ao contrário do que acontece actualmente”.
O Plano de Acção Mundial sobre a Saúde dos Trabalhadores 2008-2017 (9) estabelece um marco normativo que permite a implementação de medidas para proteger, promover e melhorar a saúde de todos os trabalhadores. Realça que todos os trabalhadores devem usufruir de condições favoráveis a saúde, que proporcionem o mais alto nível de bem-estar físico e psicológico nos ambientes de trabalho. É claro quando coloca que os trabalhadores representam a metade da população mundial, apesar de somente uma pequena minoria desfrutar de serviços ocupacionais, e são os maiores colaboradores para o desenvolvimento económico e social. Salienta a importância de se estar atento para os aspectos positivos e negativos proveniente da mobilização cada vez maior de pessoas, produtos e tecnologia. Alerta para a necessidade de todos os componentes dos sistemas de saúde estarem preparados para dar as respostas adequadas aos problemas dos trabalhadores. Destaca cinco objectivos que devem ser perseguidos:
1 - Elaborar e aplicar instrumentos coerentes a saúde dos trabalhadores.
2 - Proteger e promover a saúde no local de trabalho.
3 - Melhorar o funcionamento dos serviços de saúde ocupacional.
4 - Proporcionar dados para fundamentar as actividades e as práticas.
5 - Integrar a saúde dos trabalhadores a outras políticas.
Juan Somavia, directora geral da OIT, afirmou recentemente que o trabalho em condições inseguras “é uma autêntica tragédia humana” e alertou “a segurança e a saúde no trabalho constitui um direito humano e ambos são parte integrante do programa de desenvolvimento centrado nas pessoas” (10).
Ao nível europeu a comunicação da Comissão ao Parlamento Europeu, ao Conselho, ao Comité Económico e Social Europeu e ao Comité das Regiões (11) propõe uma nova estratégia intitulada “Melhorar a Qualidade e a Produtividade do Trabalho, estratégia comunitária para a saúde e a segurança no trabalho 2007-2012” concretizada no Parlamento Europeu em Janeiro de 2008. O documento analisa as estratégias anteriores e sinaliza os aspectos positivos e os que ainda precisam melhorar. Propõe a criação de um quadro normativo moderno e eficaz para se atingir um objectivo ambicioso - reduzir em 25% da taxa total de incidência de acidentes no trabalho na UE-27 até 2012. Destaca a necessidade de reforçar a protecção da saúde e a segurança dos trabalhadores, enquanto factor determinante para o êxito da estratégia de crescimento e emprego. Cita um conjunto de medidas fundamentais para atingir o objectivo:
I. Garantir e apoiar a correcta aplicação da legislação.
Destaca em conjunto de instrumentos que garantam o respeito pela legislação: Divulgação de boas práticas a nível local; Formação dos empresários e dos trabalhadores; Desenvolvimento de instrumentos simples para facilitar a avaliação de riscos; Divulgação, em linguagem simples, de informações e orientações de fácil compreensão e execução; Difusão mais eficaz das informações e melhor acesso a serviços de aconselhamento; Acesso a serviços externos de prevenção de alta qualidade e a preços acessíveis; Envolvimento dos inspectores do trabalho como intermediários para promover um melhor cumprimento da legislação.
II. Adaptar o quadro normativo à evolução do mundo do trabalho e favorecer o desenvolvimento e a execução de estratégias nacionais.
Acompanhamento de sectores que apresentem resultados pouco satisfatórios em matéria de redução de acidentes e doenças profissionais.
III. Incentivar as mudanças de comportamento dos trabalhadores e encorajar os empregadores a adoptarem abordagens favoráveis à saúde.
Desenvolvimento de programas de educação e formação para os trabalhadores garantindo os conhecimentos necessários para que desempenhem suas actividades com segurança. Adopção de medidas para promover a reabilitação e reinserção dos trabalhadores.
IV. Definir os métodos para a identificação e a avaliação de novos riscos potenciais.
Realça a investigação como arma para melhor combater riscos e agravos a saúde dos trabalhadores. Destaca as questões psicossociais e uma série de afecções que necessitam serem melhor investigadas. Coloca que actualmente os problemas associados a saúde mental representam a quarta causa mais frequente de afastamento do trabalho.
V. Melhorar o acompanhamento dos progressos realizados.
Criar instrumentos de acompanhamento adequados para que o objectivo seja seguramente alcançado.
VI. Promover a saúde e segurança a nível internacional.
Em Portugal a resolução do Conselho de Ministros nº 59/2008 de 1 de Abril aprovou a Estratégia Nacional para a Segurança e Saúde no Trabalho para o horizonte temporal 2008-2012 (12). Destaca objectivos operativos e acções a desenvolver alicerçados em dois eixos fundamentais de desenvolvimento:
1- Desenvolvimento de políticas públicas coerentes e eficazes, resultado da articulação entre os vários departamentos da Administração Pública e que funcionem como motor de mobilização da sociedade em torno de uma questão social e económica fundamental para a coesão social e que diz respeito à sociedade no seu todo.
2- Promoção da segurança e saúde nos locais de trabalho, como pressuposto de uma melhoria efectiva das condições de trabalho.
Objectivos:
a) Desenvolver e consolidar uma cultura de prevenção entendida e assimilada pela sociedade.
b) Aperfeiçoar os sistemas de informação no domínio da segurança e saúde no trabalho.
c) Incluir, nos sistemas de educação e investigação, abordagens no âmbito da segurança e saúde no trabalho.
d) Dinamizar o Sistema Nacional de Prevenção de Riscos Profissionais;
e) Melhorar a coordenação dos serviços públicos que exercem competências no domínio da segurança e saúde no trabalho.
f) Concretizar, aperfeiçoar e simplificar normas específicas de segurança e saúde no trabalho.
g) Implementar o modelo orgânico da Autoridade para as Condições de Trabalho (ACT).
No âmbito do desenvolvimento da prevenção de riscos laborais:
h) Promover a aplicação efectiva da legislação de segurança e saúde no trabalho, em especial nas pequenas empresas.
i) Melhorar a qualidade da prestação dos serviços de segurança e saúde no trabalho e incrementar as competências dos respectivos intervenientes.
j) Aprofundar o papel dos parceiros sociais e implicar empregadores e trabalhadores na melhoria das condições de trabalho nas empresas.
Enfermagem do Trabalho é uma especialidade que esta em plena ascensão em diversos países do mundo, pois reúne um conjunto de conhecimentos, fundamentações e práticas voltadas para valorização do trabalhador. Busca a protecção, prevenção e manutenção da saúde, reabilitação funcional e reinserção laboral. Prepara o enfermeiro para desenvolver acções na área da organização e administração dos serviços ocupacionais de saúde (gerência de serviços); vigilância à saúde; assistência de campo, onde os eventos específicos acontecem e se manifestam, no ambulatório e/ou em situações de emergência; cria condições para o aperfeiçoamento e implementação de planos e programas de educação/promoção em saúde e de prevenção de agravos aos trabalhadores, observando, para além das capacidades psicofisiológicas do ser humano, os aspectos socioculturais e ambientais; possibilita o planeamento e execução de projectos baseados em dados oriundos da investigação dos enfermeiros.
A especialização faculta também uma visão alargada da saúde e permite uma melhor compreensão das relações entre o trabalho e o processo saúde/doença. Proporciona o fortalecimento do trabalho multiprofissional, valoriza o espaço multidisciplinar e combate a fragmentação de intervenções que nada ou pouco ajudam. Promove o envolvimento dos trabalhadores nas questões da saúde e segurança, através de ferramentas que estimulam o conhecimento e comportamentos laborais seguros. Fornece aos enfermeiros subsídios para melhor planejar, propor e executar acções integradas através de mecanismos interdisciplinares e contribui para um maior entendimento de conceitos como cuidado/pessoa/saúde/ambiente de forma a adaptar o trabalho ao homem e vice e versa.
Para finalizar, as preocupações e as necessidades sentidas em matéria de saúde e segurança no trabalho decorrentes das estratégias citadas, reforça a necessidade de se ampliar a contribuição dos enfermeiros na produção de conhecimentos na área da saúde do trabalhador. Essa produção de conhecimentos científicos esta intimamente ligada a existência e ao reconhecimento de cursos de especialização e mestrados na área, como também ao incentivo que deve ser dado a investigação em todos os níveis, inclusive nos doutoramentos.
Bibliografia
1 – MARX, Karl; Engels, Friederich – O capital, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira. 1990
2 – História da Enfermagem – Período Florence Nightingale. Disponível: http://www.ellusaude.com.br/enfermagem/h
3 – BULHÕES, Ivone – Enfermagem do Trabalho. Rio de Janeiro, IDEAS, Vol 2, 1976-1986. CDD 610.7346 B 933.
4 - RASTEIRO, Margarida Plantier - O Impacto de Globalização sob Ótica da Enfermagem do Trabalho. I CONGRESSO INTERNACIONAL DE ENFERMAGEM DO TRABALHO. Disponível: http://www.anent.org.br/congressos/I_con
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Enf. Jorge Franco
As novas tecnologias de informação e comunicação vieram facilitar a socialização de conhecimentos, pois permitiu a redução de distâncias entre os povos e proporcionou uma maior interacção entre as diferentes realidades sociais e o intercâmbio cultural. Porém, essa partilha de saberes e informação se torna, algumas vezes, inapropriada pela inexistência de mecanismos eficazes que valorizem a realidade, o que gera distorções na empregabilidade frente ao contexto. No caso da saúde isso pode ser demonstrado se considerarmos duas pessoas com o mesmo diagnóstico de saúde, que apesar disso, vão sempre necessitar de intervenções diferenciadas, isto é, personalizadas, pois deve ser respeitado as suas circunstâncias e os seus contextos de vida. Logo a afirmação de que cada pessoa é um ser único, particular, envolvido em sua própria teia de pensamentos, sentimentos, experiências, percepções e ambientes, é verdadeira. O que nos leva a pensar que as respostas devem ser diferentes face as características de cada um e ao momento em que se vive.
A educação em saúde contemporânea assume desse entendimento pois procura compartilhar possibilidades e potenciais com os indivíduos respeitando o seu direito de escolha e observando a sua realidade. O que se traduz em um processo responsável, debatido, atencioso que assenta e fundamenta-se em uma “ (…) educação multicultural, ética, libertadora e transformadora (…) (1) ”, que vai ao encontro aos fenómenos que afligem as pessoas, pois tenta promover, através da reflexão crítica, o melhor bem-estar possível tendo em conta o contexto e percepção de saúde de cada indivíduo.
Durante muito tempo, a saúde foi abordada em uma lógica sanitarista fundamentada em um modelo biológico centrado na queixa/doença onde acções preventivas e curativas predominavam e acabavam por se transformar em indicadores de medida. O indivíduo era dividido em partes e só era observado a parte afectada ou a sintomatologia que se associava a uma determinada doença. A educação para saúde seguia a mesma linha, pois se prendia na transmissão de informações ou recomendações baseadas no poder técnico não respeitando a individualidade, a dimensão social nem tão pouco os determinantes culturais. O indivíduo não era envolvido no processo educativo, tendo que se conformar com o papel de “objecto”, apesar de se tratar de sua própria vida.
Actualmente ainda encontramos pessoas que insistem em seguir a mesma ideologia individualista, que exclui o indivíduo e desvaloriza a influência dos factores sociais e do ambiente na determinação e estruturação dos problemas de saúde. Estas ainda acreditam que todos os indivíduos vivenciam os mesmos componentes estruturais e que por isso, apresentam as mesmas capacidades para alterar os tão famosos “comportamentos insalubres”, bastando para isso que adquiram as informações necessárias. Consideram que os comportamentos “não saudáveis” são os principais responsáveis pelo surgimento de doenças, e acham, que combatendo-os simplesmente, resolverão o problema. Rice e Candeias, citados por PEREIRA (2), colocam que “muitos profissionais de saúde, erradamente, acreditam que o papel da educação para a saúde limita-se apenas à reprodução de conhecimento técnico e julgam que apenas com este enfoque poderá mudar o comportamento dos indivíduos e alterar suas práticas tradicionais de saúde”, o que de facto, já se sabe, não ocorre.
Baseado no que foi referido e considerando a multidimensionalidade dos factores que influenciam a saúde dos indivíduos, acredita-se que para o fortalecimento de um conceito positivo de saúde é necessário uma educação em saúde que inclua os indivíduos, promova a reflexão, estimule a procura das causas e analise as suas implicações com o intuito de encontrar maneiras de enfrentar os problemas.
Com tal argumentação podemos afirmar que o técnico de saúde deixa de ser o centro das atenções e passa a ser o facilitador frente ao indivíduo que “pensava-se que sabia pouco” sobre o assunto, apesar de ter sido sempre o protagonista de todo o evento.
O enfermeiro tem procurado adequar suas práticas de acordo com as rápidas transformações sociais. Tem trilhado caminhos em busca de processos de ensino e aprendizagem contextualizados, isto é, baseados em uma prática educativa integrada à dinâmica do dia-a-dia das pessoas, na tentativa de alargar horizontes, promover o intercâmbio de saberes e facultar mecanismos eficazes de crescimento não só para os indivíduos, como para si próprio.
Contudo observa-se, em alguns casos, que o acesso a muitos problemas que afligem os indivíduos tem sido dificultado pela supremacia exagerada do poder/conhecimento técnico frente ao saber popular/experiência de vida. Muitas vezes as pessoas deixam de colocar as suas dúvidas, ideias e conceitos sobre determinados assuntos de saúde, até porque, já sabem que vão ser desconsiderados e contestados e que o suposto “dono da razão” não vai conseguir fornecer respostas aceitáveis para resolução de seus problemas. É importante acabar com essa estranheza e promover um trabalho verdadeiramente de parceria. Para que isso aconteça é preciso que alguns profissionais aceitem o papel de facilitador no processo educativo que pode ser iniciado com o simples “desfardamento técnico” frente a nudez pura e simples de muitos. Em outras palavras, é necessário que o profissional tenha a percepção da sua insuficiência frente a actual produção social da própria doença. Devido a isso, entende-se que o discurso tecnicista, por vezes rígido, deva ser substituído por outro que promova uma maior interacção de ideias (diálogo) e o aprimoramento de conceitos.
Apoiado nesse pensamento considera-se ser necessário um modelo pedagógico que propicie a oportunidade de fazer com que o indivíduo busque, dentro de sua realidade, alternativas favoráveis as mudanças necessárias. Um instrumento simples, prático, que valorize a realidade dos indivíduos, (…) suas vivencias e experiências, seus saberes e conhecimentos objectivando o desenvolvimento cognitivo, reflexivo, crítico e autónomo (…) (3), a fim de proporcionar uma educação para a saúde assentada e fundamentada na praxis e inserida numa política de confiança e respeito mútuo, entre os dois actores.
A educação em saúde/promoção da saúde por apresentar diferentes “roupagens”, o que indica a sua adaptabilidade a diversos projectos na sociedade, faz com que o enfermeiro, por ter em seu alcance diversas teorias que utiliza constantemente, seja um dos profissionais de saúde mais bem preparados nesse campo.
Diversos pesquisadores de enfermagem tem utilizando o Modelo Pedagógico da Problematização no diálogo do cuidar e educar em enfermagem. Devido a sua flexibilidade permite ao enfermeiro utilizar suas teorias que são indispensáveis no processo de cuidar. Este modelo foi criado por Paulo Freire, que, apesar de não ser um enfermeiro, muito tem contribuido para o desenvolvimento da profissão. MIRANDA (1) refere que “ (…) o pensamento de Freire tem colaborado de forma significativa na construção de uma educação reflexiva na enfermagem, incorporando uma educação crítica e problematizadora, tendo como leitmotiv o diálogo com seus educandos (…) ”.
A Teoria da Problematização contrapõe o ensino tradicional e propõe um ensino diferenciado, pois problematiza a realidade e busca de soluções, possibilitando o desenvolvimento do raciocínio crítico. Esta teoria encontra “ (…) muitos dos pressupostos de sua prática nas correntes filosóficas fenomenológicas e existencialistas” (4). Logo apresenta uma natureza transformadora, “ (…) na medida em que problematiza o conhecimento adquirido, confrontando-o com a realidade, de modo a verificar como esses conhecimentos podem contribuir para explicar, interpretar ou modificar o mundo que nos cerca, encontrando novas aplicações em todos os sectores da vida social” (4;7).
Paulo Freire mostra uma educação voltada para uma sociedade que “ (…) ouve, pensa, fala, sente, se comporta de formas diferentes”. Evidencia uma educação “emancipadora, dialogada, continuada, sem arrogância e predomínio do educador, defendendo a articulação do saber, conhecimento, experiências de vida, comunidade, meio ambiente, traduzindo-se um trabalho colectivo”. Propõe a possibilidade de uma pedagogia fundamentada na prática, “inserida numa política de esperança, de amor e de fé no ser humano”.
Tem sido usado o esquema intitulado Método do Arco, para ajudar a explicar a Metodologia da Problematização como um “processo que privilegia a troca de conhecimentos, de saberes e de experiências entre os educandos e o educador, considerando que ambos apresentam uma história individual – e colectiva – e um contexto social compartilhado” (2).
O Metodologia da Problematização apresenta cinco etapas:
1ª – Observação da Realidade – Caracteriza-se por uma observação cuidadosa dos problemas colocados pelo indivíduo, procurando identificar factores relacionados que possam estar subjacentes. Nesta fase é feita uma reflexão crítica junto com o sujeito acerca dos problemas levantados para posterior problematização. SCHAURICH (2) “ (…) acrescenta que é neste momento que se torna oportuno aos educandos e ao educador lançar um olhar atento e crítico ao vivido, percebê-lo de forma diferenciada e identificar aquilo que está se mostrando como preocupante e inconsistente (…) ”.
2ª - Ponto-chave - Momento de síntese e de definição dos problemas fundamentais que serão aprofundados junto do indivíduo. É importante questionar quais as possíveis causas; os possíveis determinantes contextuais; os componentes e seus desdobramentos. Para SANTOS (5) esse momento é importante para seleccionar pontos essenciais que deverão ser estudados sobre o problema, para compreendê-lo mais profundamente e encontrar formas de interferir na realidade para solucioná-lo ou desencadear passos nessa direcção.
3ª – Teorização – Após os problemas serem identificados o enfermeiro nesta fase analisa-os de vários ângulos devendo utilizar de teorias de enfermagem disponíveis para o problema, a fim de fundamentar as futuras e possíveis propostas para a resolução dos problemas. SCHAURICH (2) refere que esta fase possibilita um ampliar de horizontes teóricos, um aprofundar de conhecimentos acerca do problema.
4ª – Formulação de Hipóteses de Solução – É o momento de encontrar alternativas para a elaboração de propostas para a resolução dos problemas tendo em conta a realidade do indivíduo. Nesta fase incentivasse uma maior participação do indivíduo, visto que, na maioria das vezes, é ele que será responsável pela implementação das acções futuras. Para SCHAURICH (2) esta fase “tem como premissa a criatividade inerente ao indivíduo como ser inacabado. Este olhar/agir criativo e reflexivo propicia aos educandos e educador uma percepção do problema, de sua génese, de seu entorno e repercussões individuais e colectivas; precisa estar presente para possibilitar um outro pensar e agir, uma superação dos conhecimentos, acções e atitudes já existentes e construir novos saberes e acções a fim de viabilizar mudanças sociais".
5ª Aplicação na Realidade Prática – Esta etapa se resume na acção que deve ser executada ou encaminhada na prática. BERBEL (6) refere que as hipóteses são construídas como resultado do estudo e da compreensão pormenorizada dos problemas.
Para finalizar, é importante frisar que o método descrito facilita o processo educar/cuidar em enfermagem. Proporciona uma dinâmica de trabalho firmada nos interesses dos sujeitos. A sua simplicidade, operacionalidade e o seu carácter horizontal facilita a utilização da “maquinaria” teórica da disciplina na busca de respostas positivas para os problemas saúde que tanto afligem as pessoas.
Bibliografia
3 – SCHAURICH, Diego; (et.al) – Metodologia da Problematização no Ensino em Enfermagem: uma reflexão do vivido no PROFAE/RS. Escola Anna Nery R Enferm 2007 Jun. 11 (2): 318 - 24. Consulta 2009-04-20 Disponível: http://www.portalbvsenf.eerp.usp.br/pdf/e
4 – GUEDES, Bianca Nunes; Maria Iracema Tabosa da SilvaI, Cesar Cavalcanti da SilvaII - A metodologia da problematização na Escola de Posturas da UFPB: um processo emancipatório na prática da educação gerontológica. Revista Electrónica de Enfermagem, v. 09, n. 02, p. 298 - 314, 2007. Disponível: http://www.fen.ufg.br/revista/v9/n2/v9n2
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6 - BERBEL. Neusi Aparecida Navas - A Problematização e a Aprendizagem Baseada em Problemas: diferentes termos ou diferentes caminhos? Revista Comunicação, Educação, Saúde, São Paulo, v. 2, n.2, p. 139-154, 1998.
7- RODRIGUES, Juliana; (et.al) - Alternativas para a Prática Docente no Ensino Superior de Enfermagem. Escola Anna Nery. Jun. 2007. Consulta 2009-04-20 Disponível: http://www.portalbvsenf.eerp.usp.br/pdf/e
8 – Gadotti, Moacir – Contribuição de Paulo Freire ao Pensamento Pedagógico Mundial. CÁTEDRA PAULO FREIRE. Universidade Nacional da Costa Rica. Abril de 200. Disponível: http://www.paulofreire.org/twiki/pub/Ins
9 - CORREIA, Cristina; (et. al.) - Os enfermeiros em cuidados de saúde primários. Revista Portuguesa de Saúde Pública. 2001. Consulta 2009-05-25 Disponível: http://www.ensp.unl.pt/dispositivos-de-a
10- Organização Mundial de Saúde (OMS) – Cuidados de Saúde Primários Agora Mais que Nunca. Relatório Mundial de Saúde 2008. Consulta 2009-04-24 Disponível: http://www.who.int/whr/2008/whr08_pr.pdf
Resumo
Este artigo procedente de uma revisão bibliográfica evidencia o cuidador familiar como o principal responsável pelo cuidado ao nível domiciliário. Traça o seu perfil e aborda os principais motivos que normalmente fazem com que uma pessoa assuma tal papel. Descreve sentimentos e necessidades experimentados consoante os estudos realizados. Finalmente faz uma análise do sistema formal de saúde e conclui com algumas recomendações.
Palavras-chave: Cuidador familiar; invisibilidade; descrição.
Resumen
Este artículo procedente de una estudio bibliográfico revela al cuidador familiar como siendo el principal responsable del cuidado a nivel domiciliario. Hace una identificación del cuidador y describe los principales motivos que normalmente hacen que una persona asuma tal papes. Describe sentimientos y necesidades vivenciadas por los cuidadores familiares de acuerdo con estudios realizados. Finalmente, hace un análisis del sistema formal de salud y concluye con algunas sugerencias.
Palabra-clave: Cuidador familiar; invisibilidad; descrisón.
Introdução
Uma das principais características deste início de século é o envelhecimento da população, fruto de um aumento significativo da esperança de vida. Esse facto torna-se relevante na medida que causa um aumento da demanda social e económica devida esta população necessitar de uma maior atenção por parte não só das autoridades de saúde, como também de suas famílias.
A ONU estima para os próximos 20 anos, um aumento de 300% nas necessidades em cuidados de saúde da população idosa. Paralelamente a isso espera-se um aumento acentuado da prevalência de doenças não transmissíveis e de evolução prolongada que deverão reclamar por políticas de saúde que prestigiem mais apoios à assistência domiciliária.
Actualmente, devido a sobrecarga do sistema de saúde, observa-se uma tendência para se diminuir ao máximo possível o tempo de permanência dos indivíduos nas unidades de saúde e para transferir muitos cuidados, que dantes eram tidos como hospitalares, para os serviços de apoio a comunidade e com isso para as famílias. COLLIÉRÈ (1999), refere que a família é o eixo dos cuidados “ (…) que detém em si próprio um valor terapêutico”. Por ser uma unidade viva, é nesta que se encontra o maior número de cuidadores informais, destacando-se as mulheres, pois desenvolvem este ofício desde o início da humanidade.
A insistência por um modelo biomédico centrado na doença, deixa de lado aquele que mais assiste ao doente “o cuidador”, pois não permite que o seu trabalho tenha a visibilidade merecida e todo o apoio necessário. Cabe a Enfermagem, à responsabilidade pelo aprimoramento e desenvolvimento de acções que sejam verdadeiramente centradas na família, tendo em conta o seu contexto.
Tendo o cuidador familiar como o principal responsável pela assistência ao nível domiciliário, este trabalho traça o seu perfil, descreve sentimentos, dificuldades, necessidades e recomenda algumas acções que devem ser realizadas pelo sistema formal de saúde.
Perfil e os motivos que levam a ser um cuidador
Os cuidadores familiares desempenham um papel crucial, pois assumem a responsabilidade em cuidar do familiar. A maioria são do sexo feminino, normalmente esposas, filhas ou filhos que desempenham o papel preponderante no resgate do cuidar. Apresentam geralmente nível educacional baixo e se situam em faixas etárias próximas das pessoas que cuidam, o que explica o facto de grande parte desses cuidadores ser os cônjuges.
Quando fala-se de cuidador familiar, faz-se referência a uma pessoa adulta, que realiza e proporciona as actividades de vida diária, procurando minorar ou até mesmo suprir o deficit de auto cuidado da pessoa que cuida.
Os motivos que levam com que o familiar seja o cuidador principal são na generalidade: a disponibilidade de tempo para o fazer, o sentimento de obrigação e de dever e a solidariedade. CALDAS (1995), coloca que os factores que influenciam o familiar a assumir a responsabilidade do cuidar são: a influência histórica, os imperativos culturais e os preceitos religiosos.
É comum verificar que muitas pessoas aceitam, de forma súbita e inesperada, o papel de cuidador sem que para isso tenham se preparado adequadamente ou pensado seriamente no assunto. Estas pessoas, em um acto impulsivo, assumem ou sem perceber vão arcando com pequenos cuidados e quando se dão conta já estão completamente envolvidas e comprometidas com a situação. FERNANDES (2002), relata que na maioria das vezes a pessoa assume um papel que lhe é imposto pelas circunstâncias e não por escolha própria, apesar de reconhecer que esta missão naturalmente seja sua.
Sentimentos / Dificuldades
O planeamento de alta é extremamente importante e deve ser aplicado a todos os cuidadores. Porém, infelizmente observa-se situações em que este instrumento é mal aplicado ou simplesmente inexiste, o que gera dificuldades e sentimentos de incerteza. CONNEL e BAKER (2004), colocam que muitos cuidadores acabam por experimentar um elevado grau de incerteza quanto ao próprio planeamento dos cuidados e que por isso, utilizam algumas estratégias de coping na tentativa de ultrapassar os obstáculos. No que refere as estratégias citam: 1) manutenção de uma atitude positiva; 2) adaptação à mudança; 3) comparação com os outros; 4) mudanças no trabalho; 5) o humor; 6) o suporte de familiares e amigos próximos. Já RODRIGUES; et al., (1999), em um estudo com cuidadores familiares de idosos com sequelas de AVC, identificou uma diversidade de sentimentos experimentados pelos cuidadores no decorrer do processo de cuidar como o carinho, amor, indignação pela situação, o prazer, a pena, a tristeza entre outros.
O cuidador familiar tende a valorizar em primeiro lugar as necessidades da pessoa que cuida, deixando para um segundo plano as suas próprias necessidades. Muitas vezes, após assumir a responsabilidade do cuidar, experimentam dificuldades/necessidades como: a pouca ou nenhuma informação a cerca da doença, dúvidas quanto a prestação de cuidados, falta de recursos e de apoio económico além das relacionadas ao suporte emocional.
O planeamento de alta permite ao familiar obter informações importantes durante o processo de hospitalização, facilitando a planificação do regresso a casa e o processo de transição. Porém, o enfermeiro deve ter atenção alguns pontos como DRISCOLL, A (2000), coloca bem: 1º) a percepção da informação por parte do cuidador; 2º) a suficiência dessa informação; 3º) a devida utilização dessa informação. Quanto ao primeiro ponto é importante a realização de um planeamento adequado a cada situação específica e de acordo com as necessidades sentidas. No que diz respeito ao segundo, é imprescindível que os cuidadores recebam informação suficiente para que se diminua a ansiedade e a probabilidade de complicações domiciliares. E finalmente quanto a utilização da informação, que esta gere cuidados domiciliares mais eficazes e que contribua para redução do número de readmissões e do tempo de permanência dos doentes ao nível hospitalar.
Um outro ponto a ter em conta é a sobrecarga que o cuidador vive devido aos factores geradores de stress e ansiedade. Esta sobrecarga pode estar ligada a uma dimensão objectiva como é o caso dos acontecimentos e actividades concretas como a dependência económica, mudança na sua rotina, a falta de tempo para si mesmo, entre outros ou a uma dimensão subjectiva que inclui os sentimentos de culpa, de vergonha, baixa auto-estima e a preocupação excessiva com o familiar doente.
O cuidador que se dedica ao cuidar de uma pessoa totalmente dependente sem qualquer tipo de apoio formal, tende a vir a sofrer desgastes físicos e emocionais consideráveis, provenientes da sobrecarga imposta principalmente quando o doente assistido apresenta além de incapacidade física algum deficit cognitivo. MAROTE; et al (2005), dá exemplos de alguns sinais de desgaste físico referenciados pelos cuidadores: lombalgias, cansaço físico, hipertensão arterial, anorexia, cefaleias, entre outras. Refere também a ocorrência de alterações no sistema imunológico para além de problemas como fadiga crónica, alterações cardiovasculares, depressão e ansiedade em níveis superiores aos da população em geral.
Sistema Formal / Informal
A procura por parte do cuidador as unidades de saúde ocorre, em muitos casos, em momentos de extremo sofrimento. Os técnicos de saúde devem estar atentos e procurar investigar a possibilidade da relação entre os motivos desta procura e o possível desgaste físico e mental proveniente do processo de cuidar. Contudo, na maioria das vezes, o modelo biomédico aplicado impede que seja detectado a verdadeira razão dessa procura e o seu real estado de saúde, pois se limita simplesmente ao tratamento sintomático do problema.
A ineficácia dos programas públicos de saúde de atenção ao domicílio não só trás graves prejuízos a todo o sistema como também a grande massa de cuidadores.MONIS; et al., (2005), relata que o cuidado formal de saúde prestado no domicílio “não é mais de que a ponta do iceberg no qual o sistema informal constitui um verdadeiro sistema invisível de cuidados de saúde.”
O enfermeiro deve observar a família como uma unidade, um grupo e não como uma simples soma de pessoas. Deve entender que qualquer alteração em um de seus membros pode repercutir no funcionamento do grupo como um todo. Durante a visita domiciliar deverá estar atento não só ao doente como também ao seu cuidador, ambos inseridos em um contexto próprio e envolvido em relações sociais e afectivas. CRESPO e LOPEZ (2007), ressaltam que é importante que os profissionais, inclusive o enfermeiro, desenvolvam e incentivem vários tipos de intervenções com a finalidade de salvaguardar a integridade física e emocional dos cuidadores e citam: 1º) apoios formais mediante serviços comunitários de alívio; 2º) programas psicoeducativos; 3º) formação de grupos de ajuda mútua; 4º) intervenções psicoterapeutas; 5º) combinações das anteriores. Já PERA (2000), sugere outras medidas que também devem ser incentivadas: 1ª) proporcionar formação adequada dos cuidadores objectivando a melhoria dos cuidados prestados, prevenção de lesões e redução do stress; 2ª) fornecer informação sobre técnicas de planeamento com a finalidade de gerir melhor o tempo: 3ª) identificação, diagnóstico e tratamento imediatos de problemas por parte dos profissionais; 4ª) proporcionar opções de escolha (sistemas de apoio) para que em momentos de dificuldade o cuidador possa recorrer e buscar a ajuda necessária e sem demora.
É importante adequar a aplicação de qualquer programa as necessidades das pessoas. Uma das estratégias é a de envolver as famílias nos cuidados prestados ao nível hospitalar, numa tentativa de capacita-las para a futura transferência do doente para o domicílio, facto já observado em muitas unidades de saúde. Porém, não deixa de ser imprescindível mais investimentos em políticas de intervenção comunitária onde os profissionais possam desenvolver planos de saúde de interesse das famílias, onde o conjunto de acções não foquem somente a pessoa dependente mais também o seu cuidador.
Conclusão
O cuidador familiar representa a base do cuidar no domicílio, pois apesar da pouca visibilidade é ele que assegura a grande parte da assistência a esse nível. Estudos mostram que a grande maioria tem nível educacional baixo, são do sexo feminino e não recebem qualquer tipo de remuneração pelo que fazem. Os motivos que levam as pessoas a serem cuidadores familiares são o sentimento de obrigação e solidariedade, os factores históricos e culturais e o simples facto de não existir uma outra opção.
Existe uma tendência cada vez maior para se transferir o cuidar para o domicílio responsabilizando assim as famílias. Verifica-se que, em muitas ocasiões, essa transferência não é acompanhada com a devida avaliação quanto as condições dos familiares para que o recebimento do doente dependente seja feito sem qualquer tipo de risco. Alguns estudos destacam a importância das unidades hospitalares e outras à nível comunitário se organizarem no sentido de planear melhor a transferência do doente para o domicílio e para o desenvolvimento de programas de formação para cuidadores em diversas áreas.
Dentre as estratégias sugeridas verificou-se: a criação de um serviço comunitário de alívio, onde o cuidador possa fazer pausas de descanso sempre que necessitar; o fornecimento de formação e informação suficiente aos familiares, maior investimento em políticas de intervenção comunitária que garantam a integridade física e psicológica dos cuidadores.
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Enf. Jorge Franco
Artigo “Enfermagem Avançada”: um sentido para o desenvolvimento da profissão e da disciplina. Autor: Abel Braga, Doutor em Ciências de Enfermagem pelo ICBAS – Universidade do Porto, publicado na revista Servir nº 55 Jan./Fev. 2007 (p. 11 a 19), sobre o sentido de direcção para o desenvolvimento da profissão e da disciplina de Enfermagem.
Resumo e Crítica da Obra
A importância do tema, a simplicidade, frontalidade e o domínio com que o autor aborda questões fundamentais referentes a enfermagem, influenciaram na escolha deste artigo.
A obra permite ao leitor fazer uma reflexão de suas práticas, pois leva-o a que se pergunte: O que estou fazendo? Como? Baseado em quê? O que quero? Para onde estou indo?
Propõe-se com este trabalho evidenciar e analisar os pontos mais relevantes, procurando, de forma simples, contribuir positivamente.
O artigo apresenta-se dividido em quatro partes, além da introdutória, expostas de forma organizada e rica em bibliografia de qualidade, o que leva o autor a justificar e evoluir o seu pensamento de forma segura.
Pretende-se ir directo a primeira parte, visto que a introdutória coloca de forma sintética o que será abordado. O autor refere que o ser humano sempre se preocupou em cuidar do seu semelhante nos momentos de sofrimento e diz “assume-se no entanto relativamente à enfermagem”. Entende-se que o doutor abre um espaço para que se pergunte: Quando surge a enfermagem, visto ser alusiva ao cuidado humano. COLLIERE (1) afirma que “ a prática dos cuidados é, sem dúvida, a mais velha prática da história do mundo”. Baseado na linguagem popular, visto que esta acaba se tornando objecto de estudo de muitos pesquisadores, o ditado “cada um tem um pouco de médico”, devido erradamente se auto-diagnosticar e se auto-medicar muitas vezes, têm-se aqui a pretensão de dizer que antes disso já tinha “um pouco de enfermeiro”. Isso para tentar defender ou fortalecer a ideia de que o cuidado humano surge da própria essência do ser, isto é, da procura, muitas vezes instintiva, de promover o seu próprio desenvolvimento. VIEIRA (2) coloca que “os seres humanos sempre precisaram de cuidados (…) ” e acrescenta “ a história dos cuidados aos que padecem é a história da enfermagem” fazendo uma clara distinção entre o tempo dessa história e a época da profissão organizada quando refere " enquanto profissão organizada , a enfermagem remonta do século XIX, mas o seu passado ainda hoje influencia o presente dos cuidados (...)".
Diz que Florence Nightingale é responsável pela prática profissional moderna e reproduz as palavras da enfermeira “ (…) toda a mulher é enfermeira”. O que nos faz pensar no pouco interesse do sexo masculino para o exercício da profissão, promovendo-se assim uma enfermagem centrada na mulher como o próprio autor coloca “ Vemos aqui a enfermagem centrada na mulher dedicada ao cuidado”.
Analisando o que foi referido percebe-se que já se passaram mais de um século e a enfermagem contínua a ser uma profissão predominantemente feminina, fruto da repercussão de um modelo sociocultural histórico que deve ser ultrapassado. Segundo o Instituto Nacional de Estatística Português (3), no ano de 2000 estavam escritas na Ordem dos Enfermeiros 37.487 pessoas sendo que 82% eram do sexo feminino. Esses dados confirmam que a profissão ainda não conseguiu atrair significativamente o sexo masculino, o que gera a necessidade de se estudar profundamente o fenómeno.
Realça marcos importantes para a Enfermagem portuguesa tanto ao nível do ensino como do ponto de vista do enquadramento legal do exercício da profissão como: a proibição do exercício a quem não possuísse diploma na década de 40; O REPE em 1996; A criação da ordem dos Enfermeiros em 1998; A integração do ensino de Enfermagem no sistema educativo nacional a nível do ensino superior politécnico; A licenciatura em 1999; o surgimento dos mestrados e o primeiro doutoramento em enfermagem no ano de 2001. Destaca também as intervenções interdependentes e autónomas do enfermeiro.
É interessante observar que o autor cita datas não com o propósito puramente ilustrativo, mas sim com o intuito de mostrar ao leitor que a enfermagem evoluiu de forma positiva e que é importante que os enfermeiros estejam bem organizados no futuro para enfrentar novos desafios.
Na segunda parte cita as Escolas de Pensamento de Enfermagem dando destaque para a Escola do cuidar. Utiliza a definição de enfermagem de Meleis & Trangenstein o que lhe permite fazer a coligação: Enfermagem/cuidar/transição/desenvolvime
Considera, baseando-se em bibliografia apropriada, que apesar da evolução da enfermagem, a qualidade dos cuidados que hoje vivenciamos ainda tem como foco a gestão de sinais e sintomas, desvalorizando o modelo curativo (lógica executiva/Paradigma biomédico) e reforçando uma lógica conceptual com utilização de conhecimentos da disciplina à partir da utilização de teorias da enfermagem e da própria investigação dos enfermeiros. Facto que é unânime na opinião de vários autores, porém não desvanece a ideia de que tanto as teorias como a investigação na área não foram suficientes, até ao momento, para sensibilizar grande parte do grupo profissional. Segundo Oliveira, Lopes e Araújo (4) “ apesar de toda evolução da ciência e, consequentemente, da enfermagem, ainda hoje, percebemos uma certa dificuldade por parte de alguns enfermeiros em trabalhar com teorias, seja no âmbito da assistência, ensino ou pesquisa”.
Na tentativa de reforçar esse pensamento tomemos como exemplo os académicos de enfermagem. Estes necessitam realizar estágios no campo prático, não só para o seu desenvolvimento profissional como também pessoal. Apesar das instituições de ensino transmitirem uma visão conceptual da enfermagem, os estudantes são defrontados com o paradigma biomédico da prática, tendo que o aceitar devido ser a própria realidade. Essa desarticulação entre a teoria e a prática e a aceitabilidade total ou parcial do aluno a situação exposta, faz com que se inicie um “ciclo vicioso”, pois permite que no futuro, o aluno agora profissional, aceite mais facilmente o modelo em uso. Tudo isso faz-nos pensar em um processo moroso e pouco resolutivo a curto e médio prazo, com pouca resposta aos anseios do autor. PIRES (5) aponta um estudo que mostra que os enfermeiros na prática não estão totalmente preparados para receber os estudantes e que estes “ deparam-se com um fosso entre a teoria e a prática (…) ”.
A terceira parte observa a necessidade de mudança na natureza dos cuidados de saúde frente a uma população cada vez mais envelhecida, onde as doenças crónicas assumem importância capital. Diz que as intervenções de enfermagem devem ser centradas em um modelo conceptual, visto que o paradigma biomédico não é capaz de dar as respostas necessárias.
Chama a atenção ao leitor enfermeiro, dando alguns exemplos onde a intervenção de enfermagem deve ser urgente, apelando de forma extremamente positiva para o direito dessas pessoas em terem acesso a cuidados de enfermagem de qualidade, isto é, dirigido as suas reais necessidades de saúde, visto comprometer a qualidade de vida e acarretar graves prejuízos.
No desenvolvimento de seu raciocínio introduz temáticas como o Auto Cuidado; a Adesão do Regime Terapêutico; a Transição; o Prestador de Cuidados que são sustentadas por teorias de enfermagem e que devem ser desenvolvidas e valorizadas pelo enfermeiro.
Contudo, se observamos a sequência: “saúde – doença/comprometimento – melhor bem-estar possível”, podemos notar que o autor tem como ponto de partida a doença/comprometimento baseando-se em necessidades de intervenção actuais. Apesar de focar necessidades emergências, não subvalorizando outras, é importante sublinhar a importância em se trabalhar a partir da saúde, reforçando o papel do enfermeiro na promoção da saúde e prevenção da doença, mesmo porque, muitas dessas doenças chamadas “crónicas” podem ser evitadas. Com o intuito de solidificar esse pensamento temos FERREIRA (6) que coloca “ (…) infelizmente, as próprias políticas de saúde, neste país aparentemente desenvolvido, têm-se centrado quase só nos tratamentos e pouco tem sido investido na saúde como um bem a promover”. Dando sequência a essa reflexão podemos considerar também urgente e fundamental que este profissional aproveite o conceito alargado de saúde e invista em novas linhas de actuação e descubra novos caminhos. Como agente promotor do desenvolvimento humano e por isso crítico e reflexivo com competência técnica/científica/ética/política/social/e
A última parte o autor coloca algumas questões bastante polémicas, indaga-as e por fim põe claramente a sua posição.
Diz que em muitos países tem-se observado uma preocupação com os custos da saúde e que devido a isso alguns países como os EUA elaboraram um conceito chamado “Advanced Nursing Practice” que engloba dois tipos de enfermeiros: os “Clinical Nurse Specialists” que são aqueles, que na sua maioria, têm o grau de Mestre e os “Nurse Pratitioners”. O primeiro surge essencialmente no âmbito das unidades médico-cirúrgicas, não actuam junto aos indivíduos e se restringem ao ensino e a gestão da qualidade. Já os Nurse Practitioners actuam em sua maioria no contexto comunitário, no domínio da prática. Estes últimos possuem formação avançada em fisiopatologia e farmacologia, o que faz com que estejam preparados para prescrever medicamentos e solicitar exames laboratoriais entre outras atribuições. Seguem assim um modelo biomédico, pouco resolutivo na opinião do autor, apesar de se observar esforços para conservar a essência da enfermagem.
Coloca claramente que esse não é o caminho a seguir e cita o caso dos países nórdicos.
Estimula o leitor a fazer uma reflexão sobre os conceitos “Prática Avançada”, que usa os procedimentos da medicina e “Enfermagem Avançada” que se baseia em conhecimentos próprios da enfermagem. A seguir reafirma a sua posição de que a enfermagem avançada é a melhor opção a seguir. Diz que os cuidados de saúde exigem um esforço multiprofissional, um espaço multidisciplinar e que a perspectiva unidisciplinar não responde a complexidade que os problemas de saúde exigem.
A reflexão suscitada faz com que se perceba que nenhuma profissão deve estar acoplada ao momento político ou económico que se vive, visto ser muito variável (hoje pensa-se de um jeito, amanhã de outro). Porém não ofusca o pensamento de que deva aproveitar as ocasiões ditas “satisfatórias” para se desenvolver, visando sempre o bem-estar dos seus membros e daqueles que estes assistem; deva procurar dar respostas aos anseios e solicitações da sociedade que, na maioria das vezes, se apresentam através de necessidades.
Como é sabido, o enfermeiro é hoje um dos profissionais de saúde mais cobiçados a nível mundial. A própria OMS (7) realça o papel deste profissional na “prevenção, identificação de necessidades, no planeamento, execução e avaliação de cuidados, com o intuito de ajudar as pessoas, famílias e grupos a determinar e a realizar o seu potencial físico, mental e social, nos contextos em que vivem e trabalham”. Baseado nesse entendimento podemos considerar que o facto de prescrever medicamentos, solicitar exames ou outros atributos, deva ser visto como um simples detalhe frente a responsabilidade que lhe foi atribuída. Contudo, não deixa de ser relevante imaginar que na formação deste técnico, seja ela de base (licenciatura) ou posterior (especializações/mestrados), seja apontada e reforçada claramente a linha a ser seguida. Nos doutoramentos e cursos superiores seja incutido a responsabilidade da produção de conhecimentos e criação de estratégias para o melhoramento da própria disciplina enfermagem.
Para finalizar, a preocupação do autor é valiosa, mas é preciso sensibilizar os profissionais de enfermagem. Observa-se que muitos enfermeiros encontram-se desmotivados, cansados, carentes de algo novo e transformador. Em uma carta “convidativa”, publicada por uma organização não governamental, (8) um enfermeiro expõe seus sentimentos que talvez venha expressar o de muitos. Palavras como: desconforto, dúvidas, falta de oportunidades, receios entre outras, devem ser consideradas e reflectidas; mesmo porque, possivelmente o sentimento deste enfermeiro seja fruto de um modelo inapropriado seguido, ou talvez seja a falta de “algo novo”, que o faça realmente acreditar.
Bibliografia
1 - COLLIÉRE, M – Promover a Vida. Da prática das mulheres de virtude aos cuidados de enfermagem. Tradução do Francês Maria Abecasis. 5ª ed. Lisboa: Lidel, 1999. ISBN 272 96-0009-4.
2 – VEIRA, Margarida – Ser Enfermeiro: Da Compaixão à Proficiência. Lisboa: ed. Universidade Católica Portuguesa, Lda. 2007 (pág 11,12) ISBN 978-972-54-0146-0
3 - Instituto Nacional de Estatística - Portal de Estatísticas Oficiais. Disponível:
4 - OLIVEIRA, T.C; LOPES, M.V.O; ARAUJO, T.L – Modo Fisiológico da Teoria de Roy: Análise Reflexiva Segundo Melleis. 57º Congresso de Enfermagem. Nov. 2005. Brasil. Disponível: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoe
5 – PIRES, Regina Maria; (et.al.) – Supervisão clínica de alunos de enfermagem. Revista Sinais Vitais. Nº 54 Maio 2004. ISSN: 0872-0844.
6 - FERREIRA, António Cardoso – Pensar Saúde. Revista Aprender ao Longo da Vida. Nº 7; Edição Maio 2005.
7 - Ordem dos Enfermeiros – Tempo de Mudança. Revista da ordem dos Enfermeiros. Nº 22. Julho 2006. (p. 29 a 31) ISSN 1646-2629.
8 - Médicos do Mundo – Desabafo de um Enfermeiro. ONG de Ajuda Humanitária. Portugal. Disponível: http://www.medicosdomundo.pt/index.jsp?p
9 - Ordem dos Enfermeiros – Um novo modelo de desenvolvimento profissional. Certificações de Competências e Individualização de Especialidades em Enfermagem. Suplemento de Revista. Nº26. Junho 2007. (p. 9 a 20). ISSN 1646-2629
Esquecidos...
ASSIM NÃO DÁ! ASSIM NÃO VAMOS LÁ...
Enf. Jorge Franco
A actual crise mundial que vivenciamos esta sendo marcada pela globalização, que se traduz em uma maior interligação e interdependência entre os povos, tornando mais facilmente evidente suas fraquezas e vulnerabilidades frente a mudanças. O Instituto de Apoio ao Desenvolvimento afirma que o mundo globalizado é caracterizado pela crescente interdependência e que os fenómenos resultantes afectam “toda a ordem internacional”. (1)
Esse momento de instabilidade que se atravessa assinala a ganância daqueles que sempre deram prioridade a concentração de riquezas e ao consumismo despropositado, que são alicerçados por modelos desenvolvimentistas ameaçadores não só do ambiente, mais principalmente da dignidade humana. Estes modelos tendem a excluir a solidariedade, pois fomentam a diferença, criam desemprego, elevam o nível de pobreza tornando-a verdadeiramente extrema principalmente entre populações menos favorecidas, gerando o aumento da desesperança e a exclusão social. A própria OMS (2) já se manifestou recentemente e alertou para a importância de se estar vigilante para o aumento do desemprego, possíveis falhas nas redes de protecção social e diminuição dos gastos em saúde. No que pode vir a se traduzir em um possível retrocesso no já escasso financiamento directo aos programas internacionais de saúde pública para os países que mais precisam. Todo este mal-estar prolificado traz inevitavelmente consequências desastrosas a vários sectores da sociedade, incluindo o da saúde, devido a sua sensibilidade, representatividade e complexidade que o seu conceito alargado observa.
A Organização Pan-americana de Saúde afirma que as implicações de longo prazo da globalização se estendem muito além da economia e da liberalização e eliminação das barreiras comerciais. “A globalização é um propulsor crítico, complexo e incerto das transformações económicas, políticas, ambientais, sociais, culturais, tecnológicas e cognitivas, mudando a vida, o trabalho e o lazer e provocando tensões que afectam a sociedade de maneira fundamental” (3).
Apesar de alguns autores afirmarem que a globalização teve seu auge a partir da segunda guerra mundial, o termo só se popularizou em meados dos anos 80 e rapidamente passou a ser associado a aspectos financeiros (4).
A definição de saúde proposta pela OMS (9), situação de perfeito bem-estar físico, mental e social, apesar de estar sendo muito criticada por considerarem um conceito utópico e ultrapassado, parece que vem de encontro com que se pretende, que é sinalizar e alertar para possíveis alterações neste domínio. Em reunião consultiva realizada em Genebra sobre a crise que enfrentamos, a OMS (2) chama atenção para o possível aumento das doenças mentais, ansiedade, consumo de tabaco, álcool e outras substâncias nocivas que são características de momentos difíceis.
Na qualidade de autoridade directiva e coordenadora de acções sanitárias no mundo, a OMS vem trabalhando incansavelmente de maneira a alertar e sensibilizar os povos para o combate as injustiças e para os possíveis desencontros com a saúde.
Em 1977, a 30ª Assembleia Mundial da Saúde constatou que a visão “Saúde para Todos no Ano 2000” era uma importante meta social para os governos, organizações internacionais e comunidades. Em 1978, a Conferência de Alma-Ata (8) adoptou os Cuidados Primários de Saúde (CPS) como estratégia chave a implementar em todos os países do mundo, para melhorar o nível de saúde das populações e alcançar a meta. Porém, muitos países não foram capazes de atingir os objectivos estabelecidos, o que levou a realização da Cimeira do Milénio no ano de 2000. Esta reuniu vários dirigentes mundiais que firmaram compromissos para um mundo mais próspero, equitativo e estável. Temas como o desenvolvimento sustentável, direitos humanos, a igualdade de género e o carácter multidimensional e transversal da pobreza, do ambiente e da saúde integraram os debates. Ao final do encontro todos os 189 estados membros das Nações Unidas, inclusive Portugal, se comprometeram em atingir até o ano 2015 os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM), que servem como guias para o desenvolvimento sustentável e o combate a pobreza. Dentre estes objectivos estão: 1) erradicar a pobreza extrema e a fome; 2) atingir o ensino primário universal; 3) promover a igualdade de género e a capacitação das mulheres, 4) reduzir a mortalidade infantil; 5) melhorar a saúde materna; 6) combater o HIV/SIDA, a malária e outras doenças; 7) garantir a sustentabilidade ambiental; 8) criar uma parceria global para o desenvolvimento (1).
É importante observar que muitos dos ODM estão ligados a saúde e bem-estar da mulher e da criança, o que explica que em 2005 o Relatório Mundial de Saúde tivesse como tema “para que todas as mães e crianças contem”. Este relatório chama atenção para o abrandamento e até mesmo o agravamento da situação de saúde materna e infantil em muitos países do mundo. Destaca que essa estagnação está associada à pobreza, às crises humanitárias, principalmente nas regiões da África Subsariana. A elevada mortalidade existente, principalmente nessa região já assolada por doenças como o HIV/SIDA, crises financeiras, deficiências técnicas e humanas capazes de responder ao problema, aliado aos conflitos existentes em diversas regiões, agrava ainda mais a situação.
A UNICEF tem constantemente chamado atenção para as atrocidades e abusos cometidos em mulheres e crianças nesses países em conflito, porém, parece ser uma emergência invisível e silenciosa para os mais “distraídos”. Em seu relatório Acção Humanitária 2009 afirma: “todos os dias morrem mulheres e crianças devido a doenças, à pobreza e à fome, mas lamentavelmente a maior parte das suas mortes passa despercebida.” (5)
A mesma UNICEF através do Relatório de Machel de Junho de 2009 afirma que todos têm um papel a desempenhar e apela para que se intensifiquem esforços no sentido de proteger todas as crianças afectadas por conflitos. Sublinha que os conflitos ofendem os direitos das crianças: “o direito à vida, o direito à unidade familiar, o direito à saúde e à educação, o direito à protecção contra a violência e abusos, e o direito a receber assistência humanitária”. (6)
O Relatório Mundial 2005 identifica que a falta de profissionais qualificados e principalmente a inexistência ou a ineficácia de programas de acompanhamento tem gerado intervenções pouco atempadas que permitem que muitas “mulheres arrisquem a vida para gerar novas vidas”. É claro quando coloca que o problema não está na necessidade de se adquirir tecnologias sofisticadas, e sim na urgência de se estar no lugar certo e no momento em que as pessoas mais precisam. Para que isso aconteça é necessário mais investimento, acompanhamento, continuidade dos cuidados, transferência de informações/orientações adequadas aos pais ou responsáveis para que estes participem detectando precocemente problemas e buscando de imediato assistência. É necessário que a transferência dos serviços de saúde maternos para os infantis sejam optimizados pois, “ os grandes riscos de vida começam logo que se nasce, mas não desaparecem quando os recém-nascidos se transformam em bebes maiores e depois jovens crianças”. (7)
O documento reforça a importância de cuidados de saúde de proximidade, porém diz que este deve estar bem articulado com os cuidados mais centrais (hospitais de maior porte) para que as respostas sejam rápidas, precisas e eficazes. Aborda a urgência de profissionais de saúde qualificados para melhorar os serviços de saúde maternos e infantis e incute a ideia de equidade, pois identifica “a exclusão como aspecto chave da iniquidade, bem como o principal entrave ao progresso”. (7)
Hoje já não existe mais a possibilidade de se viver isolado e esquecer simplesmente o que acontece a nossa volta. O mundo globalizado encurtou os espaços e nos deu a oportunidade de conhecermos e vivenciarmos realidades diferentes, sejam elas boas ou más. Facto que nos leva acreditar que devamos unir cada vez mais esforços para resolver os problemas, mesmo porque, amanhã estes ou as suas consequências baterão as nossas portas.
O enfermeiro pode ajudar, não só actuando no terreno onde as desigualdades se fazem presentes como alertando organismos locais e população sobre qualquer situação que seja nociva para a saúde.
Bibliografia
1- Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento (IPAD) - Uma Parceria Global para o Desenvolvimento – Contribuição de Portugal para os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio. Edição: MNE / IPAD / Direcção de Serviços de Planeamento. Julho de 2008. Consulta 2009-04-25Disponível: http://www.ipad.mne.gov.pt.
2 - CHAN, Margaret - La crisis financiera y la salud mundial. Organização Mundial de Saúde (OMS). 2009. Consulta 2009-04-25 Disponível:
http://www.who.int/dg/speeches/2009/fina
3 – Organização Pan-americana da Saúde – 26ª Conferência Sanitária Pan-Americana. Washington, D.C. EUA, Setembro de 2002. Consulta 2009-05-30 Disponível: http://www.paho.org/portuguese/gov/csp/c
4 – GUERRA, Sidney - A quarta onda globalizante e os desafios para o direito internacional. Revista da Faculdade de Direito de Campos, Ano IV, Nº 4 e Ano V, Nº 5 (2003-2004). Consulta 2009-04-25 Disponível: http://www.fdc.br/Arquivos/Mestrado/Revi
5 - Unicef Portugal – Relatório de Acção Humanitária 2009. Disponível: http://www.unicef.pt/artigo.php?mid=1810
6 - Unicef Portugal – Relatório de Machel. Junho 2009. Disponível: http://www.unicef.pt/18/09_06_16_pr_mach
7 – Relatório Mundial da Saúde –“ para que todas as mães e crianças contem”. Organização Mundial da Saúde 2005. Disponível: http://www.who.int/whr/2005/media_centre/o
8 – Organização Pan-Americana de Saúde (OPS) – Declaração de Alma Ata. Conferência Internacional sobre Cuidados Primários de Saúde. Alma-Ata, URSS, Setembro de 1978 OPS. Consulta 2009-05-03 Disponível: http://www.opas.org.br/coletiva/uploadAr
9 – Organização Pan-Americana de Saúde (OPS) – Carta de Ottawa. Primeira Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde. Ottawa, Novembro de 1986 OPS. Consulta 2009-04-28. Disponível: http://www.opas.org.br/coletiva/uploadAr
Enf. Jorge Franco
Uma pequena experiência de saúde baseada em uma realidade observada…
O Bairro Quinta da Fonte está situado na freguesia da Apelação Conselho de Loures.
Em meados de 1996, após a criação do Plano Especial de Realojamento, muitas pessoas que residiam nos chamados “bairros de lata” na área de Lisboa e arredores foram alojadas no local. Dentre os beneficiados pelo processo estão os imigrantes de minoria étnica, provenientes principalmente de Cabo Verde, Guiné-Bissau, Angola, Timor além da população cigana.
O Bairro é visto por muitos como de difícil acesso a cidade de Lisboa. Muitas pessoas reclamam do isolamento, o que gera sentimentos de diferenciação e exclusão. Existem relatos de que os próprios moradores que residem na parte mais baixa da freguesia (zona antiga) foram contrários ao realojamento dessas pessoas. A própria Divisão Municipal da Habitação da Câmara Municipal de Loures concluiu que “ (…) a concepção de modelos residenciais para acolhimento das populações proporcionando-lhes condições de higiene, conforto e privacidade, não resultam na inversão dessa condição de pobreza. Por outras palavras, essas comunidades não ganharam qualquer espaço na escala social ascendente, mantendo-se descriminadas e com baixo status” (1).
Ao abordar os moradores verificasse que são pessoas carentes de atenção e compreensão. Muitos reclamam que estão longe de tudo e de todos e que ninguém se preocupa com essa situação. Acham que estão em desvantagem com relação ao resto da freguesia, visto a fragilidade da rede de transportes e a falta de equipamentos e serviços.
No bairro nota-se certa debilidade financeira que é característica do diminuto poder de consumo da população, até porque, muitas pessoas encontram-se actualmente em situação de desemprego. Se percorrermos o bairro observamos diversas lojas fechadas e outras até mesmo abandonadas, lixo largado em locais inapropriados, ruas sujas, entre outros problemas, o que mostra o pouco interesse de alguns e dos próprios pelo local.
A inexistência de espaços e equipamentos suficientes destinados aos jovens é outra questão. Existe um número considerado de jovens que por falta de ocupação e/ou actividades desportivas e culturais ficam praticamente o dia inteiro nas ruas o que acaba gerando sensação de insegurança para os menos habituados.
A saúde como sempre é afectada por essas situações visto poder ser interpretada pelo reflexo que a pessoa tem de si frente ao ambiente físico e social que a envolve, mesmo porque, saúde e ambiente são inseparáveis.
Segundo a OMS na Carta de Ottawa (2) “Não se pode isolar a saúde de outros interesses. Os elos indissolúveis entre a população e o seu meio constituem a base para uma abordagem socio-ecológica da saúde”.
A Ordem dos Enfermeiros coloca que “o ambiente no qual as pessoas vivem e se desenvolvem, é constituído por elementos: humanos, físicos, políticos, económicos, culturais e organizacionais, que condicionam e influenciam os estilos de vida e que se repercutem no conceito de saúde. Na prática dos cuidados os enfermeiros necessitam focalizar a sua intervenção na complexa interdependência Pessoa/Ambiente” (3).
Atentando ao que foi referido podemos dizer que não é só de um “teto” que as pessoas necessitam. É preciso que se observe as características da população e que se associe a habitação propiciada serviços públicos de qualidade, emprego, mobilidade, espaços verdes e de laser, escolas, oportunidades/actividades de interesse aos jovens para que ocupem seus tempos livres, comércio dirigido as necessidades, entre outras.
É importante que se crie um espaço físico e social verdadeiramente harmonioso e sustentável capaz de promover a interacção do indivíduo ao meio fazendo com que as pessoas se orgulhem e cuidem do lugar onde vivem.
A Conferência de Sundsvall (4) identificou muitas formas e exemplos de criar ambientes favoráveis que podem ser usados por quem estabelece as políticas e toma as decisões, assim como, pelos activistas comunitários nas áreas da saúde e do ambiente. A conferência reconhece que todos têm um papel na criação de ambientes favoráveis à saúde. Chama atenção a políticos e responsáveis por tomadas de decisão em todos os sectores relevantes e a todos os níveis. Defensores e activistas da saúde, ambiente e justiça social deverão formar uma aliança alargada, visando o objectivo comum que é Saúde para Todos.
Sabemos que todos nós vivemos realidades e oportunidades diferentes. Porém, devemos estar atentos aos mais desprotegidos, praticando a inclusão e repudiando a todo o custo a exclusão, mesmo porque, segundo AMADO (5) a exclusão social “ (…) pode vir a implicar privação, falta de recursos ou até mesmo ausência de cidadania”
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BIBLIOGRAFIA
1 - Comissão Social Inter-freguesias de Camarate, Prior Velho e Sacavém - Diagnóstico Social das Freguesias de Camarate, Pior Velho, Sacavém. Setembro de 2005. Disponível: http://www.cm-loures.pt/RedeSocial/Diagn%C
2 - 7- Organização Pan-americana de Saúde – Carta de Ottawa. Primeira Conferência Internacional Sobre Promoção da Saúde. Ottawa, Novembro de 1986. OPS. Disponível: http://www.opas.org.br/coletiva/uploadAr
3 - 8- ORDEM DOS ENFERMEIROS - Padrões de Qualidade dos Cuidados de Enfermagem: Enquadramento conceptual; Enunciados descritivos.
Disponível: http://www.ordemenfermeiros.pt/
4 - OMS - 3ª Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde - Declaração de Sundsvall sobre Ambientes Favoráveis à Saúde. Sundsvall, Suécia, Junho de 199.
5 – AMADO, Rogério Roque – A exclusão social hoje. Instituto S. Tomás de Aquino. Cadernos do ISTA Nº 9.Disponível: http://www.triplov.com/ista/cadernos/cad
Enf. Jorge Franco
A educação para a saúde tradicional tem se preocupado em alterar estilos de vida considerados pouco saudáveis. Porém, tem utilizando estratégicas persuasivas e de transmissão de conhecimento sem ao menos se importar com os contextos e o ambiente onde as pessoas estão inseridas. Parte do princípio que tudo depende dos comportamentos do indivíduo e que este deve encaixar-se, de qualquer maneira, no ambiente em que vive. Este tipo de método educacional vem sendo muito criticado por pesquisadores da área por acreditarem que se baseia em conceitos estáticos e pré-estabelecidos, o que leva com que o indivíduo/grupos sejam verdadeiros “depósitos de informação” por terem que aceitar e seguir recomendações que os afasta da sua realidade. Por não conseguirem cumprir, na maioria das vezes, os conselhos transmitidos, acabam sendo culpabilizados pelos seus fracassos, o que leva a se sentirem incompetentes face ao modelo aplicado. Grenn citado por OLIVEIRA (45) acredita que para promover saúde, o ambiente deve oferecer condições físicas, económicas e sociais que proporcionem estilos de vida saudáveis e que garantam informações e serviços. O indivíduo deve ter no ambiente um suporte que auxilie nas decisões comportamentais em favor da manutenção de sua saúde.
A Organização Pan-americana de Saúde entende estilos de vida, como a maneira como as pessoas vivem e fazem suas escolhas que se relacionam com os seus contextos de vida, sua cultura, seus hábitos que podem ser adquiridos no ambiente familiar e social e com o conhecimento acumulado durante a vida (46).
É imperativo a necessidade de formação de indivíduos autónomos, livres, críticos, inovadores e criativos. Para que isso aconteça é importante que a saúde seja vista numa perspectiva individual, social e cultural, onde seja considerado, em qualquer abordagem de educação em saúde, a percepção própria do ideal de saúde de cada indivíduo, bem como, o ambiente onde este esta inserido, mesmo porque, um indivíduo jovem pode definir saúde e estilo de vida de forma diferente de um idoso, pois provavelmente terá aspirações e necessidades também diferentes. É fundamental capacitar as pessoas para que no seu dia-a-dia possam lidar com sua saúde e usufruir do ambiente que as cerca de forma positiva.
Hoje existem muitos estudos que condenam o modelo de educação para saúde tradicional e disponibilizam outros mais eficazes. Estes estudos evidenciam a influência de ambientes favoráveis a saúde, na promoção e desenvolvimento de estilos de vida saudáveis. Destacam a importância de acções que forneçam aos indivíduos condições para que possam optar, de forma livre e consciente, pelo melhor caminho para seguir suas vidas (opção informada). Baseiam-se no desenvolvimento de uma consciência crítica (capacidades de pensar) das pessoas, observando os recursos pessoais e sociais de cada um, de maneira com que se tornem sujeitos convictos e capazes de tomar decisões seguras e apropriadas para melhoria da saúde individual e colectiva. Já a Carta de Bangkok em 2005, identificava a necessidade de se intensificar acções para abordar os determinantes de saúde num mundo globalizado. Destacava a importância de políticas e parcerias para capacitação das comunidades (34).
Segundo a OMS ambientes favoráveis à saúde refere-se “ (…) aos aspectos físicos e sociais que nos rodeiam. Isto é, os locais onde as pessoas residem, trabalham e passam os seus tempos livres. O que também envolve as questões estruturais que determinam o acesso aos recursos vitais e às oportunidades de capacitação (empowerment) ” (26).
STOKOLS (47) afirma que os ambientes físicos e sociais exercem influência sobre as percepções e os comportamentos dos indivíduos podendo afectar a saúde de diferentes maneiras. Coloca que “ entre o meio e o indivíduo desenvolvem-se interacções que provocam alterações mútuas, o meio transforma o indivíduo que, ao actuar no meio, também o transforma”.
OMS considera o ambiente “ (…) de superior importância para a saúde. Os dois são interdependentes e inseparáveis (26).
Logo, concluísse que a saúde pode ser considerada uma consequência da qualidade de adaptação do binómio “pessoa x ambiente” visto serem inseparáveis.
Segundo a Ordem dos Enfermeiros a pessoa “ é um ser social e agente intencional de comportamentos baseados nos valores, nas crenças e nos desejos da natureza individual, o que torna cada pessoa num ser único, com dignidade própria e direito a auto-determinar-se”. Considera ainda que a pessoa está em sintonia constante com o ambiente que a cerca onde “ modifica-o e sofre a influencia dele durante todo o processo de procura incessante do equilíbrio e da harmonia”. Diz que o ambiente é constituído por “elementos humanos, físicos, políticos, económicos, culturais e organizacionais, que condicionam e influenciam os estilos de vida e que se repercutem no conceito de saúde. Na prática dos cuidados, os enfermeiros necessitam de focalizar a sua intervenção na complexa interdependência pessoa / ambiente” (48).
A OMS em 1986, através da carta de Ottawa define saúde de forma bastante positiva quando refere “ (…) para atingir um estado de completo bem-estar físico, mental e social, o indivíduo ou grupo devem estar aptos a identificar e realizar as suas aspirações, a satisfazer as suas necessidades e a modificar ou adaptar-se ao meio. Assim, a saúde é entendida como um recurso para a vida e não como uma finalidade de vida; a saúde é um conceito positivo, que acentua os recursos sociais e pessoas, bem como as capacidades físicas” (25).
A criação de ambientes saudáveis parte da necessidade de se analisar criticamente o local em que se vive, seja ele o ambiente domiciliar, a escola, a comunidade, o local de trabalho e lazer, entre outros. É necessário que se atente que além dos aspectos físicos na criação de ambientes saudáveis, as condições sociais, económicas, políticas e emocionais são determinantes para criação de uma relação coerente entre o ser humano e o ambiente.
É de interesse destacar a Teoria Sistémico-Ecológica de Enfermagem criada por PAIM em 1974 que assenta no “homem sistémico e cibernético”. Visualiza o ambiente, no processo de cuidar, como "um factor a mais" da rede de multicausalidade (49).
O enfermeiro, como agente fomentador da saúde, deve incentivar a participação popular na criação de ambientes saudáveis. Como educador deve procurar trabalhar junto dos indivíduos, famílias, comunidades no sentido de proporcionar conhecimentos que visem a preservação ou eliminação de possíveis agravos ao ambiente. Como investigador pode contribuir na procura de metodologias que avaliem os riscos ambientais nocivos a saúde das populações. A detecção precoce de possíveis riscos e o fornecimento de informações/orientações a cerca das questões ambientais, além de promover a saúde do indivíduo, contribui para a saúde a nível global. Desta forma podemos dizer que a relação harmoniosa entre o homem e o ambiente propicia a construção de uma sociedade com consciência ecológica e que por isso mais afectuosa, solidária e democrática.
BIBLIOGRAFIA
1 - OLIVEIRA, Thaís Branquinho; (et.al.) - A Promoção de Saúde na Perspectiva social Ecológica. Artigo de Revisão. Universidade de Brasília – DF. 2008. Consulta 2009-05-26 Disponível:
http://www.unifor.br/notitia/file/2319.p
2 - Organização Pan-americana de Saúde (OPS) – Editorial: Estilos de Vida. Consulta 2009-05-28 Disponível:
3 - World Health Organization. Bangkok charter for health promotion in the a globalized world. Geneve: WHO; 2005. Consulta 2009-04-25 Disponível: www.worldhealthorganization/html
4 - Organização Pan-Americana de Saúde (OPS) – Declaração de Adelaide. Segunda Conferência Internacional sobre Promoção da saúde. Adelaide, Austrália, Abril de 1988 OPS. Consulta 2009-04-27 Disponível:
http://www.opas.org.br/coletiva/uploadAr
5 – STOKOLS, D - Translating Social Ecological Theory into guidelines for community health promotion. American Journal of Health Promotion. 1996. Consult 2009-05-21 Disponível:
https://webfiles.uci.edu/dstokols/Pubs/T
6 - Ordem dos Enfermeiros – Padrões de Qualidade dos Cuidados de Enfermagem. Dez. 2001. Consulta 2009-05-30 Disponível:
http://www.ordemenfermeiros.pt/images/co
7 – Organização Pan-Americana de Saúde (OPS) – Carta de Ottawa. Primeira Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde. Ottawa, Novembro de 1986 OPS. Consulta 2009-04-28. Disponível:
http://www.opas.org.br/coletiva/uploadAr
8 - RIBEIRO, Maria Celeste Soares; (et.al.) - Reflexões sobre a participação da enfermagem nas questões ecológicas. Rev. Esc. enferm. USP vol.36 no.4 São Paulo Dez. 2002 ISSN 0080-6234
Enf. Jorge Franco
O surgimento e desenvolvimento das comunidades são fruto do próprio nascimento do ser humano e de movimentos migratórios com os quais o trabalho e a necessidade de vida em grupo são factores fundamentais. A sua sustentabilidade conduz a necessidade de um aumento da produção e divisão de bens, o que gera não só o desenvolvimento das regiões ou territórios, como também fortes laços e sentimentos de identidade nas pessoas, cujas características e contextos normalmente são específicos. A CIPE (1) reforça este pensamento quando define comunidade “ (…) grupo de seres humanos vistos como uma unidade social ou todo colectivo, composta por membros ligados pela partilha geográfica, condições ou interesses comuns. A unidade social constituída pela comunidade como um todo é vista como algo para além dos indivíduos e da sua relação de proximidade geográfica, partilha de condições ou interesses comuns, que constituem as partes do grupo”.
Apesar de estar na moda o termo “Enfermeiro de Saúde Comunitária”, devido a compreensão da sua importância e a necessidade no contexto actual, é importante que não esqueçamos que a enfermagem em outras épocas já desenvolvia trabalhos na área, o que contribuiu, de certa forma, para o acúmulo de saberes que hoje desfrutamos. Podemos fundamentar tal afirmação citando o trabalho de Elizabeth Fry que tinha como primeiro objectivo cuidar dos doentes “ (…) de todas as classes sociais nas suas próprias casas” (2).
Actualmente o enfermeiro comunitário adopta um papel de relevo, por assumir a responsabilidade/compromisso de ir ao encontro das necessidades reais de saúde das populações, onde centra as suas práticas na promoção da saúde, dado destaque para as actividades de educação em saúde, prevenção da doença, recuperação e manutenção da saúde, planeamento, coordenação, gestão e avaliação dos cuidados prestados aos indivíduos, famílias e grupos que constituem uma comunidade.
A Saúde Comunitária por ser uma área de especialização da enfermagem, faz com que o profissional tenha que incorporar uma visão holística e contextual da pessoa/família, o que potencializa a adequação de respostas face à especificidade dos problemas encontrados (5).
Correia (6) aborda a Enfermagem Comunitária como sendo “uma prática continuada e globalizante dirigida a todos os indivíduos ao longo do seu ciclo de vida e desenvolve-se em diferentes locais da comunidade”.
Contudo, as intervenções devem ser dinâmicas observando um conjunto de medidas que contribua para o bem-estar na óptica do cidadão inserido em sua comunidade. Sendo o enfermeiro também um cidadão “emissor e receptor de mensagens”, deve interferir nos problemas de forma precisa e harmoniosa, onde sentimentos como o de ajudar, incentivar, colaborar e participar sejam colocados em prática e tidos como prioritários.
A Ordem dos Enfermeiros (7) através do documento “Padrões de Qualidade dos Cuidados de Enfermagem” define seis categorias de enunciados que ajudam a precisar o papel do enfermeiro junto dos clientes, dos outros profissionais e do público: 1) satisfação do cliente; 2) prevenção de complicações; 3) bem-estar e o auto cuidado; 4) readaptação funcional; 5) organização dos cuidados de enfermagem e 6) promoção da saúde. Nesta última categoria, “Promoção da Saúde”, cita elementos importantes para que os enfermeiros ajudem os indivíduos a alcançarem o máximo potencial de saúde:
A) Identificação da situação de saúde da população e dos recursos do cliente / família e comunidade.
A) Criação e o aproveitamento de oportunidades para promover estilos de vida saudáveis.
B) Promoção do potencial de saúde do cliente através da optimização do trabalho adaptativo aos processos de vida, crescimento e desenvolvimento.
C) Fornecimento de informação geradora de aprendizagem cognitiva e de novas capacidades pelo cliente.
A Organização Mundial de Saúde (5) realça o papel dos enfermeiros na prevenção, identificação de necessidades, no planeamento, execução e avaliação de cuidados, com o intuito de ajudar as pessoas, famílias e grupos a determinar e a realizar o seu potencial físico, mental e social, nos contextos em que vivem e trabalham.
A percepção dos problemas inerentes a uma determinada comunidade requer o entendimento e o envolvimento profundo com a mesma, o que se traduz em proximidade. A Ordem dos Enfermeiros é assertiva quando coloca que “é no contexto da comunidade que, partindo da investigação das suas necessidades, é permitido compreender melhor os seus mecanismos e aumentar os conhecimentos nos quais os diferentes “artesãos de cuidados” se poderão apoiar” (4).
Esse aumentar conhecimentos só pode ser conseguido com a partilha de experiências que deverá ser facultada com a criação de um elo de confiança, que deve ser conquistado e preservado. O fortalecimento da relação entre o enfermeiro e o cidadão passa, entre outras, pelo respeitar de ideias, pontos de vista, conceitos providos de experiências passadas, sem que haja qualquer tipo de desvalorização. Tudo isso talvez venha de encontro a que chamo aqui “troca harmoniosa de saberes”, onde um saber “técnico e científico” não sobrepõe por completo ao outro saber “popular/experiências de vida”. A conjugação desses dois saberes deve sim servir de base para uma melhor compreensão das necessidades de mudança, tanto do enfermeiro como daquele que este assiste. A Ordem dos Enfermeiros (8) entende que “ o saber especializado em enfermagem deverá ser decorrente do aprofundar do conhecimento da pessoa já que, por definição os cuidados de enfermagem tomam por foco de atenção a promoção de projectos de saúde que cada pessoa vive e persegue”.
A multiculturalidade é um tema no qual o enfermeiro de Saúde Comunitária deve ter atenção. Não é raro observar pessoas de diferentes raças, culturas, religiões e nacionalidades em busca de respostas para os seus problemas de saúde. Essa diversidade cultural traz a oportunidade de conhecer e compreender formas diferentes de ver e estar na vida. Estas pessoas trazem em suas “bagagens” hábitos, costumes, mitos, crenças, linguagem própria, comportamentos, entre outros, que estão relacionados com suas experiências de vida, e que por isso devem ser considerados e respeitados. O enfermeiro deve procurar descodificar expressões e comportamentos naturais, provenientes da linguagem cultural do indivíduo, para que possa prestar um cuidado personalizado. Ordem dos Enfermeiros coloca que é necessário “ (…) descobrir o significado do cuidado cultural e as práticas de cuidados específicos de cada cultura (…) ” e acrescenta “ (…) para proporcionar um cuidado de enfermagem culturalmente sensível, congruente com os factores que influenciam a saúde/ bem-estar”.
A CIPE (1) define cultura como “ estrutura psicossocial com as características específicas: Tudo que a pessoa tem de saber ou em que tem de acreditar para agir de uma maneira aceitável”.
LEININGER (9) através da Teoria da Diversidade e Universalidade Cultural do Cuidado esclarece que o cuidado de enfermagem emerge no próprio contexto cultural onde daí se desenvolve. Mostrou que a Enfermagem Transcultural “ (…) é um comparativo e análise de culturas em relação às práticas de cuidado de enfermagem, visando um atendimento significativo e eficaz às pessoas de acordo com seus valores culturais e seu contexto saúde/doença”.
Diversos instrumentos legais a nível nacional e internacional garantem cuidados de saúde de qualidade a todas as pessoas, independentemente da sua origem. No caso da enfermagem o Decreto de Lei nº 104/98 Artigo 81, diz que é dever do enfermeiro: alínea a) “Cuidar da pessoa sem qualquer discriminação económica, social, política, étnica, ideológica ou religiosa; e) “Abster de juízos de valor sobre o comportamento da pessoa assistida e não lhe impor os seus próprios critérios e valores no âmbito da consciência e da filosofia de vida; f) “Respeitar e fazer respeitar as opções políticas, culturais, morais e religiosas da pessoa e criar condições para que ela possa exercer, nestas áreas, os seus direitos” (10).
A actuação do enfermeiro não se restringe as unidades de saúde. A compreensão por parte deste de que a expansão do “território da saúde” vai muito além da simples utilização por parte do cidadão das unidades de saúde, isto é, dele próprio, componente desta, e que o desenvolvimento de suas práticas deve ser centrado no indivíduo/família/comunidade também fora destas unidades, faz com que este perceba a importância de seu papel como mediador ou facilitador de mudanças positivas em prol da saúde. Mesmo porque, acredita-se que grande parte dos problemas encontram-se no seio da própria comunidade, e é responsabilidade deste, em uma perspectiva multidisciplinar, identificá-los, minimiza-los ou soluciona-los. É junto das comunidades que observamos pessoas no mais completo isolamento social e com “fome de saúde” como é o caso de idosos dependentes e sem família, cuidadores desesperados e desgastados que abdicam de sua própria vida para cuidar do outro, portadores de doenças crónicas como é o caso da SIDA que muitas vezes para não serem discriminados preferem esconder o seu status de saúde, a violência familiar, crianças abandonadas com o futuro perdido onde tornam-se verdadeiros “fantasmas” perante os olhos que não as vê, a violência na escola, o desrespeito com os idosos, a toxicodependência, o analfabetismo que cria dificuldades na obtenção de informações e oportunidades, pessoas sem-abrigo ou com habitação indigna, entre outras muitas para não falar na pobreza extrema que assola muitos países (11).
O profissional enfermeiro deve acreditar na capacidade de superação dos indivíduos frente as desavenças da vida, mesmo porque existem evidências científicas que mostram a contribuição da saúde para a qualidade de vida das populações. Da mesma forma que é sabido que muitos componentes do dia-a-dia contribuem para uma vida com qualidade, são também fundamentais para que indivíduos e populações alcancem um perfil elevado de saúde. A OMS define qualidade de vida como “ (…) a percepção do indivíduo de sua posição na vida no contexto da cultura e sistemas de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objectivos, expectativas, padrões e preocupações” (8). Já a Ordem dos Enfermeiros sublinha que “ (…) a saúde encontra-se cada vez mais associada à qualidade de vida, chegando, inclusive, a com esta se confundir”. (12)
A especialização na área por conceder um elevado grau de resposta as necessidades dos cidadãos e por proporcionar uma visão multidimensional da saúde, permite ao enfermeiro ir ao encontro dos problemas citados, através da coordenação e/ou participação de projectos locais e no desenvolvimento de actividades em vários locais na comunidade como: centros de saúde, ambulatórios hospitalares, infantários, escolas, universidades, presídios, repartições públicas, centros de desporto e lazer, locais onde se concentrem grande aglomerado de pessoas, nos domicílios, entre outros, de forma a (…) “interferir nos processos saúde/doença do cidadão, com vista à promoção da saúde, prevenção e tratamento da doença, readaptação funcional e reinserção social” (5).
O autoconhecimento e a capacidade de se auto estimular são factores determinantes para todos os técnicos de saúde que trabalham nesta área. A complexidade e a diversidade dos problemas fazem com que muitos projectos só apresentem resultados significativos a longo prazo. Essa falta de visualização de resultados imediata, aliada ao possível agravamento das situações/problema ou o aparecimento de outras, fazem com que estes técnicos experimentem uma sensação de incapacidade que resulta, muitas vezes, em desmotivação. A capacidade de leitura das suas próprias emoções e o reconhecimento dos seus efeitos, o entendimento de seu valor e de seus recursos, de suas capacidades e limites interiores são pontos fundamentais para se ultrapassar melhor os obstáculos. Porem só isso não basta, é necessário também ter um auto controlo sobre as emoções destrutivas, ser honesto e transparente, ter capacidade de adaptação frente as mudanças e ter iniciativa agindo consoante as oportunidades com orientação para estratégias futuras.
A comunicação terapêutica é um instrumento fundamental para a prática da enfermagem. A capacidade de expressar seus pensamentos de forma clara e precisa, tendo em atenção o contexto e o receptor específico (indivíduo/família/grupo) lhe proporciona uma intervenção dirigida as necessidades detectadas, observando todas as suas dimensões. Stefanelli, citado por OLIVEIRA (13) coloca que este tipo de comunicação tem intuito de identificar e atender as necessidades de saúde e contribuir para melhorar a prática de enfermagem, ao criar oportunidades de aprendizagem e activar sentimentos de confiança e auto-estima proporcionando assim maior satisfação e segurança. O mesmo autor acrescenta que é importante que se estabeleça um relacionamento empático e que se considere a individualidade, os valores, as crenças dos indivíduos utilizando sempre uma linguagem clara, de acordo com o nível de instrução da pessoa, permitindo assim uma avaliação correcta de suas necessidades.
BIBLIOGRAFIA
1- CIPE – Classificação Internacional para a Prática de Enfermagem. Versão 1.0, 2005, Ordem dos Enfermeiros Portugueses (tradução) ISBN: 92-95040-36-8.
2- VIEIRA, Margarida – Ser Enfermeiro: da compaixão à proficiência. Edição Universidade Católica Portuguesa, Lda. Lisboa. 2007. (p.18;19). ISBN 972-54-0146-8
3- Revista de Formação e Educação em Enfermagem. Escola Superior de Enfermagem de Coimbra. 1ªsérie; 5ª Edição; 2000. Consulta. 2009-05-25 Disponível: http://www.esenfc.pt/rr/rr/index.php?tar
4- Ordem dos Enfermeiros – O Enfermeiro de Cuidados de Saúde Primários. 2007. Consulta. 2009-05-25 Disponível: http://www.ordemenfermeiros.pt/index.php?p
5 - Ordem dos Enfermeiros – Tempo de Mudança. Revista da ordem dos Enfermeiros. Nº 22. Julho 2006. (p. 29 a 31) ISSN 1646-2629.
6- CORREIA, Cristina; (et. al.) - Os enfermeiros em cuidados de saúde primários. Revista Portuguesa de Saúde Pública. 2001. Consulta 2009-05-25 Disponível: http://www.ensp.unl.pt/dispositivos-de-a
7- Ordem dos Enfermeiros – Divulgar: Padrões de Qualidade dos Cuidados de Enfermagem. Enquadramento Conceptual. Revista da Ordem dos Enfermeiros. Nº32. 2002 (p. 8). ISSN 1646-2629.
8- Ordem dos Enfermeiros – Um novo modelo de desenvolvimento profissional. Certificações de Competências e Individualização de Especialidades em Enfermagem. Suplemento de Revista. Nº 26. Junho 2007. (p. 9 a 20). ISSN: 1646-2629.
9 - LEININGER, M.M. - Culture care diversity and universality: a theory of nursing. New York: National League for Nursing, 1991.
10- DECRETO-LEI nº 104/98. Diário da Republica, I Série -A de 21 de Abril. Nº 93, p. 1719 a 1757.
11- CIDADE SOLIDÁRIA – Pobreza intervir para mudar. Revista da Santa Casa de Misericórdia de Lisboa. Nº20, 2008 (p. 18 a 27). ISSN: 0874-2952.
12- Ordem dos Enfermeiros – Envelhecimento Activo e Educação para a Saúde: uma prioridade. ISSN 1646-2629. 2005. Consulta. 2009-05-25 Disponível: http://www.ordemenfermeiros.pt/index.print.php?p
13- OLIVEIRA, Poliéria, Santos; (et. al.) – Comunicação terapêutica em enfermagem revelada nos depoimentos de pacientes internados em centro de terapia intensiva. Revista Electrónica de Enfermagem. Vol. 7; Nº 1; pag. 54 a 63. 2005. Consulta 2009-05-27 Disponível: http://www.fen.ufg.br/revista/revista7_1/p
Enf. Jorge Franco
Florence Nightingale (FN), através da sua teoria ambientalista, chamava a atenção para influência do ambiente na prevenção de doenças. Tinha em suas preocupações o ambiente social, psicológico e o físico como: ventilação, humidade, sujidade, aquecimento, ruído, entre outros. Em seu livro “Notes on Nursing” FN destaca a importância de intervenções para melhorar a qualidade da água, higiene das casas e o saneamento básico, revelando assim suas inquietações ecológicas e o impacto no ser humano (1). Em sua teoria considerava a doença como um processo restaurador da saúde, e o papel da enfermeira era equilibrar o meio ambiente para que o paciente pudesse conservar a sua energia vital para recuperar-se da doença (2;3). Enquanto esteve na Turquia reuniu dados e organizou um sistema de manutenção de registos que utilizou como ferramenta para melhorar as condições dos hospitais civis e militares. Os seus conhecimentos na área da matemática foram fundamentais para recolha de informações e para o cálculo das taxas de mortalidade nos hospitais. Estes cálculos mostravam que uma melhoria nas condições sanitárias resultaria num decréscimo no número de mortes. Enfatizou a necessidade de se promover a ideia de uma enfermagem voltada para os indivíduos doentes e sadios, tendo em suas preocupações a prevenção da doença. Não devemos esquecer que Hipócrates já considerava o ambiente como factor influenciador do bem-estar, estado de saúde e do estilo de vida do indivíduo (4).
O início do século XX foi marcado por uma fase Higienista/Sanitarista que se centrava no controle das doenças transmissíveis devido as epidemias que ocorriam em grande escala na época. Estudos mostram que no final do século XIX já havia uma preocupação em combater as infecções com forte respaldo da bacteriologia, que segundo Lacerda, citado por CARRARO (5) “ (…) levando à criação de um "mundo asséptico", onde multiplicaram-se os procedimentos de controlo sobre o meio.
Por meados de 1920, Charles Winston, bacteriologista e editor da revista American Journal of Bacteriology, focava a importância dos hábitos higiénicos e defendia a ideia de se considerar o ambiente numa perspectiva ampla e não apenas em sua dimensão física. Considerava a ciência e o desenvolvimento social como pontos-chave para a saúde e refere “a ciência é a arte de prevenir a doença, prolongar a vida e promover a saúde física e a eficiência, através de esforços comunitários organizados para o saneamento do meio ambiente, o controle das infecções na comunidade, a educação do indivíduo nos princípios da higiene pessoal (…) ” e acrescenta “ (…) o desenvolvimento da maquinaria social para assegurar a cada membro da comunidade um padrão de vida adequado para a manutenção da saúde” (6). O mesmo autor destaca o papel de Henri Sigerist, como sendo um dos primeiros autores a referir o termo promoção a saúde em 1946, e considerou a educação de qualidade, boas condições de vida e de trabalho e a oportunidade de descanso e recreação como pontos a serem considerados em um programa de saúde.
Apesar de existir alguma controversa entre pesquisadores, Buss e Czeresnia citados por HEIDMANN (20) referem que o conceito de promoção à saúde tradicional foi definido inicialmente a partir do modelo de Leavell & Clark. Estes o utilizaram ao desenvolverem o modelo da história natural da doença na década de 40 como um dos elementos ao nível primário de atenção em medicina preventiva. Porém, segundo Buss, a promoção da saúde apenas se dava no período pré-patogénico durante a prevenção primária da doença, como forma de educação em saúde (6). Segundo Leavell & Clark, as actividades a serem realizadas na promoção da saúde incluíam a boa nutrição, o atendimento às necessidades afectivas, educação sexual, orientação parental, boas condições de moradia, trabalho e lazer, além de exames periódicos e da educação para a saúde. É a partir desse momento que o termo Promoção a Saúde começou a ser utilizado com mais frequência em artigos e trabalhos científicos. Porém, se observarmos, FN já tinha desenvolvido esse conceito em suas práticas, como já foi referenciado anteriormente. Muitas publicações evidenciam esse facto ao citarem, entre outras, as recomendações da enfermeira quanto a lavagem das mãos no serviço de puérperas, reduzindo consideravelmente a morte materna por febre puerperal naquela época (7).
Em 1974, surge no Canadá o Informe Lalonde, originalmente intitulado como “Uma Nova Perspectiva sobre a Saúde dos Canadenses”. Este documento é considerado um grande marco conceitual da Promoção da Saúde, além de ser o primeiro documento oficial a receber tal denominação (8). Afirma que a saúde é determinada por um conjunto de factores associáveis em quatro determinantes/categorias: biologia humana, ambiente, estilos de vida e organização da atenção á saúde (9), entendido esta última categoria como “ quantidade, qualidade, ordem, índole e relações entre as pessoas e os recursos de provisão da atenção à saúde e que trabalhados adequadamente, poderiam significar uma redução da morbidade e mortalidade naquele país (10). Neste relatório, Lalonde mostra que os determinantes ambiente e os estilos de vida, contribuem muito favoravelmente para níveis satisfatórios de saúde pública além de consumirem menos recursos se comparado com o sistema de saúde. Refere que o sistema de saúde “ (…) é apenas uma forma de manter e melhorar a saúde, e, para as ameaças ambientais e comportamentais à saúde, o sistema de saúde pouco mais pode fazer do que servir como malha receptora das vítimas” (11).
No ano de 1978, foi realizada na cidade de Alma-Ata a I Conferencia Internacional sobre Atenção Primária à Saúde - Declaração de Alma-Ata. Dos pontos abordados destaca-se: saúde como um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente a ausência de afecções ou enfermidades; inaceitabilidade da grave desigualdade existente no que diz respeito a saúde; importância da promoção e protecção da saúde como pontos indispensáveis para o desenvolvimento económico e social; participação activa individual e colectiva em assuntos de saúde; responsabilização dos governos para que cuidem de seus povos promovendo uma atenção primária de qualidade e baseada em tecnologia e métodos cientificamente fundamentados e socialmente aceitáveis; define atenção primária de saúde e alerta para melhor utilização dos recursos mundiais (12).
A Conferencia de Alma-Ata, apesar de ser essencial, não focou em sua íntegra aspectos relacionados a promoção a saúde, servindo sim de preceitos para a realização, oito anos mais tarde na cidade de Ottawa/Canadá, da I Conferência Internacional de Promoção à Saúde - Declaração de Ottawa. Esta propõe fornecer orientações para se atingir a Saúde para Todos no Ano 2000 e seguintes. Considerada referência no desenvolvimento de ideias em todo o mundo, define a Promoção da Saúde de forma bastante positiva, pois perspectiva a saúde como um processo dinâmico que não pode ficar restrito simplesmente no sector saúde. Apresenta uma óptica em conduz ao estabelecimento de estratégicas como “mobilização social, intersectorialidade e desenvolvimento de parcerias para a promoção da saúde” (13). Cita alguns requisitos fundamentais: paz no mundo, abrigo, educação, alimentação, recursos económicos, ecossistema estável, recursos sustentáveis, justiça social, equidade e fornece subsídios imprescindíveis para reflexão e implementação de acções adaptadas a nível local. Fortalece as recomendações de Alma-Ata, associando-as a promoção a saúde. Realça a importância do ambiente de trabalho como fonte de saúde, como também a protecção e conservação dos recursos ambientais. Incentiva o desenvolvimento das comunidades, através de seus recursos materiais e humanos (14;15). Em suma, na Conferência “a educação em saúde integra parcela do entendimento de promoção à saúde, abrangendo em seu conjunto cinco estratégias: políticas públicas saudáveis, ambientes favoráveis à saúde, reorientação dos serviços de saúde, reforço da acção comunitária e desenvolvimento de habilidades pessoais” (9).
A II Conferência Internacional sobre Promoção a Saúde - Declaração de Adelaide, ocorreu na Austrália em 1988. Esta destaca e objectiva dar sequência a declaração de Alma-Ata, bem como a Carta de Promoção da Saúde adoptada em Ottawa. Tem como temática central a orientação para “Políticas Públicas Saudáveis” (15).
Já a Declaração de Sundsvall de 1991, proveniente da III Conferência Internacional sobre Promoção a Saúde, faz um apelo ao mundo no sentido das pessoas se empenharem activamente em tornar os ambientes mais favoráveis à saúde, visto a tamanha desigualdade, o aumento da pobreza, a degradação ambiental inaceitável e o provável comprometimento da meta de Saúde para Todos no ano 2000. Realça quatro dimensões a se ter atenção: 1ª) dimensão social – perigo de mudanças nas relações sociais, alteração dos valores tradicionais e da herança cultural; 2ª) dimensão política – descentralização de responsabilidades e maior compromisso dos direitos humanos e da paz; 3ª) dimensão económica – disponibilização adequada de recursos para a saúde e 4ª) igualdade entre homens e mulheres em assuntos de saúde, isto é, o reconhecimento e utilização das capacidades e conhecimentos das mulheres em todos os sectores, incluindo o político e o económico (16).
Cabe aqui destacar a realização de três outras Conferências importantes relacionadas com a Promoção da Saúde que ocorreram na América Latina, Caribe e Canadá:
1ª- Conferência Internacional de Promoção da Saúde - Declaração de Santafé de Bogotá, patrocinada pelo Ministério da Saúde da Colômbia e Organização Pan-Americana de Saúde em 1992. Esta teve como objectivo principal discutir problemas específicos das Nações Latino Americanas e incorporar os resultados de reuniões internacionais anteriores e experiências na promoção da saúde de outros povos do mundo (17).
2ª - Conferência de Promoção da Saúde do Caribe - Carta do Caribe, ocorrida em Port of Spain, Trinidad e Tobago no ano de 1993. Fortificou “a importância da promoção à saúde, propondo seis estratégias fundamentais: elaboração de políticas públicas saudáveis; reorientação dos serviços de saúde; poder às comunidades para alcançar o bem-estar; criação de ambientes saudáveis; fortalecimento e desenvolvimento de habilidades pessoais para a saúde; construção de alianças, especialmente com os meios de comunicação (18).
3ª - Promoção à Saúde da População no Canadá – CPHA, 1996. Revelou “a emergência de um novo discurso na saúde, intitulado de “saúde da população”, o que iria substituir a nova promoção à saúde como eixo orientador das estratégias de promoção no Canadá” (8).
Mais tarde, no ano de 1997, deu-se início a IV Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde - Declaração de Jacarta, com o título “Novos Actores para uma Nova Era - adaptar a promoção da saúde ao século XXI”. Além de ser a primeira a se realizar em um país subdesenvolvido, permitiu a participação do sector privado nas discussões.
Teve como objectivo reflectir sobre o que se aprendeu quanto a promoção da saúde, reanalisar os determinantes da saúde para identificação de orientações e estratégias a adoptar a fim de responder aos desafios da Promoção da Saúde no século XXI (19). Definiu como acções prioritárias:
(a) Promover a responsabilidade social para com a saúde, (b) fortalecer os investimentos para fomentar a saúde, (c) consolidar e expandir parcerias em prol da saúde, (d) aumentar a capacidade comunitária e dar direito de voz ao indivíduo e (e) criar uma infra-estrutura para a Promoção da Saúde (19).
Na verdade esta declaração faz um reforço as recomendações anteriores, porém, é de se destacar: a utilização do termo “expansão de parcerias”, a inclusão, pela primeira vez, da prática de actividade física como um dos principais componentes de um estilo de vida saudável essencial no contexto Promoção a Saúde e a importância que é dada a saúde do idoso (20).
Um ano mais tarde, em Genebra, surge a Conferencia Rede de Megapaíses para a Promoção da Saúde. Parte da necessidade de se potencializar acções que promovam um maior impacto na saúde mundial por meio da formação de uma aliança entre os países mais populosos. Diz que “até o ano 2000, onze países terão uma população de 100 milhões ou mais” e acrescenta “Juntos estes megapaíses atingem 60% da população do mundo: Bangladesh, Brasil, China, Índia, Indonésia, Japão, México, Nigéria, Paquistão, Federação Russa e Estados Unidos da América. Esta diversidade de países engloba todos os níveis de desenvolvimento, experienciando diferentes estágios nos actuais padrões de morbidade e de mortalidade”. Alerta para algumas tendências negativas que devido a globalização tendem a transcenderem os limites de cada nação, causando consequências desastrosas em vários níveis. E diz “ (…) trabalhando juntos, os megapaíses podem se constituir numa voz poderosa na agenda mundial de políticas de promoção da saúde” (21).
A V Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde (Declaração Ministerial do México para a Promoção da Saúde) se realizou no ano de 2000 e teve como título “Promoção da Saúde: Rumo a uma Maior Equidade”. Nesta houve o reconhecimento da melhoria significativa da saúde e do progresso na provisão de serviços de saúde em muitos países do mundo. Porém não deixou de chamar atenção para muitos problemas que ainda devem ser resolvidos para que esses avanços sejam partilhados de forma mais equitativa.
Após análise da situação a nível mundial foi recomendado algumas acções: (a) colocar a Promoção da Saúde como prioridade fundamental das políticas e programas locais, regionais, nacionais e internacionais; (b) assumir um papel de liderança para assegurar a participação activa de todos os sectores e da sociedade civil na implementação das acções de Promoção da Saúde que fortaleçam a ampliem as parcerias na área da saúde; (c) apoiar a preparação de planos de acção nacionais para Promoção da Saúde, se preciso utilizando a capacidade técnica da OMS e de seus parceiros nessa área; e (d) estabelecer ou fortalecer redes nacionais e internacionais que promovam a saúde (22).
A Carta de Bangkok para Promoção da Saúde em um Mundo Globalizado, resultado da VI Conferência Internacional da Promoção a Saúde realizada na Tailândia em 2005, além de apoiar o conteúdo da Carta de Ottawa e as recomendações das conferências subsequentes, teve como finalidade afirmar que as políticas e as parcerias que visam empoderar as comunidades e melhorar a equidade na saúde deveriam ser incluídas nos projectos de desenvolvimento global e nacional. Fez um levantamento de alguns factores críticos da actualidade e estabeleceu quatro compromissos considerados chave para a promoção da saúde: a) Tornar a promoção da saúde uma preocupação central na agenda do desenvolvimento global; b) Tornar a promoção da saúde uma responsabilidade central para o governo como um todo; c) Tornar a promoção da saúde um dos principais focos das comunidades e da sociedade civil e d) Tornar a promoção da saúde uma exigência da boa prática corporativa (23).
BIBLIOGRAFIA
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